quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Os Que São Avessos à Revelação: Romanos 1.18-32; Salmo 14.1

Introdução
                   Em nosso tempo, embora, a tecnologia esteja em grande avanço, possibilitando aos cientistas um exame mais detalhado do universo, podendo conhecer quão majestosa é toda a criação, sendo uma obra de grande dimensão, ainda insistem em dizer que tudo começou como obra do acaso, depois de uma explosão cósmica chamada de Big-bang.
O homem, por mais conhecimento que possa ter, não admite que todo o universo seja obra das mãos do Criador. Na verdade existe uma luta do homem em tentar abafar este conhecimento que é evidente em toda a terra. Procura por todos os meios inventar teorias como a mencionada acima, ou como aquela chamada de “Teoria da Evolução”, que tenta explicar a origem da vida e diversidade das espécies, para não admitir que Deus existe.
Esta rebelião leva o homem, além dos absurdos mencionados acima, a inventar os seus próprios deuses, feitos por suas próprias mãos e imaginação.
Na verdade esta atitude do homem não é novidade, desde a sua queda no jardim do Éden ela tem sido seguida pela a humanidade.

I. Deus se revela claramente aos homens (Rm 1.19, 20, 32)
                   Deus se revela a todos os homens, dando prova de sua existência por meio das coisas criadas. Esta é a revelação geral.
Poderíamos levantar o seguinte questionamento: Será que todos podem ver e saber o que Deus anuncia? Será esta revelação clara o suficiente para que ninguém seja enganando? Definitivamente a resposta é sim. Qualquer pessoa pode saber verdades acerca de Deus sem qualquer engano, observando as obras da criação.
                   Paulo em Romanos 1.19, 20, diz que claramente Deus se apresenta, e suas qualidades pessoais, ou seja, seus atributos podem ser conhecidos claramente. Assim como um espelho, a revelação geral reflete claramente quem Deus é.
                   Olhando para um quadro, podemos pela pintura, perceber algumas características de quem o pintou. Por exemplo, olhando para tal obra, poderíamos dizer que o pintor é preciso, dando uma ideia clara do que pretendia dizer com a pintura. Poderíamos dizer que ele é criativo, detalhista. Poderíamos até mesmo perceber traços de sua personalidade, se é uma pessoa tranquila, alegre, ou se com a sua pintura queria demonstrar revolta, e etc. Assim, de forma semelhante, olhando para a criação, qualquer um pode perceber que quem a criou é alguém muito inteligente, sábio, bondoso, cuidadoso, poderoso. Poderia perceber que quem a criou é alguém muito superior ao homem, infinito em conhecimento.
                   A revelação geral revela tão claramente que Deus existe que, os homens em seu íntimo sabem que são merecedores da condenação (v.32). Por isso não há desculpa para ninguém. Muitos serão condenados não porque nunca ouviram falar de Jesus, e sim, porque rejeitaram a mensagem de Deus anunciada pela revelação geral.

                   II. Os homens rejeitam a revelação divina (Rm 1.18, 21-23, 25; Sl 14.1)
                   Só não vê quem não quer. Se o homem diz que Deus não existe, que tudo surgiu como obra do acaso, faz isso por rebeldia, pois, deseja que Deus não exista. A atitude do homem em relação a Deus, não crendo na sua existência, é uma atitude que contraria a sua inteligência.
Na verdade a atitude do homem rejeitando a revelação geral, demostra que ele quer ser superior a Deus como se não precisasse dEle.

A.    Raciocínio avesso
                   Somando dois mais dois, o resultado lógico é quatro, contudo, quando o assunto é admitir a existência de Deus, a escolha de muitos vai contra a lógica. A atitude de muitos é se convencer de que a mentira é verdade.
                   Salmo 14.1 – “Diz o insensato no seu coração: Não há Deus”. Insensato é alguém que age sem senso, sem razão. Não por que não consiga raciocinar e sim por que o seu pecado o afastou do raciocínio correto. Ele perdeu a sabedoria, o conhecimento correto acerca dos valores espirituais. O pecado que existe em nós, prejudica nossa mente, a ponto de podermos duvidar da existência de Deus. Desta forma, podemos entender o porquê de muitos cientistas conseguirem fazer descobertas espantosas, mas, ao mesmo tempo não admitirem o que está claro, ou seja, Deus existe e criou o universo.
                    Romanos 1.18 – “detém a verdade pela injustiça”, isto quer dizer que o ser humano impede, obstrui, coloca obstáculo, à verdade, para que não a veja. Isto é feito com o seu pecado. A pecaminosidade do homem, a sua injustiça, o seu próprio pecado é usado para tapar a verdade. Assim o que lhe era claro, é escurecido, por sua própria culpa.
                    Romanos 1.21 – Neste verso, Paulo explica que aqueles que detém a verdade, “se tornaram nulos em seus próprios  raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato”. O conhecimento que receberam de Deus é anulado, de tal forma que negam glorificar e adorar a Deus.
                     Romanos 1.22 – “Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos”, ou seja, o que para eles é visto como sabedoria, na verdade não passa de loucura, de uma atitude insensata, onde dois mais dois é cinco e não quatro.
                     Acabamos de verificar que, o raciocínio avesso, invertido do homem, por se encontrar em um estado de depravação, o leva a negar a existência de Deus. Procura por um esforço incansável, encobrir a revelação de Deus. Em tal atitude se encaixam também, aqueles que são chamados de ateu. Ou seja, aqueles que tentam por todas as formas, dizer que não existe nenhum Deus e que tudo foi criado por iniciativa da própria matéria.

                      B. Resultado
                      O resultado de se rejeitar a verdade, escolhendo a mentira, leva a humanidade a inventar uma religião falsa, a idolatria.
                       Em Romanos 1.23a, Paulo demonstra que a humanidade passa a adorar uma imagem humana, como se estivessem adorando a Deus, o que é idolatria (Is  44.12-20). Percebam que a rebeldia conduz a humanidade à idolatria. O homem cria por suas próprias mãos o seu próprio deus, conforme o seu próprio raciocínio. Paulo demonstra, a que ponto chega a insensatez do homem. Como exemplo disso, podemos lembrar-nos do povo de Israel, que impaciente por aguardar Moisés descer do monte, fizeram com a aprovação de Arão, um bezerro de ouro (Ex 32.1-10). A intenção na verdade, não era a de adorar outro deus, mas sim de adorar o Senhor. Isto pode ser demonstrado, conforme as palavras de Arão: “Amanhã será festa ao Senhor” (Ex 32.5).
                        Romanos 1.23b, 25, demonstra que o homem rebelde, chega a ponto de adorar a própria criação em lugar do criador. Atribuem adoração as criaturas, como aves, quadrúpedes, répteis, como se fossem Deus. Como exemplo disso, podemos nos referir aos egípcios que, consideravam como tendo poder divino, o rio Nilo, como também animais, como a rã, boi, gado em geral e etc. Quando Deus enviou as pragas para o Egito, demonstrou que seu poder estava acima de todas as divindades do Egito (Ex 7-12). Hoje, sabemos que a Índia, considera a vaca um animal sagrado, desta forma, ninguém pode matar este animal. Lá também, existe um templo dedicado aos ratos, e que todos os dias centenas de pessoas visitam este lugar para alimentá-los.
                       Percebam a que situação chega o homem em sua rebelião contra Deus.


                       III. Deus traz Juízo por causa da rejeição da revelação geral (Rm 1.18, 24-31, 32; Sl 14.1)
                       Deus se revela claramente a todos, desta forma, não há desculpa para ninguém. Todos aqueles que rejeitam a revelação geral, escolhendo por meio de seu próprio raciocínio anular tal conhecimento, estão debaixo de juízo divino (Rm 1.18). O juízo de Deus não é apenas futuro, como também presente. Ou seja, Deus um dia irá punir a todos que o rejeitaram, contudo, esta punição se manifesta agora, hoje.
                       Paulo diz que, como manifestação da ira de Deus sobre os “homens que detém a verdade pela injustiça”(Rm 1.18), “Deus entregou tais homens à imundícia” (Rm 1.24), “a paixões infames” (Rm 1.26), “a uma disposição mental reprovável” (Rm 1.28). Isto quer dizer que, por causa da rejeição a Deus, são deixados para viverem conforme a maldade do coração, a ponto de que o próprio pecado que praticam serve como castigo.
                        O que acontece é que Deus retira de tais pessoas o freio, deixando que  vivam da forma como querem. Se existe ainda bondade no mundo, é por que Deus em sua graça impede que a maldade cresça desesperadamente. Contudo, em dada situação, para punir Ele entrega pessoas aos seus próprios pecados. O resultado é que tais pessoas passam a praticar perversidade, imundície, impureza, e conforme Paulo diz pecados dos mais diversos (Rm 1.29-31) e alguns na área sexual (Rm 1.26, 27), principalmente o homossexualismo. Deus pune o pecado da idolatria, entregando os homens a mais pecado (Sl 14.1).
Contudo, a punição de Deus, irá se manifestar de forma mais intensa no juízo final. Em Romanos 1.32,                                Paulo diz que os homens que vivem em rebelião contra Deus, “são passíveis de morte”, não só os que praticam os pecados mencionados, como também aqueles que aprovam tais práticas. Todos serão punidos de forma definitiva no futuro. No juízo futuro, Deus irá punir a cada um conforme aquilo que fizeram (Rm 2.5, 6).


                        Conclusão
                        Nas escolas, universidades, a teoria do Big-bang, como a da evolução, são ensinadas na tentativa de convencer-nos de que Deus não existe, ou de que não precisamos dEle. Os argumentos em favor de tais teorias tentam ser convincentes, contudo, não conseguem ser científicos o bastante, para deixar de serem teorias. Cabe a nós como crentes, lutarmos contra tais teorias, anunciando a verdade de que Deus existe e criou todas as coisas.
                         Devemos igualmente combater a idolatria, que é resultado desta rebelião do homem, anunciando o Deus Criador, como o único que é merecedor de adoração.














quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Somos Especiais! O Significado da Imagem de Deus no Homem Gênesis 1:26-31

Introdução

Qual o significado de Deus ter-nos criado a sua imagem e semelhança? Qual a implicação para a vida cristã? Isto implica somente em privilégio ou também em responsabilidade?
A visão e o entendimento que tivermos acerca de nossa criação, certamente irão afetar a nossa cosmovisão e irá determinar nossa agir no mundo.
Mais do que nunca se faz necessário entendermos tal verdade, para que possamos participar de forma responsável da criação de Deus e servi-lo no mundo criado.
Vamos refletir acerca de nossa criação e assim verificar as implicações relacionadas a este ato glorioso de Deus.

1. Fomos criados de uma maneira especial
Quando estudamos o registro acerca da criação de Deus de todas as coisas e seres vivos, que está em Gênesis 1 e 2 percebemos que o homem foi criado de uma maneira diferente. As outras coisas e criaturas foram criadas pela simples ordem de Deus: “Disse Deus: haja luz; e houve luz... E disse Deus: Haja firmamento... Disse também Deus: Ajuntem-se as águas... E disse: Produza a terra... Disse também Deus: Haja luzeiros... Disse também Deus: Povoem-se as águas de enxames de seres viventes; e voem as aves... Disse também Deus: Produza a terra seres viventes... animais domésticos, répteis e animais selváticos...” (Gn 1.3, 6, 9, 11, 14, 20 e 24). Contudo, quando cria o homem, não o faz por uma simples ordem, e sim através de um entendimento, um conselho, de Deus com Ele mesmo. Lemos em Gênesis 1:26: “Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança...” Isto não é dito quando Deus criou os outros seres. A expressão verbal “façamos”, está na primeira pessoa do plural. Isto indica a pluralidade de pessoas em Deus. Prova-nos, juntamente com outros textos bíblicos, que em Deus há três pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo. Na criação do homem, Deus se aconselha consigo mesmo. As três pessoas da Trindade, em entendimento entre elas, resolvem criar o homem e mulher, a sua imagem e semelhança. Calvino diz que: “Até aqui Deus tem se apresentado simplesmente como comandante; agora, quando ele se aproxima do mais excelente de todas as suas obras, ele entra em consulta".1
Na criação do homem e mulher, Deus se envolve mais pessoalmente. No relato mais detalhado acerca da criação do homem e mulher, em Gênesis 2:4-20, Deus forma o homem do pó da terra e sopra nele o fôlego de vida. A mulher é criada da costela de Adão. Quando Deus cria os outros animais, ordena que eles sejam criados, já com respeito ao homem e mulher, Ele mesmo, forma do pó, sopra o fôlego de vida, toma da costela e etc. Isto serve para demonstrar, nossa dignidade, nosso valor para nosso Deus. Fomos criados de uma maneira especial e maravilhosa. Na criação do homem Deus estabelece um vínculo muito íntimo de relacionamento.

2. Fomos criados com habilidades especiais
Somos diferentes no que diz respeito às habilidades atribuídas a nós. Somente o homem e a mulher, foram criados a “imagem e semelhança” de Deus.2 Estas duas palavras são sinônimas, enfatizando que a humanidade é uma imagem que é semelhante a Deus mesmo. Quando dizemos que somos a imagem e semelhança de Deus, não estamos falando da aparência física, pois Ele é Espírito (Jo 4:24). Estamos falando das habilidades, que o homem recebeu e que refletem o ser de Deus, sendo elas:
a) Justiça e retidão: O homem foi criado justo, reto, sem pecado, bom, assim como é Deus.
b) Personalidade: O homem é um ser que possui personalidade própria, possui individualidade. Cada pessoa tem o seu temperamento, preferências, desejos, diferentes de outras. Por causa dessa característica que possuímos, podemos também nos relacionar com outras pessoas e com Deus.
c) Liberdade: Deus criou o homem com liberdade para escolher. Podia escolher entre obedecer a Deus ou não.
d) Conhecimento Espiritual: O homem tinha compreensão exata acerca de Deus.
e) Imortalidade: Foi criado para viver eternamente. Embora, o pecado tenha produzido a morte, o homem nunca deixa de existir.
f) Espiritualidade: Tinha a capacidade de estar em comunhão com Deus. Esta comunhão não tinha o obstáculo do pecado.
g) Domínio sobre a natureza: Homem e mulher eram gerentes, administradores de Deus, deveriam cuidar do jardim, cultivar a terra, dominar sobre os animais e cuidar de toda a criação.
h) Inteligência, razão e afeições: as ações do homem são determinadas pelo raciocínio, razão e sentimentos, enquanto que as ações dos animais são determinadas pelo seu instinto natural.
Com todas estas habilidades, o homem espelha a Deus. É claro que, com a queda do homem pela desobediência (Gn 3), esta imagem e semelhança foi deformada. Contudo, mesmo depois da queda, o homem continua a ser a imagem de Deus (Gn 9.6 e Tg 3.9). Esta imagem, que foi deformada pelo pecado, através de Cristo, ela é transformada, restaurada, gradativamente. Aqueles que crêem em Cristo, estão sendo transformados a semelhança de Cristo, ou seja, a semelhança de Deus (Rm 8.29; 2Co 3.18).
Somos de fundamental importância no atuar do reino de Deus. Não recebemos habilidades tais, para usarmos a nosso bel prazer e sim, para refletirmos diante da criação a imagem de Deus.

3. Fomos criados para um papel especial
Somos diferentes também, no que diz respeito ao papel que desempenhamos.
Homem e mulher foram criados para espelhar, refletir, imitar a Deus. Foram criados para serem representantes de Deus, seus administradores. Como já nos referimos acima, eles deveriam dominar sobre a criação, cuidar do jardim, cultivar a terra, dar continuidade a raça humana através da procriação e etc. As habilidades que receberam de Deus, deveriam ser usadas neste importante papel, de espelhar e representar a Deus.
É importante enfatizarmos que, tal papel continuou sendo válido, ou seja, continuou sendo um dever ordenado por Deus para ser obedecido, mesmo depois da queda. É claro que, depois da queda, homem e mulher, já não podem mais, exercer este papel com perfeição, contudo aqueles que são de Cristo, por que estão sendo transformados, podem melhor cumprir este papel, de tal forma que a imagem de Deus é refletida de uma maneira mais clara.
Este papel deve ser desenvolvido, em três relacionamentos diferentes, mas que contudo envolvem todo o nosso viver neste mundo:
1. Relacionamento social: Homem e mulher, devem se relacionar, constituir família, criar filhos, e desta forma, vivendo em harmonia devem espelhar a Deus. Este relacionamento se estende a todas as pessoas. Por isso, vemos que em toda parte da Bíblia, somos incentivados a desenvolver um bom relacionamento, a expressar respeito, amor, para com os nossos semelhantes; sejam eles os familiares (Gn 2.20-25; Sl 128; Ef 5.21-6.4), o próximo (Mt 22.34-40; Rm 12.9, 10, 17 e 18), os inimigos (Mt 5.43-47; Rm 12.14, 19, 20 e 21) ou irmãos em Cristo (Gl 6.10; 1Jo 3.11-24).
2. Relacionamento cultural: Ao homem cabe a tarefa de dominar, administrar a criação de Deus (Gn 1.26-29; 2.15-17). Este relacionamento envolve os aspectos, político, educacional, comercial, de trabalho, artístico, tecnológico, de recreação. Tudo pertence a Deus, cada aspecto deste mundo, desta forma, devemos em tudo ser fiel ao nosso Deus e fazer o melhor para Ele, honrando-o e glorificando-o (Ef 6.5-9; 1Co 10:31).
3. Relacionamento Espiritual: Desde a sua criação, Deus tem chamado o homem a um relacionamento que, envolve a obediência. Adão e Eva no Éden, deveriam obedecer a ordem dada a eles de não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. Conforme o relato de Gênesis 3:1-7, eles desobedeceram este mandamento e assim o relacionamento espiritual foi quebrado. Contudo, logo em seguida (Gn 3:15), Deus anuncia a vinda daquele (Cristo) que, viria para destruir o poder do diabo e restaurar este relacionamento quebrado (Rm 5.1-11). Em Cristo Jesus e através dele temos a comunhão com Deus restaurada e somos chamados para viver em obediência a Ele. Este relacionamento ou comunhão com Deus, é também exercido com todos aqueles que fazem parte da Igreja de Cristo.
Somos especiais, com um papel importantíssimo, ou seja, espelhar a Deus, representá-lo, diante de todo o mundo, de toda a criação.
Percebam que privilégios geralmente são seguidos por responsabilidades. Fomos criados diferentes de todas as criaturas e temos também a responsabilidade de administrar, cuidar do que Deus criou.
Estamos debaixo de um pacto com Deus, onde nos é exigido obedecer os mandatos da criação, pois para isso é que fomos criados.

Conclusão
Vimos como Deus nos criou de uma maneira totalmente especial, no contexto do reino da criação, com a função de que em cada área da vida possamos nos desenvolver, administrando sua criação.
Precisamos evitar o desequilíbrio, em dar atenção ao cumprimento de um mandato e não dar atenção ou desenvolver os outros.
Deus não nos criou para ser individualistas, mas, para nos aplicarmos a beneficiar toda a criação para sua glória.
Que possamos cumprir nosso papel no mundo, em todas as áreas, de forma adequada, glorificando a Deus.
1 Citação extraída do trabalho A Imagem de Deus no Homem segundo Calvino, da Academia Calvinia.

2 Em nossos dias vemos um cuidado exagerado com os animais domésticos. Pessoas gastam fortunas para dar conforto e saúde a seus animais de estimação. Outras protestam e até mesmo destroem patrimônio alheio alegando defender os direitos dos animais. Não sou contra a proteção de animais, tampouco contra alguém cuidar de forma adequada de seu animalzinho, dar a melhor ração, levar ao veterinário, aliás, na minha opinião se você tem um animal de estimação, então cuide adequadamente ou dê para alguém que vai cuidar. Sou contra alguém maltratar um animal. Na minha opinião se alguém maltrata um animal, ou o submete a tortura, deve ser responsabilizado até mesmo criminalmente. Sendo assim, deixo bem entendido, que sou contra o exagero e a dimensão que toma as causas em defesas de animais. Por outro lado vemos outros defendendo por exemplo, o aborto e o uso de embriões humanos em pesquisas científicas, e tal posição parece ser aceita por muitos e ganha proeminência da mídia. Tudo isso indica um desiquilíbrio. Dá-se mais valor a vida animal do que a vida humana. Realizar pesquisas com animais é considerado inaceitável e desumano e até mesmo desnecessário, mesmo que seja com o fim de produzir medicamentos que prolongue a vida humana. Por outro lado, aceita-se a realização de pesquisas com embriões humanos, afinal de contas, defende-se que é com o fim de trazer a cura e prolongar a vida humana. Há outros que defendem o aborto, alegando que a mulher deve decidir, se lhe é conveniente ou não ter um filho. Perdemos assim de vista o valor e a dignidade humana atribuídas a nós pelo Criador. A vida animal é tratada com mais respeito, do que a vida humana. A que ponto chegamos? Salvar um animal se tornou uma ato mais humano, do que defender a vida humana embrionária, ou ser contra a interrupção de uma gravidez. As leis são cada vez mais rígidas para quem mata um animal (pior se for silvestre) do que para alguém que mata uma pessoa, um homem ou uma mulher feitos a imagem e semelhança de Deus.   

Vida Animal X Vida Humana: A que ponto chegamos?

Em nossos dias vemos um cuidado exagerado com os animais domésticos. Pessoas gastam fortunas para dar conforto e saúde a seus animais de estimação. Outras protestam e até mesmo destroem patrimônio alheio alegando defender os direitos dos animais. Não sou contra a proteção de animais, tampouco contra alguém cuidar de forma adequada de seu animalzinho, dar a melhor ração, levar ao veterinário, aliás, na minha opinião se você tem um animal de estimação, então cuide adequadamente ou dê para alguém que vai cuidar. Sou contra alguém maltratar um animal. Na minha opinião se alguém maltrata um animal, ou o submete a tortura, deve ser responsabilizado até mesmo criminalmente. Sendo assim, deixo bem entendido, que sou contra o exagero e a dimensão que toma as causas em defesas de animais. Por outro lado vemos outros defendendo por exemplo, o aborto e o uso de embriões humanos em pesquisas científicas, e tal posição parece ser aceita por muitos e ganha proeminência na mídia. Tudo isso indica um desiquilíbrio. Dá-se mais valor a vida animal do que a vida humana. Realizar pesquisas com animais é considerado inaceitável e desumano e até mesmo desnecessário, mesmo que seja com o fim de produzir medicamentos que prolongue a vida humana. Por outro lado, aceita-se a realização de pesquisas com embriões humanos, afinal de contas, defende-se que é com o fim de trazer a cura e prolongar a vida humana. Há outros que defendem o aborto, alegando que a mulher deve decidir, se lhe é conveniente ou não ter um filho. Diga-se de passagem, que os defensores em sua grande maioria, nem estão discutindo, o aborto em casos de saúde ou risco de vida, ou ainda no caso de violência sexual. A grande maioria dos defensores, querem mesmo é legalizar o aborto, por razões as mais fúteis. Perdemos assim de vista o valor e a dignidade humana atribuídas a nós pelo Criador. A vida animal é tratada com mais respeito, do que a vida humana. A que ponto chegamos? Salvar um animal se tornou uma ato mais humano, do que defender a vida humana embrionária, ou ser contra a interrupção de uma gravidez. As leis são cada vez mais rígidas para quem mata um animal (pior se for silvestre) do que para alguém que mata uma pessoa, um homem ou uma mulher feitos a imagem e semelhança de Deus.  

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Efeitos da Reforma Protestante em sua vida


No dia 31 de outubro comemoramos o Dia da Reforma Protestante. Falar nessa data para muitos pode parecer algo sem grande significado. Talvez por não gostarem de história e quem sabe, por algo mais profundo ainda, ou seja, por não perceberem os efeitos desse movimento em suas vidas.
É importante percebermos em nossa vida os efeitos e as contribuições trazidas pela Reforma Protestante. Um desses efeitos tem haver com a valorização do indivíduo. Até a Reforma Protestante, por causa do pensamento católico romano difundido, o indivíduo não era valorizado. No pensamento católico romano somente a vida do clero tinha significado, enquanto que a vida do leigo, ou seja, do povo em geral, era vista sob a tutela da igreja. A Igreja Católica Romana estabeleceu um dicotomia entre a vida sagrada, ligada ao clero, e portanto, mais elevada e significativa e a vida profana, ligado ao povo, mundana sem significado.
Martinho Lutero e João Calvino contribuíram para a valorização do indivíduo e sua autonomia em relação a igreja institucional e seu clero. Lutero e Calvino combateram a ideia de duas classes de pessoas na igreja, a do clero e do leigo. Perante Deus somos todos iguais. Todos podem se aproximar de Deus pela mediação única de Cristo. Pelo fato de sermos todos sacerdotes, somos constituídos não só do privilégio de podermos nos achegar a Deus, mas também da responsabilidade de intercedermos por nossos irmãos. Com a redescoberta da doutrina bíblica do sacerdócio universal dos crentes, a vida ganhou significado e importância.
 No que se refere a leitura da Bíblia, primeiro Lutero e depois Calvino, entenderam a necessidade de todo o povo poder ter acesso à ela, poder lê-la e interpreta-la. Não há dois tipos de crentes.  Uma das primeiras iniciativas de Lutero foi traduzir a Bíblia para a língua alemã, para que todos pudessem ter acesso a ela. Até então, no pensamento católico, a igreja era a guardiã desse livro e somente o clero podia interpretá-la, mesmo porque o povo não sabia ler e nem era incentivado a isso. Este é um efeito da Reforma, que muitas vezes não percebemos. Se tornou tão comum ter a Bíblia em casa escrita em nossa própria língua, poder lê-la sem qualquer culpa e receio, que nos esquecemos de que isso é efeito da Reforma Protestante.
Esta mudança de pensamento em relação ao indivíduo, que se tornou característico no pensamento das igrejas protestantes irá desencadear mudanças mais profundas. Para os reformadores toda a vida deve ser considerada espiritual, ou seja, todos os aspectos da vida devem ser visto sob o prisma de nosso relacionamento com Deus. Tudo deve ser feito para a sua glória. Somos sacerdotes de Deus no mundo e temos o dever de fazer tudo para a glória do Senhor. Não havendo a dicotomia entre vida sagrada e vida profana, sendo toda vida considerada do prisma espiritual, isto provocou uma mudança bastante significativa nas diversas atividades trabalhistas. O trabalho ganhou um novo status. Passou a ser uma atividade legítima e espiritual. Através dele o homem deve servir a Deus e a seu próximo. Foi isto que fez com que os países que abraçaram a Reforma, se desenvolvessem rapidamente e se distinguissem daqueles que não abraçaram a Reforma.
No dia 31 de outubro, ao pegar sua Bíblia e ler e poder interpretá-la aplicando seus ensinamentos a sua vida; ao poder dobrar seus joelhos orar por você e por seus irmãos somente pela mediação de Cristo; ao sair para o seu trabalho, encontrando nele satisfação por poder servir a Deus e ao próximo através dessa atividade; lembre-se que esse entendimento que você tem são efeitos da Reforma Protestante em sua vida. Portanto, em tal data, como sacerdote dobre seu joelho e agradeça a Deus por ter usado seus servos para fazer com que as verdades bíblicas mencionadas, fossem redescobertas e trazidas novamente à superfície.



quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O pensamento reformado e a questão do indivíduo – Lutero e Calvino

                  
A reforma protestante significou um rompimento com o Catolicismo. No contexto católico romano, a atitude valorizada estava ligada à vida religiosa clerical, enquanto a laica era considerada de menor valor.
No entanto, mudanças começavam a surgir e no século XVI elas ganhariam força e provocariam um enfraquecimento definitivo no domínio exercido pela Igreja Católica. O Renascimento e o Humanismo foram movimentos que contribuíram para isso. Por meio de tais movimentos, surgiram homens que valorizaram o livre pensamento e a ação autônoma do indivíduo, em relação à Igreja Católica. Calvino foi um desses humanistas[1].
Sobre o Humanismo, como uma das causas da Reforma, diz André Biéler:
                   Tem-se na eclosão do humanismo uma das causas da Reforma. Certamente que esta renovação                    intelectual, como outros muitos fatores históricos, contribuiu amplamente para facilitar a                                expressão e a formulação da doutrina dos Reformadores.[2]

Martinho Lutero e João Calvino foram alguns desses homens que surgiram na época e que mudaram o rumo do Cristianismo. Influenciados por seus mestres, ambos, cada um em sua época, o primeiro na Alemanha e o segundo na França[3], romperam com a Igreja que abominou o que propunham. É importante ressaltar que os jesuítas, na mesma época, influenciados pelo humanismo renascentista, se expressaram de forma diferente em relação à Igreja Católica, porém, assim como os reformadores, deram atenção a leitura bíblica e escreveram diversos comentários ao texto bíblico[4]
Martinho Lutero era monge agostiniano. Enfrentava uma crise existencial e em contato com o estudo das Escrituras Sagradas (Bíblia) compreendeu que a religiosidade ensinada pela Igreja Católica – fundamentada na devoção aos santos mediada por imagens e relíquias consideradas sagradas – contrariava o ensino bíblico. Além de condenar as penitências[5], Lutero propôs com seus ensinos que cada cristão devesse ler as Escrituras[6]. Daí uma de suas primeiras iniciativas foi traduzir para a língua alemã os livros da Bíblia. Para Lutero, todo crente era sacerdote de Deus e, portanto, não precisava da mediação dos sacerdotes católicos para se achegar a Deus. “Lutero rompeu decisivamente com a divisão tradicional da igreja em duas classes, clero e laicato”.[7] Essa atitude contribuiu para a mudança quanto à concepção de indivíduo. Para Lutero, todos têm condições, pela mediação de Cristo, de se achegar a Deus, bem como responsabilidades de agir como sacerdotes. “O sacerdócio de todos os cristãos é tanto uma responsabilidade quanto um privilégio, um serviço tanto quanto uma posição”[8].
Lutero diz:
O fato de que somos todos sacerdotes e reis significa que cada um de nós, cristãos, pode ir perante Deus e interceder pelo outro. Se eu notar que você não tem fé ou tem uma fé fraca, posso pedir a Deus que lhe dê uma fé sólida.[9]

A valorização do indivíduo irá contribuir para a valorização da vida laica e de todos os desdobramentos resultantes disto. A doutrina da justificação pela fé, redescoberta por Lutero, com o contato que teve com as Escrituras, fez com que ele mudasse seu pensamento sobre a mediação exercida pela Igreja entre Deus e os homens. Em especial nos estudos que fez de um dos livros da Bíblia – a Carta do Apóstolo Paulo aos Romanos –, entendeu que sua salvação se daria pela fé somente, e que todo o sistema de mediações criado pela Igreja Católica não produzia, em seu íntimo, a paz que almejava. Tendo pela leitura do texto de Romanos – especificamente o capítulo 1, versículo 17 – encontrado a paz que almejava, começou a propagar o ensino da justificação pela fé somente.
Acerca do efeito que teve sobre ele a compreensão da leitura do referido texto, diz:
[...] comecei a entender que a “justiça de Deus” significa aquela justiça pela qual o homem justo vive mediante o dom de Deus, isto é, pela fé. É isso o que significa: a justiça de Deus é revelada pelo evangelho, uma justiça passiva com a qual o Deus misericordioso nos justifica pela fé, como está escrito: “Aquele que pela fé é justo, viverá”. Aqui, senti que estava nascendo completamente de novo e havia entrado no próprio paraíso através de portões abertos.[10]

Sobre a importância e consequência da doutrina da justificação pela fé em Lutero, Quentin Skinner comenta:
Finalmente, é o solifideísmo de Lutero – sua doutrina da justificação “pela fé somente” – que está na base dos dois traços centrais de seu conceito herético de Igreja. Primeiro, ele desqualifica a importância da Igreja enquanto instituição visível. Se alcançar a fidúcia constitui o único meio pelo qual o cristão pode esperar a salvação, não resta lugar para a idéia canônica da Igreja como autoridade interposta, medianeira entre o indivíduo fiel e Deus [...]. A verdadeira Igreja não passará de uma invisível congregação fidelium, de uma congregação dos fiéis unidos em nome de Deus. [...] A segunda característica distintiva em seu conceito de Igreja é que, ao enfatizar a idéia da ecclesia como nada mais que uma congregatio fidelium, Lutero também reduz ao mínimo o caráter separado e sacramental do sacerdócio. É disso que resulta a doutrina do “sacerdócio de todos os fiéis” [...]. O reformador aqui argumenta que, se a Igreja é apenas Gottes Volk, só pode haver “engodo e hipocrisia” na pretensão de que “papa, bispo, padres e monges sejam chamados estado espiritual, enquanto aos príncipes, senhores, artesões e lavradores se chama estado temporal”.[11]

Lutero desejava abolir a dicotomia que existia, conforme o ensino católico, e insistia no fato de que não há dois tipos de cristãos, um pertencendo ao estado espiritual e outro ao estado temporal. Todos pertencem ao estado espiritual, não como resultado da posição ou papel que ocupam na sociedade, mas em virtude da capacitação da fé, tornando todos igualmente capazes de serem espirituais e de constituir um povo cristão. Para Lutero, “todos os crentes, e não somente a classe sacerdotal, têm igual dever e condição de socorrer seus irmãos e de assumir a responsabilidade por seu bem-estar espiritual”. Além disso, ele se empenha em demonstrar que todo crente fiel pode se relacionar com Deus sem a mediação de qualquer intermediário. “O resultado é que em todo a sua eclesiologia, bem como no conjunto de sua teologia, constantemente nos vemos reconduzidos à figura – central – do indivíduo cristão, com sua fé na graça redentora de Deus”[12].
Lutero, em sua doutrina, valorizava justificação pela fé, bem como a Bíblia na língua do povo, e esses dois ensinos e ênfases contribuíram para o êxito da Reforma [13].
Calvino, pertencendo a uma segunda geração de reformadores, irá desenvolver ainda mais a concepção acerca do indivíduo, valorizando a sua participação ativa no mundo de Deus. Para Calvino, também, todos os crentes são sacerdotes de Deus, por isso não precisam da mediação da igreja para obter o perdão divino e, por outro lado, tudo quanto realizam no mundo, seja qual for a atividade, devem realizá-la para a glória de Deus.
Calvino diz sobre o alvo da vida do cristão:
[...] é dever dos crentes oferecerem seu corpo “por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”, que constitui o culto legítimo que lhe devemos prestar. Desse princípio decorre a exortação a que eles não se acomodem à imagem deste século, mas que sejam transformados pela renovação da sua mente, para buscar e experimentar a vontade de Deus. Temos aí um importante motivo para dizer que somos pessoas consagradas e dedicadas a Deus para que não pensemos, nem meditemos, nem façamos coisa alguma que não seja para a sua glória. Porque não é lícito aplicar algo sagrado a uso profano. Ora, se nós não nos pertencemos, mas somos do Senhor, vê-se claramente o que devemos evitar para não errarmos, e para onde devemos canalizar todas as ações que pratiquemos em nosso viver.[14]

Percebe-se nas palavras de Calvino que, diferente do pensamento Católico Romano, que concebe a vida no cotidiano como âmbito profano, para o reformador, a vida do crente e todas as suas ações são do âmbito sagrado, pois pertencem a Deus.
Assim como Lutero e outros reformadores, as concepções de Calvino são conduzidas pela interpretação das Escrituras. Calvino, além de escrever o seu tratado sobre a Religião, conhecido como As Institutas da Religião Cristã, comentou vários livros da Bíblia, obras nas quais expressou seu pensamento.
Pode-se dizer que tanto Lutero quanto Calvino defendem uma ascese intramundana. Isso irá repercutir de forma a produzir transformações em todos os âmbitos, servindo de fermento para a chamada modernidade. A concepção de Calvino, de que toda a atividade praticada pelo fiel deve glorificar a Deus, contribuiu para uma valorização do trabalho e consequentemente para o desenvolvimento econômico e tecnológico das cidades que abraçaram sua concepção teológica. Não é à toa que estudiosos estabelecem uma relação entre o Capitalismo Moderno e o Calvinismo.
Sobre essa relação, diz MacGrath:
Tão grande é a relevância do surgimento do Capitalismo moderno para a formação da civilização ocidental que, se um vínculo com João Calvino puder ser estabelecido, pode-se creditar ao Reformador – de forma positiva ou negativa – a motivação de um impulso fundamental do mundo moderno.[15]

                 João Calvino, em seus escritos teológicos, procurará demonstrar a necessidade de o crente engajar-se nas questões sociais. “Por todos os seus escritos, encontramos uma determinação de se engajar na objetiva existência social dos seres humanos, juntamente com os problemas e as possibilidades que daí derivem”[16]. “O Calvinismo, em suma, significava não apenas nova doutrina teológica e governo eclesiástico, mas nova escala de valores morais e novo ideal de conduta social”[17].
A concepção alcançada por Calvino, de que o fiel deve engajar-se nas atividades seculares para glorificar a Deus, produziu uma valorização do trabalho. Para Calvino “o fiel não é chamado [por Deus para a salvação] a deixar o mundo e a ingressar em um monastério, mas a ingressar plenamente na vida do mundo e, assim, transformá-lo”[18]. Isso certamente contribuiu para o desenvolvimento do conceito sobre o indivíduo. A atividade do fiel, fosse qual fosse, era importante e necessária.
                 Calvino diz: “Se seguirmos fielmente nosso chamamento divino, receberemos o consolo de saber que não há trabalho insignificante ou nojento que não seja verdadeiramente respeitado e importante ante aos olhos de Deus”[19]. E, comentando o texto bíblico da Epístola de Paulo aos Efésios, em que o apóstolo orienta os servos (escravos) a servirem seus senhores como se servissem a Cristo, sabendo que serão recompensados quer fossem escravos ou livres, o reformador diz:
Que poderosa consolação! Se porventura tiverem que conviver com senhores mal-agradecidos ou cruéis, Deus aceitará seus serviços prestados a homens indignos como prestados a ele próprio. Quando os servos ponderam sobre o orgulho e arrogância de seus senhores, amiúde concluem que seu labor é de nenhum proveito, e a tendência é tornarem-se indolentes. Paulo, porém, lhes diz que sua recompensa está guardada com Deus pelos serviços que parecerem ser mal remunerados pelos homens embrutecidos; e que, portanto, não há razão alguma para que deixem de seguir seu curso predeterminado. Adiciona que nenhuma distinção deve ser posta entre um homem escravo e um homem livre. O mundo está habituado a pôr menos valor nos labores dos escravos. Ele afirma que com Deus não se dá o mesmo, senão que, para ele, são tão preciosos como os deveres dos reis. Porque a posição externa é desprezada e cada um é julgado segundo a integridade de seu coração.[20]

                        E contextualizando a mensagem da referida epístola, diz:
Este ensino, porém, se aplica também a empregados e empregadas de nossa própria época. É Deus quem determina e regula a sociedade. Visto que a condição dos empregados [de hoje] é muito mais tolerável, eles devem considerar-se muito menos escusáveis caso não se esforcem, de diversas maneiras, a comportar-se como Paulo diz.[21]

                  Essa valorização do trabalho e consequentemente do indivíduo, motivando-o a um engajamento responsável no mundo, praticando suas atividades de maneira apropriada, desencadeou o desenvolvimento industrial e financeiro de diversos países da Europa que se tornaram protestantes.
Para Calvino, o envolvimento ativo e responsável no mundo, na verdade, era uma forma de o fiel confirmar a sua vocação divina, ou seja, confirmar que, de fato, havia sido escolhido para a salvação. Desta forma, no processo da “santificação do fiel”[22], rumo a sua salvação, sua participação apropriada no mundo serviria de prova de sua vocação. “É pelo ativismo no mundo que o fiel pode garantir à sua consciência conturbada de que ele ou ela está entre os eleitos”[23].
A primitiva propensão calvinista em relação ao ativismo moral, econômica e política pode, assim, ser vista como algo que repousa sobre importantes fundamentos teológicos. Por intermédio de um envolvimento ativo nas questões seculares, sob a orientação das Escrituras, o cristão poderia firmar sua vocação e alcançar a paz de espírito (sempre um artigo precioso e obscuro, em meio aos círculos puritanos) a respeito de sua eleição. A noção de “vocação” (vocatio) deve ser interpretada nessa perspectiva: a ordem para a realizar boas obras não está ligada, necessariamente, a uma vocação secular em especial (por exemplo, ser um açougueiro, um padeiro ou um artesão que produz castiçais), mas a necessidade de demonstrar a vocação divina de uma pessoa a si mesmo a ao mundo à sua volta.[24]

Como se procurou demonstrar, a Reforma Protestante produziu uma concepção diferente acerca do indivíduo e de sua participação no mundo, contribuindo para transformações na sociedade que a abraçou.


Nota: Este artigo é parte integrante da dissertação que defendi no mestrado em Ciência da Religião, na Universidade Federal de Juiz de Fora com o título: A Implantação do Presbiterianismo em Juiz de Fora: Sua Implantação Tardia em 1950.



[1] Paul TILLICH. História do Pensamento Cristão. São Paulo: ASTE, 2004, p. 269.
[2] André BIÉLER. O Pensamento Econômico e Social de Calvino. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 44
[3] Embora Calvino fosse francês e tenha iniciado sua caminhada como reformador na França, pelo fato de ter que fugir de seu país por causa da perseguição da Igreja Católica, tornou-se reformador em Genebra, na Suíça. Mas, de Genebra, exerceu grande influência sobre os reformados na França, enviando escritos e outras contribuições.
[4] John O’MALLEY. Os Primeiros Jesuítas. São Leopoldo: UNISINOS; Bauru: EDUSC, 2004, p. 403.
[5] Em suas 95 Teses, que foram afixadas na porta da Capela de Wittenberg, isso fica claro. Lutero condena o abuso da Igreja em vender aos fieis indulgências que, segundo a Igreja Católica, davam direito ao perdão divino, livrando o penitente do purgatório.
[6] Isso não foi algo proposto a partir de Lutero. Antes de Lutero, os chamados pré-reformadores propuseram o mesmo e procuraram disseminar entre o povo os ensinos bíblicos. Sobre a mudança da religiosidade, influenciada pela leitura bíblica, e os seus efeitos sobre a construção de uma fé livre dos laços do clero, Biéler comenta: “Desde o século XII, com São Bernardo, a piedade popular se nutre da contemplação dos sofrimentos de Cristo, do Cristo humano, humilhado pelos grandes e carregado da penalidade dos homens, na comunhão do qual ela penetra pela identidade de suas próprias misérias. Pouco a pouco, a vida humana de Jesus leva vantagem sobre Sua natureza divina e se cerca de um mundo maravilhoso de mártires de santos, que cria uma religião bastante próxima do fiel, muito familiar, todavia, sempre mais complicada e recheada de devoções supersticiosas. Por seu caráter pessoal, todavia, esta piedade contribui para mais e mais dispensar o fiel da mediação do sacerdote e a distanciá-lo da Igreja, cujas pompas e preocupações políticas o afastam cada dia ainda mais. A porta está aberta, entre o povo, a uma renovação da fé que livre a piedade de muitos obstáculos atravancadores e que, pelo uso pessoal das Santas Escrituras, redescubra direto contacto com o Deus do Evangelho, Que salva graciosamente pela só mediação de seu Filho Jesus Cristo. A necessidade de ler a Escritura, e de lê-la individual e pessoalmente, cresce, de fato, cada dia na Cristandade, nos tempos que se avizinham do século XVI, e verifica-se que é esta necessidade particularmente atendida, mercê da abençoada difusão dos textos sagrados que a recente invenção da imprensa e o crescente surto das trocas econômicas nos mercados da Europa favorecem. De 1457 a 1517 são publicadas mais de quatrocentas edições da Bíblia” (BIÉLER, p. 43).
[7] Apud, Timothy GEORGE. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Edições Vida, 1994, p. 96.
[8] Apud, Idem, p. 96.
[9] Ibidem, p. 96.
[10] Apud,  Ibidem, p. 64.
[11] Quentin SKINNER. As Fundações do Pensamento Político Moderno. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 292.
[12] Idem, p. 293.
[13] “A Reforma [...] há duas coisas que asseguraram o seu êxito, duas coisas que ofereceu àqueles que as desejavam ansiosamente: uma, a Bíblia na língua do povo, a outra, a justificação pela fé” (Lucien Febvre, Apud, BIÉLER, Op. Cit, p. 43).
[14] João CALVINO. As Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006, Vol. 4, p. 183.
[15] Alister MACGRATH. A Vida de João Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 255.
[16] Ibidem, p. 250.
[17] R. H TAWNEY. A Religião e o Surgimento do Capitalismo. São Paulo: Editora Perspectiva, 1971, p. 115.
[18] MACGRATH, A vida de João Calvino, 2004, p. 263.
[19] Apud, COSTA, Hermisten. Pensadores Cristãos: Calvino de A a Z. São Paulo: Editora Vida, 2006, p. 284.
[20] João CALVINO. Efésios. São Paulo: Edições Paracletos, 1998, p. 183.
[21] Idem, p. 183.
[22] Na teologia reformada e calvinista, a santificação é um dos elementos do processo da salvação. Por toda a sua vida o crente é aperfeiçoado, mediante a santificação, em que abandona dia a dia seu pecado.
[23] MCGRATH, A Vida de João Calvino, p. 271.
[24] Idem, p. 273.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

12 de Agosto – Dia da Igreja Presbiteriana do Brasil Trajetória Histórica do Presbiterianismo, desde a sua origem até chegar no Brasil.

                   O presbiterianismo tem o seu início histórico fundamentado nos princípios estabelecidos na Reforma Protestante do século XVI, e por isso tem com este movimento estreita relação. A Reforma foi um movimento, que inicialmente tentou reformar a Igreja Católica Apostólica Romana, mas, não tendo êxito, deu início a uma outra vertente doutrinária dentro do cristianismo. Foi um movimento que surgiu no século XVI e teve seu impulso a partir de seu líder Martinho Lutero, na Alemanha. O que é conhecido como luteranismo teve início com ele.
A Reforma Protestante se expandiu por outros países. Na Suíça surgi um segundo movimento, liderado por Ulrico Zuínglio, em parte semelhante ao luteranismo, mas com características bastante distintas. Após a sua morte, algum tempo depois, surgi outra figura importante no cenário da Reforma que foi o francês João Calvino. Embora fosse francês e tenha lutado para que seu país aderisse a Reforma, Calvino desenvolveu sua reforma na cidade de Genebra na Suíça. O termo “reformado” está intimamente relacionado ao trabalho tanto de Zuínglio como de Calvino. A obra teológica de Calvino influenciou grandemente o movimento reformado. Seu nome permanece associado ao sistema de governo e teologia das igrejas conhecidas como Igrejas Reformadas. O presbiterianismo em seu sistema de governo e teologia pode ser chamado de reformado e calvinista, pois, seu início foi motivado por essas concepções teológicas.
O presbiterianismo surgiu nas Ilhas Britânicas, mais especificamente na Escócia e Inglaterra. Foi fruto das disputas entre aqueles que queriam uma igreja mais independente da interferência e controle do estado – governada por presbíteros docentes e regentes eleitos pelos crentes e reunidos em concílios – contra a posição dos reis ingleses que queriam uma igreja de governo episcopal – governada por bispos nomeados pela coroa, conseqüentemente controlada pelo estado. O presbiterianismo só vigorou na Inglaterra por poucos anos, durante a década de 1640, quando elaborou por meio da Assembleia de Westminster – convocada  pelo Parlamento – importantes documentos doutrinários adotados por grande parte das igrejas reformadas ( As igrejas presbiterianas de modo geral, inclusive a Igreja Presbiteriana do Brasil adotaram esses documentos como seus símbolos de fé. São três esses documentos: A Confissão de Fé de Westminster, Catecismo Maior e Breve Catecismo). O sistema presbiteriano só conseguiu se estabelecer de forma permanente na Escócia. Da Escócia, o presbiterianismo se expandiu com a colonização para a Irlanda e no século dezessete para a América do Norte. Por meio dos colonizadores escoceses-irlandeses formou-se a Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos e por meio dessa igreja, o presbiterianismo chegou a outros países, como se deu no Brasil, por meio do missionário Ashbel Green Simonton.
Simonton desembarcou no Brasil, no porto do Rio de Janeiro, no dia 12 de agosto de 1859, enviado pela Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, pela Junta de Nova York. A partir dos esforços desse missionário e de outros, instalou-se a Igreja Presbiteriana do Brasil. No final de 1861, Simonton contava com a companhia de outros pastores presbiterianos que contribuiriam para a obra presbiteriana em solo brasileiro: Alexander Latimer Blackford (cunhado e Simonton), Francis J. C. Schneider e James (irmão de Simonton).
A primeira igreja a ser organizada foi a do Rio de Janeiro, no dia 12 de janeiro de 1862. Infelizmente Simonton viveria poucos anos e não conseguiria ver os grandes frutos de seu trabalho. Devido as constantes enfermidades, Simonton  morreu poucos anos depois de ter chegado ao Brasil, em 9 de dezembro de 1867.
Que em sua infinita graça e amor, Deus abençoe a Igreja Presbiteriana do Brasil e que a obra que Ele iniciou por instrumentalidade de seus servos, alcance seu objetivo. 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Livre-arbítrio: Afinal, temos ou não temos?

Introdução

Neste estudo, iremos procurar entender a questão que envolve o termo “Livre-arbítrio”.
Trata-se de um tema que trouxe grande discussão durante alguns períodos da História da Igreja. O entendimento diferente acerca deste tema, ou seja, a defesa da existência de um “livre-arbítrio” ou a sua negação, tem divido pessoas até hoje.
Mas, afinal temos ou não temos livre-arbítrio? É isto mesmo que iremos verificar, não só analisando as posições teológicas acerca do assunto, mas, buscando luz da Bíblia para clarear nosso entendimento.
Antes de mais nada precisamos definir o que seja esse tal “Livre-arbítrio”:

1. Livre-arbítrio
“Livre-arbítrio” tem sido definido, como a capacidade dada ao homem, por ocasião de sua criação, para escolher entre o bem e o mal, entre agradar a Deus ou desobedecê-Lo. Seria o “livre poder de eleger o bem ou o mal”.[1]
Héber Carlos de Campos também a define como tendo sido a capacidade que o homem teve, “de escolher as coisas que combinavam com a sua natureza santa, mas que, mutavelmente, pudesse escolher aquilo que era contrário à sua natureza santa”.[2]
Vejam que tais definições estão de acordo com o que prescreve a Confissão de Fé de Westminster (CFW):

O homem em seu estado de inocência, tinha a liberdade e o poder de querer e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas mudavelmente, de sorte que pudesse decair dessa liberdade e poder.[3]


É importante dizermos que quanto à definição, não existe dificuldade. O problema todo que envolve o tema, é se o homem hoje, depois da queda , possui ou não esse tal de livre-arbítrio.
Antes mesmo de entrar propriamente na discussão, se o homem ainda dispõe dessa capacidade, precisamos dizer algo acerca de uma faculdade natural e inalterada no homem, mesmo depois da queda, chamada de “livre agência” ou “capacidade de escolha”.

2. Livre Agência ou Capacidade de Escolha
Existe no homem uma capacidade tal que lhe dá condições de fazer escolhas, de acordo com o que lhe é agradável. O homem sempre e em qualquer condição faz as suas escolhas, de tal forma que ele é responsabilizado por elas. “Essa capacidade ou aptidão é um aspecto inalienável da natureza humana normal”.[4] Ele é livre para escolher o que lhe agrada, de acordo com suas inclinações.
Sobre este aspecto da existência humana a CFW diz o seguinte:
Deus dotou a vontade do homem com tal liberdade natural, que ela nem é forçada para o bem nem para o mal, nem a isso determinada por qualquer necessidade absoluta de sua natureza. Ref. Tiago 1:14; Deut. 30:19; João 5:40; Mat. 17:12; At.7:51; Tiago 4:7.[5]

Comentando acerca desta seção da CFW, A. A. Hodge diz o seguinte:
...que a alma humana, inclusive todos os seus instintos, ideias, juízos, emoções e tendências, tem o poder de decidir por si mesma; isto é, a alma decide em cada caso como geralmente lhe agrade.[6]

O homem é livre para escolher, sendo que nada externamente pode forçar suas escolhas. Isto é essencial no homem, faz parte da sua criação a imagem e semelhança de Deus. “À parte dela, não pode haver qualquer responsabilidade, confiança ou planejamento. À parte dela, não pode haver educação, religião ou adoração. À parte dela, não pode haver qualquer arte, ciência ou cultura. A capacidade de escolher é uma condição sine qua non de toda a vida humana”.[7]
A definição de Campos sobre este assunto é também esclarecedora:
Livre Agência, por outro lado, poderia ser definida como a capacidade que todos os seres racionais têm de agir espontaneamente, sem serem coagidos de fora, a caminharem para qualquer lado, fazendo o que querem e o que lhes agrada, sendo, contudo, levados a fazer aquilo que combina com a natureza deles.[8]

Campos ainda falando sobre este aspecto, enfatizando a responsabilidade humana em suas escolhas diz:
É importante que o ser racional que ele aja sempre movido pelo seu ego. A responsabilidade dele sempre estará diretamente ligada à voluntariedade do seu ato. Todos os atos dele devem ser auto-inclinados e auto-determinados.

Portanto, para que haja responsabilidade, não é necessário que haja o poder de escolha contrária, mas sim, que haja o poder de auto-determinação, que a ação seja nascida nas inclinações do ser racional.[9]

Pelo que ficou demonstrado, em qualquer época o homem é livre para agir conforme sua condição, sua natureza, ou seja, ele sempre faz o que quer conforme a sua inclinação.

3. A queda do homem: O que aconteceu ao livre-arbítrio?
Como dissemos acima, na criação o homem recebeu a capacidade de fazer escolhas e possuía também a liberdade de fazer escolhas certas, ou seja, podia escolher agradar a Deus, de tal forma que pudesse cair desse estado em que foi criado. O homem foi criado totalmente santo, integro, contudo podia escolher algo que fosse contrário a essa sua natureza. E foi isso o que aconteceu, ou seja, escolheu pecar. “No princípio, portanto, o homem não era um ser neutro, nem bom nem mau, mas um ser bom que era capaz de, com a ajuda de Deus, viver uma vida totalmente agradável a Deus”.[10] Como dizia Agostinho, o homem tinha a “capacidade de não pecar” (posse non peccare).[11]
Neste sentido, até antes de sua queda podemos dizer, o homem possuía o livre-arbítrio, contudo, com a desobediência, ele perdeu tal capacidade, sendo que não mais consegue fazer escolhas certas, não consegue agradar a Deus. Suas escolhas serão sempre determinadas pelo estado em que caiu. Suas escolhas serão de acordo com a sua natureza.
É neste ponto que surgem então discussões, pois, diferente da posição Reformada Calvinista, os Arminianos irão afirmar que o homem ainda  possui o livre-arbítrio. Ele pode sem a intervenção de Deus, em seu estado natural, fazer escolhas espirituais acertadas.
Para os arminianos a queda do homem, embora tenha trazido algum prejuízo não afetou totalmente o homem, sendo que, continua em seu estado natural a ter habilidades para escolher a salvação, para escolher agradar a Deus. Desta forma, a depravação não foi total.
Vejam mais detalhadamente a posição dos arminianos[12] quanto à depravação do homem:
Embora a natureza humana tenha sido seriamente afetada pela queda, o homem não ficou reduzido a um estado de incapacidade total. Deus, graciosamente, capacita todo e qualquer pecador a arrepender-se e crer, mas o faz sem interferir na liberdade do homem. Todo pecador possui uma vontade livre (livre arbítrio), e seu destino eterno depende do modo como ele usa esse livre arbítrio. A liberdade do homem consiste em sua habilidade de escolher entre o bem e o mal, em assuntos espirituais. Sua vontade não está escravizada pela sua natureza pecaminosa.. O pecador tem o poder de cooperar com o Espírito de Deus e ser regenerado ou resistir à graça de Deus e perecer. O pecador perdido precisa da assistência do Espírito, mas não precisa ser regenerado pelo Espírito antes de poder crer, pois a fé é um ato deliberado do homem e precede o novo nascimento. A fé é o dom do pecador a Deus, é a contribuição do homem para a salvação.[13]

O ensino arminiano segue o  raciocínio de Pelágio, com diferença apenas no fato de que este, dizia que a queda não afetou em nada a humanidade, de tal forma que “o homem continua nascendo na mesma condição em que Adão estava antes da queda. Esta isento não só de culpa, como também de polução.”[14] Por isso, os arminianos são considerados semi-pelagianos, pois pensam que o homem depois da queda tenha capacidade para fazer escolhas certas.
Os reformados calvinistas, em contra partida, afirmam que a queda incapacitou totalmente o homem, afetando todas as suas faculdades. O homem após a queda perdeu tal liberdade, sendo agora escravo do pecado, morto espiritualmente.
Vejam mais detalhadamente o pensamento calvinista sobre a depravação total
Devido à queda, o homem é incapaz de, por si mesmo, crer de modo salvador no Evangelho. O pecador está morto, cego e surdo para as coisas de Deus. Seu coração é enganoso e desesperadamente corrupto. Sua vontade não é livre, pois está escravizada à sua natureza má; por isso ele não irá - e não poderá jamais - escolher o bem e não o mal em assuntos espirituais. Por conseguinte, é preciso mais do que simples assistência do Espírito para se trazer um pecador a Cristo. É preciso a regeneração, pela qual o Espírito vivifica o pecador e lhe dá uma nova natureza. A fé não é algo que o homem dá (contribui) para a salvação, mas é ela própria parte do dom divino da salvação. É o dom de Deus para o pecador e não o dom do pecador para Deus.[15]

Os calvinistas neste sentido seguem os ensinos de Agostinho, que por sua vez combateu os ensinamentos de Pelágio. Agostinho ensinou que quando os seres humanos “pecaram, embora não perdessem a sua capacidade de fazer escolhas, perderam a sua capacidade de servir a Deus sem o pecado – em outras palavras, a sua verdadeira liberdade. O homem tornou-se, então, um escarvo do pecado; ele passou ao estado de ‘não ser capaz de não pecar’ (non posse non peccare).”[16]
A CFW afirma o seguinte acerca disso:
O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso. Ref. Rom. 5:6 e 8:7-8; João 15:5; Rom. 3:9-10, 12, 23; Ef.2:1, 5; Col. 2:13; João 6:44, 65; I Cor. 2:14; Tito 3:3-5.[17]

Calvino também disse o seguinte acerca desta situação do homem:
As Escrituras atestam que o homem é escravo do pecado; o que significa que seu espírito é tão estranho à justiça de Deus que não concebe, deseja, nem empreende coisa alguma que não seja má, perversa, iníqua e impura; pois o coração, completamente cheio do veneno do pecado, não pode produzir senão os frutos do pecado.[18]

O homem, após a queda não possui mais o livre-arbítrio, não pode mais escolher algo que é contrário a sua natureza pecaminosa. Ele está morto, cego, é escravo do pecado.
Esta doutrina defendida pelos calvinistas, pelos reformados, que por sua vez é negada pelos arminianos, não se trata apenas de uma posição teológica diferente, e sim de afirmação bíblica. Nega-la é o mesmo que renunciar a Palavra de Deus neste assunto.
São inúmeros os textos que afirmam tal verdade, falando que o homem está incapacitado totalmente de atender ao convite de salvação, de atender as exigências divinas. Isto acontece por seu próprio pecado, por sua própria inclinação e desejo. À parte da graça de Deus o homem, por sua própria iniciativa não pode salvar-se, ou escolher isto.
Vejamos textos que servem de base para a doutrina calvinista:
1.     O homem está morto, incapaz de qualquer bem, precisando da intervenção divina: Jr 13.23; Ef. 2.1-10;  Rm 3.9-18, 23; Cl 2.13; Tt 3.3-5.
2.     O homem não consegue ir até Jesus, senão com a ajuda somente de Deus: Jo 6.44, 65; Rm 9.16.
3.     O homem precisa nascer de novo, contudo, isto só aconteça através da atuação do Espírito Santo, que age soberanamente: Jo 3.1-15.
4.     O homem não pode compreender as coisas espirituais, senão pelo Espírito: I Co 2.14-16.
5.     A Bíblia declara que o homem está cego, que é escravo do pecado. Não pode fazer outra coisa senão pecar, a não ser que Deus mude seu estado: Ef. 4.18; Jo 8.31-36; Jo 9.35-41; Rm 6.15-23; 2 Tm 2.26.
6.     O homem não pode apresentar um fruto diferente daquilo que ele é: Mt 7.16-18; Tg 1.16-18.
Percebam que, afirmar que o homem tem o livre-arbítrio é o mesmo que ignorar tais textos da Bíblia.
É importante enfatizar que, o homem mesmo neste estado, continua ser um agente livre, ou seja, ele exerce “a livre agência”. Isto quer dizer que continua a fazer as suas escolhas, contudo, não escolhe nada que seja contrário a sua natureza pecaminosa (Jo 5.40; Tg 1.14; Mt 17.12; At 7.51; Ef 2.3). O homem nunca é forçado a fazer algo que não deseja. Faz sempre aquilo que lhe traz prazer.
Sobre isto, diz Calvino:
Não pensemos, entretanto, que o homem peca como que impelido por uma necessidade incontrolável; pois peca com o consentimento de sua própria vontade continuamente e segundo sua inclinação. Mas, visto que, por causa da corrupção de seu coração, odeia profundamente a justiça de Deus; e, por outro lado, atrai para si toda sorte de maldade, por isso afirmamos que não tem o livre poder de eleger o bem ou o mal – que é o que chamamos livre-arbítrio.[19]

Campos diz também o mesmo:
Originalmente, antes da queda, o homem teve tanto o livre arbítrio como a livre agência. Depois da queda o homem ficou somente com a livre agência, pois perdeu tanto o desejo quanto a capacidade de fazer o bem, isto é, o poder de agir contrariamente à sua natureza.[20]

Assim, é o homem quem escolhe continuar no pecado, contudo, não tem capacidade, por causa do seu próprio pecado e maldade, para escolher coisa diferente a não ser que suas inclinações e vontade sejam transformadas por Deus, recebendo habilidade para escolher o que é bom e reto. Por isso o homem é sempre responsabilizado por seus atos, pois, sempre escolhe o que lhe agrada.

4. Na Redenção do Homem: O que acontece ao livre-arbítrio?
Quando Deus em sua livre graça, resolvendo salvar o homem, age em seu coração e pela ação do Espirito lhe implanta vida, o que acontece é que o homem recebe habilidade para escolher o que é reto e bom. A Bíblia descreve este ato, como o da libertação de um escravo, dando-lhe liberdade para escolher o que é agradável a Deus, contudo, muito embora liberto, pode ainda inclinar-se para o pecado. O homem passa a desejar o que é bom. Isto não significa que não deseje o pecado, pois, ainda permanece nele a imperfeição.
Sobre isto diz a CFW:
Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, ele o liberta da sua natural escravidão ao pecado e, somente pela sua graça, o habilita a querer e fazer com toda a liberdade o que é espiritualmente bom, mas isso de tal modo que, por causa da corrupção, ainda nele existente, o pecador não faz o bem perfeitamente, nem deseja somente o que é bom, mas também o que é mau. Ref. Col.1: 13; João 8:34, 36; Fil. 2:13; Rom. 6:18, 22; Gal.5:17; Rom. 7:15, 21-23; I João 1:8, 10.[21]

Estaria o homem regenerado na mesma condição de Adão antes da queda, ou seja, teria ele agora novamente o livre-arbítrio? Não, pois, não voltamos a ser como era Adão. Ele era perfeitamente reto, santo, e podia escolher algo que fosse contrário ao que era a sua natureza. O homem regenerado recebe liberdade para escolher o que é bom, contudo, não tem o livre arbítrio, pois não escolhe algo contrário ao que ele é. Ou seja, quando escolhe o que é bom, faz isso de acordo com a sua nova natureza criada em Cristo e quando escolhe pecar, faz isso, conforme a sua natureza carnal. Esta é a luta que reside dentro do homem restaurado. Ele não pode dar lugar ao velho homem (Ef 4.17-24; Cl 3.1-11).
 É importante ressaltar que, sendo regenerado o homem recebe habilidade, que antes não tinha, para escolher a Deus. Conforme Agostinho, o homem recebe a capacidade de não pecar (posse non peccare).[22] Por isso, e somente assim, pode atender ao convite do Evangelho para a sua salvação. O homem na regeneração continua a exercer a sua “livre agência”.
Vejam como a CFW, fala da condição que o homem tem para fazer escolhas espirituais, como um ser ativo:
Todos aqueles que Deus predestinou para a vida, e só esses, é ele servido, no tempo por ele determinado e aceito, chamar eficazmente pela sua palavra e pelo seu Espírito, tirando-os por Jesus Cristo daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza, e transpondo-os para a graça e salvação. Isto ele o faz, iluminando os seus entendimentos espiritualmente a fim de compreenderem as coisas de Deus para a salvação, tirando-lhes os seus corações de pedra e dando lhes corações de carne, renovando as suas vontades e determinando-as pela sua onipotência para aquilo que é bom e atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que eles vêm mui livremente, sendo para isso dispostos pela sua graça. Ref. João 15:16; At. 13:48; Rom. 8:28-30 e 11:7; Ef. 1:5,10; I Tess. 5:9; 11 Tess. 2:13-14; IICor.3:3,6; Tiago 1:18; I Cor. 2:12; Rom. 5:2; II Tim. 1:9-10; At. 26:18; I Cor. 2:10, 12: Ef. 1:17-18; II Cor. 4:6; Ezeq. 36:26, e 11:19; Deut. 30:6; João 3:5; Gal. 6:15; Tito 3:5; I Ped. 1:23; João 6:44-45; Sal. 90;3; João 9:3; João6:37; Mat. 11:28; Apoc. 22:17.

Esta vocação eficaz é só da livre e especial graça de Deus e não provem de qualquer coisa prevista no homem; na vocação o homem é inteiramente passivo, até que, vivificado e renovado pelo Espírito Santo, fica habilitado a corresponder a ela e a receber a graça nela oferecida e comunicada.
Ref. II Tim. 1:9; Tito 3:4-5; Rom. 9:11; I Cor. 2:14; Rom. 8:7-9; Ef. 2:5; João 6:37; Ezeq. 36:27; João5:25. [23]

É o homem que diz sim a Deus, que diz sim ao chamado do Evangelho, depois de ter sido habilitado para isso, libertado do pecado. O abrir dos olhos, a nova criação, o nascer de novo, é obra da livre graça de Deus e se não for assim, ninguém poderá crer em Cristo. Se não recebermos a fé que vem do Senhor, nunca poderemos crer. Maravilhosa Graça!

5. Na glorificação do Homem: Terá o livre-arbítrio?
Quando formos glorificados, por ocasião da vinda de Cristo e completação de nossa salvação, teremos de volta o livre-arbítrio? Não, na glorificação, não voltaremos a ser como Adão, estaremos à frente dele, pois, ele quando criado não gozava de uma perfeição permanente, ou seja, podia cair de tal estado. Ele podia escolher algo contrário a sua natureza, contudo, se tivesse sido obediente poderia ter alcançado a perfeição permanente. Os crentes glorificados – como resultado final da obra de Cristo neles – alcançarão o que Adão não pode alcançar. Teremos perfeita liberdade para servir a Deus. Continuaremos a sendo agentes livres, pois, escolheremos o que estará de acordo com a nossa natureza perfeita. Nunca escolheremos pecar, pois, não haverá tal possibilidade, então, nunca mais teremos o livre-arbítrio.
Desta forma, como disse Agostinho, alcançaremos o estado “não posso pecar” (non posse peccare).[24]
Diz a CFW:
É no estado de glória que a vontade do homem se torna perfeita e imutavelmente livre para o bem só. Ref. Ef. 4:13; Judas, 24; I João 3:2.[25]

Comentando a CFW, Hodge diz:
Quanto ao estado dos homens glorificados no céu, nossa Confissão ensina que continuam, como antes, agentes livres; contudo, os restos de suas velhas tendências morais corruptas, sendo extirpadas para sempre, e as graciosas disposições implantadas na regeneração, sendo aperfeiçoadas, e o homem todo, sendo conduzido à medida da estatura do varão perfeito, à semelhança da humanidade glorifica de Cristo, permanecem  para sempre perfeitamente livres e imutavelmente dispostos à perfeita santidade. Adão era santo e instável. Os homens não regenerados são impuros e estáveis; isto é, são permanentes na impureza. Os homens regenerados possuem duas tendências morais opostas, digladiando-se pelo domínio em seus corações. São lançadas entre elas, contudo a tendência graciosamente implantada gradualmente por fim prevalece perfeitamente. Os homens glorificados são santos e estáveis. São todos livres e, portanto, responsáveis.[26]

Portanto na glorificação, seremos para sempre livres, sem também o livre-arbítrio para sempre.



Conclusão

Os reformados, os calvinistas crêem no livre-arbítrio, como tendo sido uma habilidade concedida a Adão e perdida na queda. Desde então o homem natural, pós-queda, ficou desprovido de qualquer habilidade para fazer escolhas santas, agradáveis a Deus. Não lhe resta outro desejo senão o de pecar, conforme as inclinações de seu próprio coração, sendo assim, um agente livre e responsável.
Cremos que, nunca mais tal habilidade fará parte da existência humana. O fato de Deus nos libertar do pecado nos habilitando a fazer escolhas acertadas, não é o mesmo que dizer que temos o livre-arbítrio. As escolhas sempre estarão de acordo com a nossa natureza, ou naturezas.
Nem antes, nem depois, voltaremos a ser como era Adão. Na glorificação estaremos à frente dele, num estado em que o pecado não será possível.
Dizermos que existe um tal de livre-arbítrio, seria o mesmo que dizer que Deus não é soberano sobre a salvação do pecador, que Ele está sujeito ao querer do homem.
Se não fosse Deus, sua graça, o que seria de nós? Nunca escolheríamos a Ele.
Que o estudo acerca desse tema, possa-nos motivar a glorificar a Deus por causa da sua graça que, agindo em nós mudou nossas inclinações e vontade, fazendo-nos querer, desejar, o que não queríamos nem desejávamos.

Sola Gratia!
Soli Deo Gloria!



 
 




[1] Juan Calvino, Breve Instruccion Cristiana, Felire, Barcelona, pg. 13.
[2] Héber Carlos de Campos, Antropologia Bíblica, Apostila, JMC, São Paulo, pg.9.
[2] CFW, IX, II.

[4] Anthony Hoekema , Criados a Imagem de Deus,  CEP, São Paulo, 1999, pg. 252.
[5] CFW, IX, I.
[6] A. A. Hodge, Confissão de Fé de Westminster Comentada, Os Puritanos, 1999, pg. 220.
[7] Hoekema, pg. 253.
[8] Campos, pg. 10.
[9] Idem.
[10] Hoekema, pg. 255.
[11] Citado por Hoekema, pg. 255.
[12] O nome “arminiano”, se aplica aos seguidores de James Arminius (um professor de seminário holandês),  que, em 1610 apresentaram um protesto ao “Estado da Holanda”, “um ano após a morte de seu líder. O protesto consistia de  ‘cinco artigos de fé’, baseados nos ensinos de Armínio, e ficou conhecido na história como a ‘Remonstrance’, ou seja, ‘O Protesto’. O partido arminiano insistia que os símbolos oficiais de doutrina das Igrejas da Holanda (Confissão Belga e Catecismo de Heidelberg) fossem mudados para se conformar com os pontos de vista doutrinários contidos no Protesto. As doutrinas às quais os arminianos fizeram objeção eram as relacionadas com a soberania divina, a inabilidade humana, a eleição incondicional ou predestinação, a redenção particular (ou expiação limitada), a graça irresistível (chamada eficaz) e a perseverança dos santos. Essas são doutrinas ensinadas nesses símbolos da Igreja Holandesa, e os arminianos queriam que elas fossem revistas.” Estas informações forma citadas da tradução livre e adaptada do livro The Five Points of Calvinism - Defined, Defended, Documented, de David N. Steele e Curtis C. Thomas, Partes I e II, [Presbyterian & Reformed Publishing Co, Phillipsburg, NJ, USA.], feita por João Alves dos Santos.
[13] Idem.
[14] Louis Berkhof, A História das Doutrinas Cristãs, PES, São Paulo, pg. 120.
[15] A formulação de tais idéias, foram apresentadas pelos calvinistas combatendo as idéias arminianas, apresentas no protesto ao Estado da Holanda. Tais idéias fazem parte do conhecido, “Os Cinco Pontos do Calvinismo”.
[16] Hoekema, pg. 255.
[17] CFW, IX, III.
[18] Citação extraída de Paulo Anglada, As Doutrinas da Graça, Puritanos, 2000, pg.  17.
[19] Idem.
[20] Campos, pg. 11
[21] CFW, IX, IV.
[22] Citação extraída de Hoekema, pg. 258.
[23] CFW, capítulo X; I, II, Da Vocação Eficaz.
[24] Hoekema, pg. 267.
[25] CFW, IX; V.
[26] Hodge, pg. 227.