quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O pensamento reformado e a questão do indivíduo – Lutero e Calvino

                  
A reforma protestante significou um rompimento com o Catolicismo. No contexto católico romano, a atitude valorizada estava ligada à vida religiosa clerical, enquanto a laica era considerada de menor valor.
No entanto, mudanças começavam a surgir e no século XVI elas ganhariam força e provocariam um enfraquecimento definitivo no domínio exercido pela Igreja Católica. O Renascimento e o Humanismo foram movimentos que contribuíram para isso. Por meio de tais movimentos, surgiram homens que valorizaram o livre pensamento e a ação autônoma do indivíduo, em relação à Igreja Católica. Calvino foi um desses humanistas[1].
Sobre o Humanismo, como uma das causas da Reforma, diz André Biéler:
                   Tem-se na eclosão do humanismo uma das causas da Reforma. Certamente que esta renovação                    intelectual, como outros muitos fatores históricos, contribuiu amplamente para facilitar a                                expressão e a formulação da doutrina dos Reformadores.[2]

Martinho Lutero e João Calvino foram alguns desses homens que surgiram na época e que mudaram o rumo do Cristianismo. Influenciados por seus mestres, ambos, cada um em sua época, o primeiro na Alemanha e o segundo na França[3], romperam com a Igreja que abominou o que propunham. É importante ressaltar que os jesuítas, na mesma época, influenciados pelo humanismo renascentista, se expressaram de forma diferente em relação à Igreja Católica, porém, assim como os reformadores, deram atenção a leitura bíblica e escreveram diversos comentários ao texto bíblico[4]
Martinho Lutero era monge agostiniano. Enfrentava uma crise existencial e em contato com o estudo das Escrituras Sagradas (Bíblia) compreendeu que a religiosidade ensinada pela Igreja Católica – fundamentada na devoção aos santos mediada por imagens e relíquias consideradas sagradas – contrariava o ensino bíblico. Além de condenar as penitências[5], Lutero propôs com seus ensinos que cada cristão devesse ler as Escrituras[6]. Daí uma de suas primeiras iniciativas foi traduzir para a língua alemã os livros da Bíblia. Para Lutero, todo crente era sacerdote de Deus e, portanto, não precisava da mediação dos sacerdotes católicos para se achegar a Deus. “Lutero rompeu decisivamente com a divisão tradicional da igreja em duas classes, clero e laicato”.[7] Essa atitude contribuiu para a mudança quanto à concepção de indivíduo. Para Lutero, todos têm condições, pela mediação de Cristo, de se achegar a Deus, bem como responsabilidades de agir como sacerdotes. “O sacerdócio de todos os cristãos é tanto uma responsabilidade quanto um privilégio, um serviço tanto quanto uma posição”[8].
Lutero diz:
O fato de que somos todos sacerdotes e reis significa que cada um de nós, cristãos, pode ir perante Deus e interceder pelo outro. Se eu notar que você não tem fé ou tem uma fé fraca, posso pedir a Deus que lhe dê uma fé sólida.[9]

A valorização do indivíduo irá contribuir para a valorização da vida laica e de todos os desdobramentos resultantes disto. A doutrina da justificação pela fé, redescoberta por Lutero, com o contato que teve com as Escrituras, fez com que ele mudasse seu pensamento sobre a mediação exercida pela Igreja entre Deus e os homens. Em especial nos estudos que fez de um dos livros da Bíblia – a Carta do Apóstolo Paulo aos Romanos –, entendeu que sua salvação se daria pela fé somente, e que todo o sistema de mediações criado pela Igreja Católica não produzia, em seu íntimo, a paz que almejava. Tendo pela leitura do texto de Romanos – especificamente o capítulo 1, versículo 17 – encontrado a paz que almejava, começou a propagar o ensino da justificação pela fé somente.
Acerca do efeito que teve sobre ele a compreensão da leitura do referido texto, diz:
[...] comecei a entender que a “justiça de Deus” significa aquela justiça pela qual o homem justo vive mediante o dom de Deus, isto é, pela fé. É isso o que significa: a justiça de Deus é revelada pelo evangelho, uma justiça passiva com a qual o Deus misericordioso nos justifica pela fé, como está escrito: “Aquele que pela fé é justo, viverá”. Aqui, senti que estava nascendo completamente de novo e havia entrado no próprio paraíso através de portões abertos.[10]

Sobre a importância e consequência da doutrina da justificação pela fé em Lutero, Quentin Skinner comenta:
Finalmente, é o solifideísmo de Lutero – sua doutrina da justificação “pela fé somente” – que está na base dos dois traços centrais de seu conceito herético de Igreja. Primeiro, ele desqualifica a importância da Igreja enquanto instituição visível. Se alcançar a fidúcia constitui o único meio pelo qual o cristão pode esperar a salvação, não resta lugar para a idéia canônica da Igreja como autoridade interposta, medianeira entre o indivíduo fiel e Deus [...]. A verdadeira Igreja não passará de uma invisível congregação fidelium, de uma congregação dos fiéis unidos em nome de Deus. [...] A segunda característica distintiva em seu conceito de Igreja é que, ao enfatizar a idéia da ecclesia como nada mais que uma congregatio fidelium, Lutero também reduz ao mínimo o caráter separado e sacramental do sacerdócio. É disso que resulta a doutrina do “sacerdócio de todos os fiéis” [...]. O reformador aqui argumenta que, se a Igreja é apenas Gottes Volk, só pode haver “engodo e hipocrisia” na pretensão de que “papa, bispo, padres e monges sejam chamados estado espiritual, enquanto aos príncipes, senhores, artesões e lavradores se chama estado temporal”.[11]

Lutero desejava abolir a dicotomia que existia, conforme o ensino católico, e insistia no fato de que não há dois tipos de cristãos, um pertencendo ao estado espiritual e outro ao estado temporal. Todos pertencem ao estado espiritual, não como resultado da posição ou papel que ocupam na sociedade, mas em virtude da capacitação da fé, tornando todos igualmente capazes de serem espirituais e de constituir um povo cristão. Para Lutero, “todos os crentes, e não somente a classe sacerdotal, têm igual dever e condição de socorrer seus irmãos e de assumir a responsabilidade por seu bem-estar espiritual”. Além disso, ele se empenha em demonstrar que todo crente fiel pode se relacionar com Deus sem a mediação de qualquer intermediário. “O resultado é que em todo a sua eclesiologia, bem como no conjunto de sua teologia, constantemente nos vemos reconduzidos à figura – central – do indivíduo cristão, com sua fé na graça redentora de Deus”[12].
Lutero, em sua doutrina, valorizava justificação pela fé, bem como a Bíblia na língua do povo, e esses dois ensinos e ênfases contribuíram para o êxito da Reforma [13].
Calvino, pertencendo a uma segunda geração de reformadores, irá desenvolver ainda mais a concepção acerca do indivíduo, valorizando a sua participação ativa no mundo de Deus. Para Calvino, também, todos os crentes são sacerdotes de Deus, por isso não precisam da mediação da igreja para obter o perdão divino e, por outro lado, tudo quanto realizam no mundo, seja qual for a atividade, devem realizá-la para a glória de Deus.
Calvino diz sobre o alvo da vida do cristão:
[...] é dever dos crentes oferecerem seu corpo “por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”, que constitui o culto legítimo que lhe devemos prestar. Desse princípio decorre a exortação a que eles não se acomodem à imagem deste século, mas que sejam transformados pela renovação da sua mente, para buscar e experimentar a vontade de Deus. Temos aí um importante motivo para dizer que somos pessoas consagradas e dedicadas a Deus para que não pensemos, nem meditemos, nem façamos coisa alguma que não seja para a sua glória. Porque não é lícito aplicar algo sagrado a uso profano. Ora, se nós não nos pertencemos, mas somos do Senhor, vê-se claramente o que devemos evitar para não errarmos, e para onde devemos canalizar todas as ações que pratiquemos em nosso viver.[14]

Percebe-se nas palavras de Calvino que, diferente do pensamento Católico Romano, que concebe a vida no cotidiano como âmbito profano, para o reformador, a vida do crente e todas as suas ações são do âmbito sagrado, pois pertencem a Deus.
Assim como Lutero e outros reformadores, as concepções de Calvino são conduzidas pela interpretação das Escrituras. Calvino, além de escrever o seu tratado sobre a Religião, conhecido como As Institutas da Religião Cristã, comentou vários livros da Bíblia, obras nas quais expressou seu pensamento.
Pode-se dizer que tanto Lutero quanto Calvino defendem uma ascese intramundana. Isso irá repercutir de forma a produzir transformações em todos os âmbitos, servindo de fermento para a chamada modernidade. A concepção de Calvino, de que toda a atividade praticada pelo fiel deve glorificar a Deus, contribuiu para uma valorização do trabalho e consequentemente para o desenvolvimento econômico e tecnológico das cidades que abraçaram sua concepção teológica. Não é à toa que estudiosos estabelecem uma relação entre o Capitalismo Moderno e o Calvinismo.
Sobre essa relação, diz MacGrath:
Tão grande é a relevância do surgimento do Capitalismo moderno para a formação da civilização ocidental que, se um vínculo com João Calvino puder ser estabelecido, pode-se creditar ao Reformador – de forma positiva ou negativa – a motivação de um impulso fundamental do mundo moderno.[15]

                 João Calvino, em seus escritos teológicos, procurará demonstrar a necessidade de o crente engajar-se nas questões sociais. “Por todos os seus escritos, encontramos uma determinação de se engajar na objetiva existência social dos seres humanos, juntamente com os problemas e as possibilidades que daí derivem”[16]. “O Calvinismo, em suma, significava não apenas nova doutrina teológica e governo eclesiástico, mas nova escala de valores morais e novo ideal de conduta social”[17].
A concepção alcançada por Calvino, de que o fiel deve engajar-se nas atividades seculares para glorificar a Deus, produziu uma valorização do trabalho. Para Calvino “o fiel não é chamado [por Deus para a salvação] a deixar o mundo e a ingressar em um monastério, mas a ingressar plenamente na vida do mundo e, assim, transformá-lo”[18]. Isso certamente contribuiu para o desenvolvimento do conceito sobre o indivíduo. A atividade do fiel, fosse qual fosse, era importante e necessária.
                 Calvino diz: “Se seguirmos fielmente nosso chamamento divino, receberemos o consolo de saber que não há trabalho insignificante ou nojento que não seja verdadeiramente respeitado e importante ante aos olhos de Deus”[19]. E, comentando o texto bíblico da Epístola de Paulo aos Efésios, em que o apóstolo orienta os servos (escravos) a servirem seus senhores como se servissem a Cristo, sabendo que serão recompensados quer fossem escravos ou livres, o reformador diz:
Que poderosa consolação! Se porventura tiverem que conviver com senhores mal-agradecidos ou cruéis, Deus aceitará seus serviços prestados a homens indignos como prestados a ele próprio. Quando os servos ponderam sobre o orgulho e arrogância de seus senhores, amiúde concluem que seu labor é de nenhum proveito, e a tendência é tornarem-se indolentes. Paulo, porém, lhes diz que sua recompensa está guardada com Deus pelos serviços que parecerem ser mal remunerados pelos homens embrutecidos; e que, portanto, não há razão alguma para que deixem de seguir seu curso predeterminado. Adiciona que nenhuma distinção deve ser posta entre um homem escravo e um homem livre. O mundo está habituado a pôr menos valor nos labores dos escravos. Ele afirma que com Deus não se dá o mesmo, senão que, para ele, são tão preciosos como os deveres dos reis. Porque a posição externa é desprezada e cada um é julgado segundo a integridade de seu coração.[20]

                        E contextualizando a mensagem da referida epístola, diz:
Este ensino, porém, se aplica também a empregados e empregadas de nossa própria época. É Deus quem determina e regula a sociedade. Visto que a condição dos empregados [de hoje] é muito mais tolerável, eles devem considerar-se muito menos escusáveis caso não se esforcem, de diversas maneiras, a comportar-se como Paulo diz.[21]

                  Essa valorização do trabalho e consequentemente do indivíduo, motivando-o a um engajamento responsável no mundo, praticando suas atividades de maneira apropriada, desencadeou o desenvolvimento industrial e financeiro de diversos países da Europa que se tornaram protestantes.
Para Calvino, o envolvimento ativo e responsável no mundo, na verdade, era uma forma de o fiel confirmar a sua vocação divina, ou seja, confirmar que, de fato, havia sido escolhido para a salvação. Desta forma, no processo da “santificação do fiel”[22], rumo a sua salvação, sua participação apropriada no mundo serviria de prova de sua vocação. “É pelo ativismo no mundo que o fiel pode garantir à sua consciência conturbada de que ele ou ela está entre os eleitos”[23].
A primitiva propensão calvinista em relação ao ativismo moral, econômica e política pode, assim, ser vista como algo que repousa sobre importantes fundamentos teológicos. Por intermédio de um envolvimento ativo nas questões seculares, sob a orientação das Escrituras, o cristão poderia firmar sua vocação e alcançar a paz de espírito (sempre um artigo precioso e obscuro, em meio aos círculos puritanos) a respeito de sua eleição. A noção de “vocação” (vocatio) deve ser interpretada nessa perspectiva: a ordem para a realizar boas obras não está ligada, necessariamente, a uma vocação secular em especial (por exemplo, ser um açougueiro, um padeiro ou um artesão que produz castiçais), mas a necessidade de demonstrar a vocação divina de uma pessoa a si mesmo a ao mundo à sua volta.[24]

Como se procurou demonstrar, a Reforma Protestante produziu uma concepção diferente acerca do indivíduo e de sua participação no mundo, contribuindo para transformações na sociedade que a abraçou.


Nota: Este artigo é parte integrante da dissertação que defendi no mestrado em Ciência da Religião, na Universidade Federal de Juiz de Fora com o título: A Implantação do Presbiterianismo em Juiz de Fora: Sua Implantação Tardia em 1950.



[1] Paul TILLICH. História do Pensamento Cristão. São Paulo: ASTE, 2004, p. 269.
[2] André BIÉLER. O Pensamento Econômico e Social de Calvino. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 44
[3] Embora Calvino fosse francês e tenha iniciado sua caminhada como reformador na França, pelo fato de ter que fugir de seu país por causa da perseguição da Igreja Católica, tornou-se reformador em Genebra, na Suíça. Mas, de Genebra, exerceu grande influência sobre os reformados na França, enviando escritos e outras contribuições.
[4] John O’MALLEY. Os Primeiros Jesuítas. São Leopoldo: UNISINOS; Bauru: EDUSC, 2004, p. 403.
[5] Em suas 95 Teses, que foram afixadas na porta da Capela de Wittenberg, isso fica claro. Lutero condena o abuso da Igreja em vender aos fieis indulgências que, segundo a Igreja Católica, davam direito ao perdão divino, livrando o penitente do purgatório.
[6] Isso não foi algo proposto a partir de Lutero. Antes de Lutero, os chamados pré-reformadores propuseram o mesmo e procuraram disseminar entre o povo os ensinos bíblicos. Sobre a mudança da religiosidade, influenciada pela leitura bíblica, e os seus efeitos sobre a construção de uma fé livre dos laços do clero, Biéler comenta: “Desde o século XII, com São Bernardo, a piedade popular se nutre da contemplação dos sofrimentos de Cristo, do Cristo humano, humilhado pelos grandes e carregado da penalidade dos homens, na comunhão do qual ela penetra pela identidade de suas próprias misérias. Pouco a pouco, a vida humana de Jesus leva vantagem sobre Sua natureza divina e se cerca de um mundo maravilhoso de mártires de santos, que cria uma religião bastante próxima do fiel, muito familiar, todavia, sempre mais complicada e recheada de devoções supersticiosas. Por seu caráter pessoal, todavia, esta piedade contribui para mais e mais dispensar o fiel da mediação do sacerdote e a distanciá-lo da Igreja, cujas pompas e preocupações políticas o afastam cada dia ainda mais. A porta está aberta, entre o povo, a uma renovação da fé que livre a piedade de muitos obstáculos atravancadores e que, pelo uso pessoal das Santas Escrituras, redescubra direto contacto com o Deus do Evangelho, Que salva graciosamente pela só mediação de seu Filho Jesus Cristo. A necessidade de ler a Escritura, e de lê-la individual e pessoalmente, cresce, de fato, cada dia na Cristandade, nos tempos que se avizinham do século XVI, e verifica-se que é esta necessidade particularmente atendida, mercê da abençoada difusão dos textos sagrados que a recente invenção da imprensa e o crescente surto das trocas econômicas nos mercados da Europa favorecem. De 1457 a 1517 são publicadas mais de quatrocentas edições da Bíblia” (BIÉLER, p. 43).
[7] Apud, Timothy GEORGE. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Edições Vida, 1994, p. 96.
[8] Apud, Idem, p. 96.
[9] Ibidem, p. 96.
[10] Apud,  Ibidem, p. 64.
[11] Quentin SKINNER. As Fundações do Pensamento Político Moderno. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 292.
[12] Idem, p. 293.
[13] “A Reforma [...] há duas coisas que asseguraram o seu êxito, duas coisas que ofereceu àqueles que as desejavam ansiosamente: uma, a Bíblia na língua do povo, a outra, a justificação pela fé” (Lucien Febvre, Apud, BIÉLER, Op. Cit, p. 43).
[14] João CALVINO. As Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006, Vol. 4, p. 183.
[15] Alister MACGRATH. A Vida de João Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 255.
[16] Ibidem, p. 250.
[17] R. H TAWNEY. A Religião e o Surgimento do Capitalismo. São Paulo: Editora Perspectiva, 1971, p. 115.
[18] MACGRATH, A vida de João Calvino, 2004, p. 263.
[19] Apud, COSTA, Hermisten. Pensadores Cristãos: Calvino de A a Z. São Paulo: Editora Vida, 2006, p. 284.
[20] João CALVINO. Efésios. São Paulo: Edições Paracletos, 1998, p. 183.
[21] Idem, p. 183.
[22] Na teologia reformada e calvinista, a santificação é um dos elementos do processo da salvação. Por toda a sua vida o crente é aperfeiçoado, mediante a santificação, em que abandona dia a dia seu pecado.
[23] MCGRATH, A Vida de João Calvino, p. 271.
[24] Idem, p. 273.