sexta-feira, 29 de julho de 2016

Deus Reina


“... e eis armado no céu um trono, e, no trono, alguém sentado...” (Ap 4.2)



O livro do Apocalipse foi dado a Igreja do primeiro século, que, enfrentava grande perseguição, sob o governo do Império Romano. Naquela ocasião, servir a Cristo, podia resultar em martírio. Foi justamente nesse contexto, de grande angústia, de grande tribulação, que João, o apóstolo amado, recebeu do Senhor Jesus a mensagem desse livro, para servir de conforto e encorajamento para tais crentes.

No capítulo 4, João tem a visão do trono e sentado nele está Deus Pai. Todos os acontecimentos descritos a partir de então, são governados, dirigidos, colocados em execução pelas ordens emanadas dAquele que se encontra assentado no trono. O Cordeiro, Cristo Jesus, nessa visão assume um papel central, pois, somente Ele foi achado digno de abrir o livro selado, ou seja, somente Ele poderia colocar em execução o plano de Deus para a história da humanidade (5.1-14).

Essa visão, revelada aos crentes daquela época – através do simbolismo do trono – de que Deus é o Todo-poderoso, o governante Supremo da história e dos acontecimentos, certamente produziu em seus corações, uma firme confiança, encorajando-os a enfrentar as aflições, as angústias daqueles tempos. Que conforto para eles era saber que tudo o que estava acontecendo se encontrava debaixo do governo de Deus. Que conforto era saber que os inimigos da Igreja e de Cristo, não teriam êxito em suas perseguições, pois, embora os crentes pudessem ser levados até mesmo a morte, estariam seguros com o Senhor e receberiam a coroa da vida (2.10, 11). Que conforto era saber, que muito embora a injustiça pudesse parecer reinar, um dia o Senhor em reposta as orações dos que haviam sido mortos por causa da palavra, iria punir todos aqueles que causaram e causam sofrimento a sua Igreja (6.9-17).

Certamente esta mensagem, deve servir-nos também de encorajamento, pois, como Igreja de Cristo, também enfrentamos angústias, tribulações, perseguições, pois vivemos em um mundo que está em oposição a Deus e a seu Filho.

Que conforto saber que nosso Deus reina. Devemos ser dominados por uma firme confiança em Deus, pois, tudo o que acontece neste mundo está debaixo de sua autoridade. Nas angústias, tribulações e sofrimentos neste mundo, os crentes em Cristo, podem descansar, certos do cuidado e da direção de Deus.

Deus seja louvado!

Dinheiro é uma questão espiritual

“Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males [...].” (1Tm 6.10a)

          Pode parecer estranho para alguns o título desta pastoral, contudo, se analisarmos bem a questão levantada, concluiremos que de fato, “Dinheiro é Uma Questão Espiritual”. Os Guinness em seu livro “O Chamado” (p. 142), editado pela Cultura Cristã, trata sobre esse assunto e faz algumas afirmações importantes conforme se segue: “No centro do significado do dinheiro estão numerosas perguntas, tais como: ‘Por que há um problema?’. É significativo que o domínio do dinheiro na sociedade moderna coincida com o desaparecimento do pensamento moderno sobre a questão da avareza [...] Através da história o problema mais universalmente reconhecido do dinheiro era que sua procura é insaciável. Enquanto procuramos dinheiro e possessões, notam os observadores, a busca se torna em desejo jamais satisfeito que alimenta a avareza – descrita na Bíblia como a vaidade de ‘correr atrás do vento’, e pelos modernos como um vício. A própria palavra hebraica para dinheiro (kesef) vem de um verbo que significa ‘desejar’ ou ‘almejar alguma coisa’ [...] Tradicionalmente, tem sido descrito melhor como uma forma de sede espiritual que nunca pode se saciar. Essa incapacidade toca em duas áreas: obter o que não temos e agarra-lo sem abrir mão do que temos. [...] a insaciabilidade sempre foi vista como sinal de outras necessidades – poder, proteção, aprovação, e assim em diante. [...] a insaciabilidade é muitas vezes ligada ao ser consumido. Os indivíduos e as sociedades que se dedicam ao dinheiro logo são devorados por ele”.
O que Os Guinness diz sobre a questão espiritual do dinheiro, ou seja, sobre o perigo do pecado da avareza, não se trata de uma constatação particular sua, visto que, trata-se de algo tantas vezes denunciado nas Escrituras (Mt 6.19-21, 24; 1Tm 6.10). A Bíblia fala, conforme os textos citados – e conforme outros exemplos como do homem rico (12.13-21), do jovem rico (Lc 18.18-30), de Judas Iscariotes (Lc 22.3-6), Ananias e Safira (At 5.1-11) – sobre o perigo do amor ao dinheiro, sobre a vaidade ligada as possessões, sobre o perigo de nos tornarmos materialistas, consumistas e tantos “istas”, que afogam a nossa sociedade e sufocam o amor. Os crentes em Cristo Jesus, devem ter um relacionamento responsável com o dinheiro. O dinheiro em si não é mau, contudo, quando mal administrado e investido em coisas supérfluas, ou não investido da forma como Deus requer, se torna um problema que pode levar a ruína espiritual.
               Os Guiness ainda diz algo interessante: “Em nossos dias dizem que seguindo o colapso do totalitarismo soviético, o maior perigo ocidental é o ‘totalitarismo do mercado’ ou ‘imperialismo econômico’. ‘No que é que o economista economiza?’ pergunta-se. A resposta é ‘amor’. Num sistema de mercado que opera estritamente sobre lucros e perdas, uma sociedade passa a viver com menos amor que sob qualquer outro sistema. A sociedade [...] economiza no amor”.
Uma maneira de sabermos como temos lidado com o dinheiro é verificamos no que temos investido nossa renda, se em tais investimentos tem sobrado espaço para o amor, ou se somos controlados pelo desejo insaciável de ter, possuir. A fidelidade na contribuição, por meio de dízimos e ofertas, e outras formas de contribuição, trata-se de uma forma de regularmos nosso apego ao dinheiro e não economizarmos no amor. Geralmente, pessoas displicentes em suas contribuições, são aquelas que apresentam algum problema com o dinheiro e ou algum mal decorrente de seu mau uso.

Que Deus nos ajude a lidarmos de forma adequada com o dinheiro, para que não nos tornemos avarentos, evitando os perigos espirituais relacionados a seu mal-uso.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Aproveitando ao máximo as oportunidades

Você já teve a sensação de ter perdido aquela oportunidade? Já teve a sensação de ter perdido tempo e deixado de fazer aquilo que era importante e necessário? Já teve a impressão de que poderia ter feito muito mais?
Em Efésios a partir de 4.17, o apóstolo Paulo demonstra que a caminhada cristã exigi de nós comprometimento sério com a santificação. Paulo demonstra que a caminhada cristã é marcada por lutas contra o pecado e por um esforço por buscar revestir-se da nova criação, do novo homem criado em Cristo Jesus. Nessa luta, não podemos dar chances ao pecado. Precisamos abandonar constantemente as obras das trevas.
O apóstolo tem um entendimento muito lúcido acerca de seu tempo, de que eram dias maus, perigosos. Portanto, exorta os crentes de Éfeso a viverem como sábios e não como néscios. Ou seja, para que não vivessem de forma imprudente, deixando de fazer o que deveriam e fazendo o que não deveriam.
No verso 16 diz: “remindo o tempo, porque os dias são maus”. Uma outra tradução possível para esta frase seria: “aproveitando ao máximo as oportunidades, porque os dias são maus”. Para Paulo o fato de os dias serem maus, deveria despertar nos crentes uma atitude de atenção, de discernimento. O que o apóstolo quer dizer é que os efésios e todos nós, não devemos esperar que as oportunidades “caiam do céu”, antes devemos (usando uma expressão popular) “correr a trás”. A oportunidade perdida jamais voltará. O tempo desperdiçado não poderá ser recuperado. Por oportunidades, Paulo quer dizer tudo quanto pode servir para nos proporcionar a segurança da salvação, o fortalecimento da comunhão com Cristo e com os irmãos, o crescimento em santificação, o ganhar para Cristo os que se perdem, enfim, tudo quanto nos proporcione, crescimento e avanço na vida cristã, não podemos deixar passar.
Temos aproveitado todas as oportunidades que podem nos proporcionar tais bênçãos?  Temos sido prudentes? Ou temos andado como néscios, desperdiçando as oportunidades? Notemos que Paulo não está aqui pensando apenas no que se refere à vida pessoal de cada crente. Está também, aplicando tais considerações a vida familiar e comunitária, visto que, no capítulo 5 e 6 continua na mesma linha de pensamento e fala sobre a família.
Os dias são maus, mas, muitos ainda acham que os dias não são tão maus assim, e que, portanto, haverá sempre oportunidade para se recuperar o que foi perdido.
Não ignoremos os avisos de perigo encontrados nas Palavras de Deus e, portanto, não vivamos de forma imprudente. Façamos tudo quanto for necessário para progredirmos (nós e nossas famílias) na fé cristã rumo a salvação.

Que Deus nos abençoe e tenha misericórdia de nós e de nossas famílias. Que possamos aproveitar todas as oportunidades que tivermos, para progredir na fé e em nossa santificação em Cristo Jesus.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

A bênção de contribuir

“E isto afirmo: aquele que semeia pouco também ceifará; e o que semeia com fartura com abundância também ceifará. Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria” (2Co 9.6-7).


Nos anos de 1999 e 2000, pastoreie a Igreja Presbiteriana de Biguá, no Vale do Ribeira, região próxima ao litoral sul de São Paulo. Tenho gratas recordações daquele tempo, daqueles irmãos.
Dentre as recordações, uma ficou bem gravada em minha mente. Vi durante esses dois anos algo se repetir da parte de alguns irmãos, principalmente dentre os mais idosos. Na ocasião de seus aniversários, no domingo próximo a tal data, ao final da escola dominical, sem anunciar, o aniversariante se levantava de seu lugar, se aproximava da mesa, a frente da igreja, e depositava sobre ela um valor em dinheiro. Ninguém precisava explicar o motivo e o que estava acontecendo. Sem que ninguém me explicasse logo compreendi o que era aquilo. Pela gratidão e reconhecimento das bênçãos recebidas do Senhor por mais um ano de vida, tais irmãos ofereciam a Deus uma oferta especial. Mês a mês contribuíam com seus dízimos, mas, no dia do seu aniversário, outra contribuição era feita, de forma especial.
Não sei quem foi que ensinou tal pratica a tais irmãos. Quem sabe tenha sido um pastor anterior, ou quem sabe, tal procedimento, tenha sido herdado de crentes mais antigos, mas, o que de fato posso dizer é que tais irmãos aprenderam a fazer da contribuição uma bênção na vida cristã. Podia-se perceber nitidamente que tais irmãos, contribuíam com alegria, com gratidão, como expressão do reconhecimento de que Deus lhes havia abençoado com mais um ano de vida. Entender a contribuição como tais irmãos entendiam, de fato não é uma bênção? Sim, claro que é, pois, contribuir é um ato, fruto do reconhecimento das bênçãos de Deus. Nem todos participam dessa bênção, pois, falta-lhes o reconhecimento do que Deus tem feito na vida deles. É verdade que muitos não contribuem de forma alguma, pois, não conseguem entender que tudo o que têm vem do Senhor, por isso, não conseguem devolver a Ele em reconhecimento disso (1Cr 29.14).

Que Deus nos conceda sempre a bênção de contribuir, com nossos dízimos e ofertas, pois, isto nada mais é do que fruto do entendimento do que Deus tem feito por nós e entender isso é uma grande bênção.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A falta de vigilância espiritual e as escolhas erradas - 2Samuel 12.15-25


As escolhas erradas de Davi e de Bate-Seba foram resultados das atitudes espirituais que assumiram e da falta de vigilância. Embora a ênfase seja dada no texto ao pecado de Davi, no entanto, percebemos que Bate-Seda permaneceu passiva diante de tudo, não manifestando qualquer desconforto com a situação. Por isso, consideramos que a escolha também foi dela. Para entender o que ocorreu com Davi e como um “homem segundo o coração” de Deus (1Sm 13.14; At 13.22) pôde trazer ruína para a sua vida e família, precisamos entender o que estava acontecendo com ele, e em que circunstâncias sua escolha ocorreu.
Em 2Samuel 11.1, temos o contexto em que Davi comete adultério com Bate-Seba. Lemos o seguinte: “[...] no tempo em que os reis costumam sair para a guerra [...] Davi ficou em Jerusalém”. Tais palavras parecem uma crítica a atitude de Davi e apontam para as circunstâncias de seu pecado. Ao que parece, Davi negligenciou as suas obrigações como rei de Israel. Ele deveria ter acompanhado seu exército, mas preferiu ficar em sua casa na ociosidade, a descansar e a passear, enquanto seus homens estavam em batalha (Veja-se o verso 2, comparando-o com os versos 1 e 11). A escolha de Davi foi determinada por sua atitude de negligenciar seus deveres como servo de Deus, visto que a posição que ocupava fora estabelecida por Deus. Foi Deus quem o havia ungido como rei para governar e estar à frente de Israel.
Conforme 2Samuel 11.2, em sua ociosidade e negligência, Davi ao olhar pelo terraço de sua casa avistou uma mulher tomando banho e que era mui formosa. A narrativa dos fatos dá entender que Davi agiu de forma descuidada. Estava aonde não deveria estar e olhou o que não podia olhar e cobiçou o que não era seu. Talvez, as grandes conquistas de Davi, conforme podemos perceber nos relatos do livro de 2Samuel, principalmente os capítulos 8 a 12, a posição de segurança e conforto que havia alcançado, pudesse ter “subido à sua cabeça”, e nesse momento o orgulho tivesse tomado conta de seu coração, a ponto de baixar a guarda espiritual de seu coração, ou seja, ele havia deixado de vigiar para não cair em tentação e esquecido que a carne é fraca (Mt 26.41; 1Co 10.12).
A história do adultério de Davi, nos ensina o quão é necessário cuidarmos de nossa vida espiritual, mantendo a vigilância, para não fazermos escolhas erradas. Davi subestimou a sua natureza pecaminosa, esquecendo-se de que ainda era um pecador e precisava vigiar sempre. Se tivesse agido diferente, não teria tomado a decisão de olhar pelo terraço e mandar buscar para si a mulher que não era sua esposa. Muitos caem em tentações como Davi caiu, por subestimarem os perigos espirituais. Quantos são aqueles que fazem escolhas erradas, escolhendo o adultério, a fornicação, simplesmente porque olharam “pelo terraço”, acessaram aquela página na internet com imagens impróprias, que não deveriam acessar, cederam a tentação de dar uma olhadinha apenas, e isto desencadeou outras atitudes e escolhas que resultaram em ruína.

O que Jesus ensina em Mateus 5.27-32 deve ser levado em conta, para não fazermos escolhas semelhantes à de Davi. Vigiemos para não cairmos em tentação, para não escolhermos o que pode nos conduzir a ruína. Antes, em tudo sejamos criteriosos, fazendo escolhas justas, que sejam reflexos de nosso compromisso com o Senhor e sua Palavra.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

O Brasil católico – A Reforma Protestante chega ao Brasil, mas não se instala

    

                  O Brasil foi ocupado por Portugal, que trouxe a religião católica. O catolicismo passou a ser a religião da colônia portuguesa. Nota-se que nesse período eram comuns as parcerias político-religiosas. Tais parcerias “serviam de incentivo para os navegadores que se sentiam amparados pelo Estado e pela Igreja Cristã”[1].
                 No século XVI e no século XVII, houve duas tentativas de implantação da Reforma no Brasil, através de invasores.
Nessas duas tentativas de invasões do Brasil, tem-se o que era característico no período, ou seja, a parceria político-religiosa. Nas invasões e conquistas de outra nação ou território, transplantava-se para o invadido não só a cultura do invasor, mas também a religião. Na verdade a religião vinha a reboque. E, devido a essa parceria, os princípios cristãos introduzidos ficaram muitas vezes prejudicados, visto que os invasores, por vezes devido aos interesses político-econômicos, sacrificavam as convicções cristãs.
Osvaldo Henrique Hack faz o seguinte comentário sobre essa situação:
As parcerias político-religiosas serviam de incentivo para os navegadores que se sentiam amparados pelo Estado e pela Igreja Cristã. Lembremos que cada Estado tinha suas leis e pretensões políticas, nem sempre coincidentes com os propósitos do Cristianismo.[2]

Isso é verdade não só no que se refere às conquistas por parte de católicos, como também de protestantes.
As duas invasões do Brasil, francesa e holandesa, refletiram esse procedimento e os conflitos políticos e religiosos que ocuparam o cenário europeu da época. A disputa entre católicos e protestantes se estendeu até o solo brasileiro[3].
Embora, como já dito acima, as invasões não tenham sido principalmente motivadas por questões religiosas, as convicções religiosas foram fundamentais na promoção de tais intentos.
O Brasil, ao se tornar colônia portuguesa no século XVI, recebeu desde o início uma consciência católica, “moldada sob o signo da contra-reforma católico-romana”[4]. Os invasores franceses e holandeses, por outro lado, trouxeram na bagagem o protestantismo e almejavam encontrar no Brasil o que não tinham em seus países, ou seja, no caso dos protestantes, um lugar para exercer sua fé com liberdade, principalmente no caso dos franceses[5].

Nota: Este artigo é parte integrante de minha Dissertação de mestrado em Ciência da Religião. Caso tenha gostado e queira continuar lendo, você pode acessar o conteúdo total deste capítulo e da referida dissertação em 
http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=189947



[1] Osvaldo Henrique HACK. Sementes do Calvinismo no Brasil Colonial: Uma releitura da história do Cristianismo brasileiro. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p.9
[2] Idem, p. 9.
[3] Ibidem, p. 169.
[4] SCHALKWIJK, Op. Cit., p. 24.
[5] HACK, Op. Cit., p. 169.

Reação católica contra a Reforma Protestante

Como reação ao avanço e à ameaça que a Reforma Protestante representava, a Igreja Católica tomou algumas medidas. Uma delas foi convocar um concílio, conhecido como Concílio de Trento. Esse concílio foi convocado e teve seus trabalhos iniciados a partir de 1545, durando até 1563, sendo o XIX Concílio Geral da Igreja, conforme a Igreja Católica Apostólica Romana. Várias medidas foram tomadas, proporcionando tanto reformas internas para a Igreja Católica, bem como realçando sua oposição ao Protestantismo.
Jean Delumeau diz que, por um lado, o Concílio de Trento foi um avanço para as forças católicas de reforma. Por outro lado,
Porém, foi também a negação do diálogo com a Reforma, a abrupta afirmação de posições antiprotestantes. Para rechaçar com maior força a justificação pela fé somente, exagerou no valor as obras e desenvolveu a noção de mérito. O Concílio, frente a Lutero e Zuínglio, que haviam burlado as indulgências e as peregrinações, frente a Calvino, que havia ironizado sobre as relíquias, manteve todas as formas tradicionais de piedade; confirmou também o culto as imagens.[1]

Martin N. Dreher resume os principais aspectos quanto ao significado histórico de tal concílio:
a) Com suas formulações antiprotestantes, o Concílio de Trento sacramentou definitivamente o cisma da igreja ocidental; b) Com a formulação de uma confissão de fé própria, a Professio fidei Tridentinae, em 1546, a qual deveria ser professada então por todos os sacerdotes católico-romano, a igreja católica-romana passou a ser uma igreja confessional; c) Ao se tornar normativo para a reforma interna do catolicismo romano, superou o nominalismo, deu a seus adeptos uma doutrina clara (essa clareza se havia perdido em grande medida) e lançou as bases para uma Igreja universal, ao reformar a administração e a vida eclesiástica.[2]

O Concílio de Trento, embora tenha sido proposto numa tentativa de reformar a Igreja e responder, de certa forma, aos anseios populares que motivaram a Reforma Protestante, como se percebe, distanciou-se desta. Frente ao princípio formal da Reforma Protestante da suficiência[3] e inspiração[4] das Escrituras Sagradas (Bíblia), o Concílio de Trento aceitou a inspiração das Escrituras Sagradas e, no entanto, equiparou a ela a tradição apostólica oral, como norma de conduta e doutrina[5].
Com respeito aos sacramentos, a Igreja Católica manteve os sete sacramentos, re-enfatizando sua eficácia para a salvação do pecador. Negou-se a liberdade cristã e o sacerdócio dos crentes, doutrinas afirmadas por Lutero e outros reformadores protestantes. Manteve-se o caráter sacrificial da missa, considerando-a literalmente a repetição do sacrifício de Cristo. Ainda com respeito à eucaristia oferecida na missa, reafirmou a presença real de Cristo nos elementos, pão e vinho, contrapondo as teorias de Calvino e Zuínglio[6]. O matrimônio só seria válido se realizado pela Igreja[7].
A questão das indulgências, que foi algo atacado veementemente por Lutero em suas 95 Teses, também manteve-se, embora tenha-se proibido a sua venda  por dinheiro[8].
Outra questão importante estabelecida foi a autoridade papal, considerada pelo Concílio como sendo universal[9].
Conforme tais medidas doutrinárias e reafirmações, percebe-se o distanciamento do que propunha a Reforma Protestante, estabelecendo-se ainda mais o abismo entre as duas posições.
Outra medida tomada pela Igreja Católica frente ao avanço Protestante foi o revigoramento da Inquisição, em 1542[10]. Esse instrumento foi responsável pela morte de um grande número de pessoas, de protestantes, embora não tenha sido de uso exclusivo contra protestantes, mas também contra judeus e outros que eram acusados de heresia. Sendo assim, a obra da Contra-Reforma Católica usaria quando necessário a força, para restabelecer o domínio católico nos lugares que haviam adotado a Reforma Protestante. 
É importante esclarecer, como diz Delumeau, que esse período da história foi marcado por um espírito de intolerância religiosa[11]. E isso não se deu apenas do lado católico, mas também do lado protestante. No entanto, as perdas foram maiores para o lado protestante.
Sobre essas manifestações de intolerância, que resultaram em grandes massacres, Delumeau apresenta vários fatos demonstrando a situação de tal período:
O ódio ao herege se generalizou. Francisco I permitiu o extermínio de 3.000 habitantes do Vaux. Felipe II liquidou em cinco grandes autos de fé praticamente a todos os protestantes e erasmistas da Espanha. Cerca de 30.000 reformados foram vítimas na França, na Noite de São Bartolomeu e de suas seqüelas, tanto em Paris como em províncias. Nos Países Baixos, no outono de 1572, o duque de Alba ordenou o saque da cidade de Malinas e o degolo dos protestantes de Zutphen. Porém a intolerância era mútua: Maria a Sanguinária, autorizou um número de execuções aproximadamente igual a da que ordenou Isabel. Na Europa do século XVI instalaram-se por toda a parte fúrias iconoclatas: em Wittenberg em 1522, em Provenza e em Delfinado em 1560, e nos Países Baixos em 1566. Nesta última região os “mendigos” enterraram vivos os monges, deixando aparecer a cabeça, que serviu de alvo em um sinistro jogo de bolas. Na Inglaterra de Isabel se abriu um canal aos mártires católicos para arrancar-lhes o coração e as vísceras. [...] A intolerância religiosa era a norma. Calvinistas e luteranos disputavam acerca da presença real, porém se puseram em acordo para perseguir a todos os dissidentes do protestantismo, e em primeiro lugar os anabatistas.[12]

Um outro detalhe a se perceber é que as lutas religiosas promovidas pela Igreja Católica contra os protestantes, com apoio dos reis, não se davam única e exclusivamente por razões religiosas. Havia um interesse político, mesclado muitas vezes ao interesse religioso. Sobre isso, Delumeau diz:
Quando se considera a Contra-Reforma como reconquista das regiões perdidas pela Igreja romana, é obrigado fazer certas pontuações. Em primeiro lugar, esta: as ambições políticas se mesclaram sempre com os propósitos confessionais. Se houvesse triunfado a Armada Invencível (1588), não só se haveria restaurado o catolicismo mais além do canal da Mancha, senão que também haveria sido eliminada uma perigosa concorrência marítima e reduzida as ambições coloniais que a Espanha começava a temer seriamente.[13]

Assim, o interesse em tais guerras, que principalmente se voltaram contra os protestantes, não se deu unicamente por motivos religiosos. Em nome da religião, com o apoio dos governantes com seus interesses políticos, vários massacres aconteceram. Em outros casos, em que a vitória militar permitia, procurou-se “converter as massas protestantes por toda sorte de meios: missões, criação de colégios e universidades, e toda classe de pressões para asfixiar a religião contrária”[14].
Tal situação de conflito e perseguição se estenderá a todo o território que tiver adotado a Reforma Protestante. O Brasil não será exceção desses conflitos e de perseguição religiosa. Logo nas primeiras décadas de sua história, no século XVI, protestantes virão para este território, alguns até mesmo com a esperança de poder aqui exercer sua fé com liberdade. No entanto, essa liberdade não virá antes de perseguições e a liberdade religiosa tão aguardada só será legalmente possível alguns séculos depois, no século XIX, com a proclamação da República. A presença protestante no Brasil no período colonial se dará por meio de invasores com interesses que iriam além do religioso, mas que também teriam um caráter religioso. Desta forma, para os portugueses católicos, expulsar tais invasores, além de garantir os interesses políticos, econômicos e expansionistas, significava também investir contra os hereges protestantes.



[1] Jean DELUMEAU. La Reforma. Barcelona: Editorial Labor, 1967, p. 103.
[2] Martin N DREHER. A Crise e a Renovação da Igreja no Período da Reforma. São Leopoldo: Sinodal, 1996, p. 122.
[3] Para o Protestantismo de forma geral, a Bíblia Sagrada é considerada a única regra de fé e prática, tendo a preferência sobre qualquer outra norma.
[4] Inspiração trata-se de um termo teológico que, aplicado à Bíblia, considera seu registro como tendo sido feito sob orientação divina. Embora no Protestantismo se considere a participação humana na composição dos livros da Bíblia, sendo que cada autor não foi anulado em suas capacidades e personalidades, considera-se que Deus orientou, direcionando o registro da sua revelação.
[5] DREHER, Op. Cit., p. 123.
[6] DELUMEAU, Op. Cit., p. 106.  
Com respeito à eucaristia, o catolicismo afirma que, no momento do seu oferecimento na missa, o pão e o vinho se transformam literalmente no corpo e no sangue de Cristo. Cristo se transforma em tais elementos. Essa é a doutrina da transubstanciação. Já Zuínglio e Calvino postulavam uma doutrina diferente. Para Zuínglio, no momento do oferecimento de tal sacramento, os elementos não se transformavam no corpo e no sangue de Cristo. A substância de tais elementos permanecia a mesma, servindo tais elementos apenas (e somente isso), para simbolizar e trazer à memória do fiel o sacrifício de Cristo. Calvino pensava de forma semelhante a Zuínglio, no entanto, entendia que, na hora do oferecimento de tal sacramento, servia não apenas para simbolizar o sacrifício, mas também, pela presença espiritual de Cristo, eles serviam para comunicar a graça divina, alimentando espiritualmente o fiel. Portanto, para Calvino, tal sacramento funcionava como um meio de graça.
[7] DREHER, Op. Cit., p. 124.
[8] Idem, p. 125.
[9] Ibidem, p. 126.
[10] Frans Leonard SCHALKWIJK. Igreja e Estado no Brasil Holandês. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, 3a.ed, p. 24.
[11] DELUMEAU, Op. Cit., p. 97.
[12] Idem, p. 98.
[13] Ibidem, p. 99.
[14] Ibidem, p. 99.