segunda-feira, 26 de junho de 2017

O cuidado providente de Deus

Algumas vezes na vida cristã achamos que por estarmos servindo a Deus, as coisas poderiam ser mais fáceis. Temos a tendência de achar que a bênção de Deus e seu cuidado gracioso, só se evidenciam quando as coisas vão bem e não estamos enfrentando qualquer dificuldade. Então, em tais circunstâncias, nos sentimos abençoados. A Bíblia demonstra que mesmo quando as circunstâncias da vida se tornam difíceis, Deus nos abençoa e faz com que tudo contribua para o nosso bem e para a sua glória (Rm 8.28). A graça de Deus muitas vezes se torna evidente na vida cristã, em meio ao sofrimento (2Co 12.9).
Paulo queria visitar Roma para pregar o evangelho (Rm 1.15) e o Senhor havia lhe revelado que isso aconteceria (At 23.11), mas, isso não aconteceu facilmente. Embora a viagem tenha sido difícil e o navio tenha naufragado, por meio de sua providência Deus cuidou de Paulo e de todos os que estavam a bordo do navio, ao todo duzentas e setenta e seis pessoas (At 27.37). As circunstâncias difíceis, não foram obstáculos suficientes para impedir que a vontade do Senhor se realizasse para o bem de Paulo e da pregação do evangelho. Deus fez com que tudo cooperasse para que a sua vontade se realizasse, até mesmo o mau tempo e o naufrágio do navio. Deus governou todos os acontecimentos, fazendo com que sua vontade se cumprisse. Todas aquelas pessoas puderem ver e experimentar do cuidado providencial de Deus e de que sua palavra não falha.
Paulo provou do cuidado de Deus, que colocou em seu caminho, pessoas que o serviram e o ajudaram. Júlio foi alguém que o tratou com humanidade e protegeu a vida de Paulo (At 27.3, 43). Quando chegaram a ilha de Malta, os seus moradores, receberam os náufragos e os trataram com singular humanidade (At 28.2, 10). Possivelmente a expectativa era que tais moradores fossem hostis, mas, eles diferentemente, contrariando tal expectativa, surpreenderam os visitantes com especial cuidado. Naquela ilha, Paulo também pode se hospedar na casa de Públio, o principal morador de Malta (28.7). Não seria tudo isso, prova do cuidado de Deus com Paulo e os demais, preparando-lhes pessoas que os servissem e os ajudassem? A despeito de todas as dificuldades enfrentadas por Paulo em sua vida e ministério, Deus nunca o desamparou, mas cuidou de seu servo. Este cuidado providente de Deus alcança todos os crentes. Devemos perceber esse cuidado em todas as coisas.

Testemunhar de Cristo pode ser uma tarefa difícil, como experimentou Paulo, no entanto, para realizar esta tarefa, contamos com a assistência de Deus. Em tudo, e em todas as coisas e circunstâncias, podemos dizer: “até aqui, nos ajudou o Senhor” (1Sm 7.12).

A Pregação do Evangelho em nosso cotidiano - Marcos 16.15

A pregação do Evangelho por todo o mundo, trata-se de uma incumbência, que recebemos de nosso Senhor Jesus Cristo. Sabemos, conforme os registros nos Evangelhos, de que cada crente tem o dever de anunciar a Cristo Jesus. É bem verdade, que existem aquelas pessoas, que Deus capacitou com o dom de evangelista, e que têm maior facilidade para desempenhar essa incumbência, no entanto, todos nós recebemos o Espírito Santo, em nossa conversão, e somos por ele capacitados com poder para sermos testemunhas de Cristo Jesus em todos os lugares (At 1.8).
Desta forma, conforme dissemos acima, é dever de cada um de nós anunciar a Cristo Jesus a todas as pessoas. O que falta muitas vezes para nós, é na verdade, colocar em prática a ordem que recebemos, e fazer isso, não é tão difícil como pode parecer. O que precisamos na verdade é abrir a nossa boca e aproveitar as oportunidades que nos sãos apresentadas.
Esta semana tive a oportunidade de fazer isso. Em razão de uma necessidade, tive que utilizar o transporte por aplicativo chamado Uber. Fiz uma chamada por aplicativo, solicitando uma viagem. Logo, fui atendido e iniciei a viagem, que em razão do trânsito, durou mais do que o esperado. Durante o tempo de viagem, que durou cerca de uma hora, comecei a conversar com o motorista. Começamos a nos conhecer, conversando sobre trivialidades. Logo, quando me dei conta, estávamos conversando sobre questões de fé e relacionadas ao Evangelho. Descobri que ele, quando criança, frequentara com sua vó, uma igreja evangélica, e que embora tenha se passado muito tempo, ele se lembrava de modo especial de um hino que ouvia ser cantado em tal igreja – “Ao Deus Grandioso”, hino 26 de nosso hinário.
Essa conversa e a oportunidade que tive de testemunhar de minha fé em Cristo, fluiu naturalmente. Pude perceber, como que Deus prepara oportunidades para testemunharmos, e que, precisamos estar apercebidos disso e começar a falar, a abrir a nossa boca.  

Em seu dia-a-dia, no contato com as pessoas, procure testemunhar de Cristo. Abra sua boca, comece a conversar. Busque um ponto de contato na conversa, para que você possa começar a testemunhar de sua fé e falar de Cristo.

Acolhendo visitantes - 1Pedro 4.9

Há poucos dias a trás, me encontrei com um amigo querido e sua família, que estavam de passeio a São Paulo. Meu amigo, em seu último dia nesta cidade, convidou-me para ir com ele e sua família, a certa igreja, ouvir determinado pregador. Aceitei o convite, e à noite nos dirigimos a tal igreja.
Éramos visitantes nessa igreja, ninguém nos conhecia. Aliás, ninguém daquela igreja, nem membros ou liderança, nos conhece até hoje, visto que, entramos pela porta, nos assentamos para participar do culto, e ao final nos dirigimos à porta, sem ninguém ter-nos perguntado quem éramos ou de onde viemos. Entramos e saímos e mal recebemos um “boa noite”.
Eu estava com minha Bíblia na mão e pode ser que tenham pensado: “Este é crente e não precisa voltar aqui, visto que, já deve ter a sua igreja”. Agora, no caso de meu amigo e sua família eles não tinham uma Bíblia à mão, pois, acessaram suas Bíblias do celular. Poderia ser, que ele fosse uma visitante não-crente, e aí? E aí, que se ele estivesse esperando ser bem recebido para voltar lá, certamente, não teria isso como razão para voltar. A não ser que, entendesse verdadeiramente a necessidade de retornar, por uma necessidade espiritual, para ouvir novamente a Palavra de Deus sendo pregada.
Tal situação serviu, para que eu percebesse, como deve se sentir um visitante que entra pelas portas de uma igreja e que mal é notado e como é importante dar atenção a um visitante. Possivelmente havia naquela noite, outras pessoas visitando e pode ser, que dentre aquelas pessoas existisse um visitante carente de Cristo e que precisasse ser notado e conhecido para que se sentisse à vontade para expor suas necessidades espirituais. Isto não saberemos, e talvez, se esse hipotético visitante não se dirigiu a ninguém e nem foi procurado por ninguém, nunca ninguém saberá que ao menos ele esteve ali.
É claro que a conversão de alguém somente acontecerá, por ação do Espírito Santo. Naquela noite o Evangelho de Cristo foi pregado e se havia ali um pecador necessitado da salvação e se tal pecador foi chamado eficazmente pelo Espírito, ele sem dúvida nenhuma se converteu. No entanto, não devemos esquecer de nossa responsabilidade. Certamente é nosso dever dar atenção aos visitantes, iniciar algum diálogo e estabelecer empatia. Tal atitude poderá ser determinante, para que, um visitante, sendo bem recebido, possa, quem sabe permanecer na igreja. 
Jesus ao longo de seu ministério, encontrou-se com diversos pecadores e ao estabelecer empatia com tais pessoas, criou ambiente para que ouvissem do Evangelho e se convertessem (Jo 4.1-30).

Como Igreja do Senhor Jesus, devemos imitar a Cristo, recebendo bem os visitantes, criando oportunidade para lhes falar ao coração de forma empática.

A Bíblia: referencial para a família - 2Timóteo 3.14-17

Quantas vezes vocês pais, cônjuges, se sentiram impotentes diante dos desafios familiares? Viver em família, estar casado, administrar os problemas, educar filhos, não são tarefas fáceis, ainda mais, quando consideramos o contexto social em que vivemos e as muitas vozes que ecoam, tentando nos indicar soluções. São muitas as dificuldades enfrentadas e às vezes, a saída não é fácil de ser encontrada.
Diante de tal quadro, os pais, ou os cônjuges, precisam buscar um referencial seguro, uma voz que de fato indique a saída, a solução, que aponte um caminho seguro. Onde podemos encontrar tal referencial, tal voz? Podemos encontrar tudo isso nas Escrituras. A Palavra de Deus, a Bíblia é totalmente suficiente, para nos munir de tudo quanto precisamos para enfrentar os desafios da vida familiar. Ela é a Palavra de Deus e nela encontramos todo o conselho de nosso Deus e Pai.
O apóstolo Paulo, escrevendo a Timóteo, indica-lhe o caminho seguro para que ele pudesse se orientar como pastor e pudesse orientar sua igreja, diante dos desafios da vida, num mundo caracterizado pelo pecado (2Tm 3.1-9). Paulo diz que Timóteo deveria permanecer nas Escrituras, pois, ela provinha de Deus e era suficiente para toda e qualquer situação. O que Paulo disse a Timóteo é válido para os crentes em todos os tempos. A Bíblia é inspirada por Deus e útil em todas as questões. Através dela e nela, os servos de Deus, podem encontrar as orientações e conselhos, para enfrentar os desafios familiares. Sejam quais forem os desafios e dificuldades, as Escrituras Sagradas, podem nos indicar o caminho seguro.
O grande problema é que muitas vezes nos desviamos das Escrituras e achamos mais interessante e apropriado o conselho que ouvimos nas redes sociais ou naquele programa de televisão e etc. Muitas vezes achamos, que para o nosso problema, precisamos ouvir um especialista, alguém formado em determinada ciência e que nos apresente um conselho. Não estou dizendo que, não podemos ouvir um conselheiro, e que seja verdadeiramente cristão. O que estou dizendo é que muitas vezes nos esquecemos de que a Bíblia – esse  livro de capa preta, muitas vezes esquecido, durante a semana em nossa estante – deveria  ser nosso manual de vida.
O melhor e mais sábio dos conselheiros está ao nosso alcance, quando abríamos as Escrituras e nos submetemos à sua “voz”, que ecoa de sua leitura. O Deus Trino, fala conosco e nos indica o melhor caminho, a melhor solução, na verdade o único caminho e a única solução verdadeira para o nosso problema e desafio.

Que a Palavra de Deus, verdadeiramente esteja em cada coração e lar, e que seja a voz conselheira ouvida pelos pais e cônjuges. 

Superando as expectativas - Mateus 5.43-48

Ser cristão é “nadar contra a correnteza”, implica numa prática de vida que supera as expectativas. É justamente isso que Jesus nos ensina em Mateus 5.43-48, ao falar acerca do dever que temos de amar a todos, até mesmo aqueles que são nossos inimigos e que nos perseguem.
O Senhor Jesus demonstra que na prática do amor a expectativa comum, que normalmente é esperada, é que o amor seja demonstrado àquelas pessoas que são fáceis de se amar, ou seja, com quem não temos qualquer barreira ou impedimento. O Senhor Jesus estava corrigindo uma interpretação de Levítico 19.18,  que era aceita entre os judeus, mas, que não correspondia ao espírito da lei dada por Deus através de Moisés. Os interpretes da lei, entendiam que o mandamento de Deus, “amarás ao teu próximo como a ti mesmo”, deveria ser aplicado somente na relação entre judeus, e que tal mandamento não se aplicava na relação interpessoal, com pessoas que não pertenciam a seu povo. O próximo de um judeu, portanto, era outro judeu, ou seja, uma pessoa com quem não tinham qualquer barreira ou impedimento para exercer o amor. É claro que a interpretação aceita pelos judeus, atendia as inclinações pecaminosas do coração. O amor proposto por tal interpretação era um “amor barato e egoísta”, na verdade não era amor de verdade, o amor bíblico ensinado por Deus em toda a Escritura.
Jesus ensina que o nosso amor ao próximo deve superar as expectativas. Devemos amar aquelas pessoas com que tem não temos qualquer impedimento, mas, amar aquelas também, que exija de nós, um amor, que supere às nossas preferências. É fácil amar quem não se opõe a nossa opinião, quem gosta de nós, quem é agradável,  quem é gentil e nós respeita. Jesus ensina que isso é fácil e qualquer um faz (o publicano e o gentil), mas, agir diferente, amar quem nos odeia e nos persegue, somente faz isso, quem de fato e de verdade é filho do Pai celeste. Deus demonstra seu amor para com todos, fazendo o sol nascer e enviando chuva para todos. Não são somente seus filhos, ou aqueles que lhe são obedientes são alvos de suas bênçãos, mas, até mesmo aquele que o odeia ou nega sua existência, são abençoados pelo Senhor.

Ame seu irmão, seu amigo, aquela pessoa agradável e gentil, mas, ame a todos, até mesmo seus inimigos e perseguidores. Demonstre amor a todos e supere as expectativas de todos. Seja perfeito, “como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mt 5.48).

Deus é sempre gracioso

Não há um centímetro se quer de nossa existência, em que possamos dizer, que Deus não agiu com graça em nosso favor. Até mesmo naqueles momentos mais sombrios de nossa existência, podemos dizer com toda a certeza, que até mesmo ali, a graça de Deus nos alcançou e nos assistiu.
Deus é sempre gracioso. Sua graça está sempre presente em nossa vida. Não há um dia sequer, que possamos dizer, que sua graça não foi suficientemente demonstrada a nós. Essa é uma verdade estampada nas Escrituras e experimentada pelos personagens bíblicos. Quando estudamos a história dos servos de Deus, verificamos o que estamos tentando demonstrar.
Veja por exemplo a experiência vivida pelo apóstolo Paulo (2 Co 12.1-13). Paulo estava correndo o risco de se tornar soberbo, mas, o Senhor não permitiu. Logo, lhe enviou um espinho na carne. Sendo mais exato, não um pequeno espinho, mas, enviou-lhe uma estaca fincada em sua carne. Tal sofrimento foi muito duro para Paulo. Ele por três vezes orou, pedindo que Deus afastasse dele aquele sofrimento. Mas, a resposta que ouviu do Senhor foi: “A minha graça te basta”.
E o exemplo de Pedro? Momentos antes de Jesus ser entregue para ser condenado a morte, Pedro foi avisado que teria sua vida bagunçada por Satanás (Lc 22.31-34). Pedro seria tentado e negaria a Jesus, apesar de suas vãs promessas de que não o trairia. No entanto, Jesus diz a Pedro, que antes mesmo que tal coisa lhe acontecesse, ele já havia rogado, intercedido por ele.
A graça de Deus nos acompanha sempre, não podemos ter dúvida disso. Assim como foi com Paulo, Pedro e tantos outros servos de Deus, assim é conosco também. Somos filhos de Deus e ele está sempre se compadecendo de nós, como um pai amoroso (Sl 103.13, 14). Cristo Jesus continua sendo nosso intercessor, nosso mediador. Ele está sempre intercedendo por nós e dispensando seus cuidados graciosos.

Em qualquer circunstância, podemos ter a certeza da graça de Deus e de ela nos basta.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Pai Nosso - Mateus 6.9-15

Introdução
A oração do “Pai Nosso”, com certeza trata-se da oração mais conhecida em todo mundo. Não só cristãos, de todas as confissões, mas também, não-cristãos conhecem esta oração. Embora bem conhecida, no entanto, isto não significa que seu conteúdo e significado sejam igualmente conhecidos de todo o mundo. Tal ignorância tem feito com que muitos utilizem esta oração, de forma equivocada, diferentemente do propósito para o qual ela foi dada.
Nesta oração Jesus está apresentando um modelo para as nossas orações. Neste modelo aprendemos como orar e pelo que devemos orar. Qual o conteúdo e significado desse modelo? Sobre isto agora iremos estudar.
  
I. Um modelo para seguir
A oração do “Pai Nosso” tem a sua importância devido ao fato de ter sido a única oração ensinada pelo Senhor Jesus. Ela só aparece em Mateus 6.9-15, ensinada no contexto do Sermão do Monte (Mt 5—7) e em Lucas 11.1-4, em resposta a um pedido feito pelos discípulos: “Senhor, ensina-nos a orar” (Lc 11.1).
No Sermão do Monte, esta oração é ensinada no contexto em que Jesus faz várias recomendações a seus discípulos, no intuito de livrá-los da hipocrisia religiosa (lição anterior). Desta forma, depois de ensinar seus discípulos sobre a postura correta na oração, Jesus apresenta um modelo de oração a ser usado.
Certamente tal oração foi dada como um modelo. Jesus a introduz desta forma: “Portanto, vós orareis assim”. Literalmente, segundo o original: “Assim (ou: deste modo), pois, vocês devem orar”. Nela Jesus sumariza todos os elementos e princípios que devem conter as nossas orações. Portanto, temos um padrão para as nossas orações. Cada oração que fazemos deve expressar as mesmas verdades e princípios ensinados por Jesus na oração do “Pai Nosso”. Sendo um modelo, esta oração não deve ser repetida mecanicamente, como sendo uma reza, achando-se que a simples repetição, possa trazer algum benefício. O seu uso demasiadamente frequente pode conduzir ao formalismo, o qual Jesus condenou. Isto não quer dizer que ela não possa ser repetida, seguindo-se exatamente as mesmas palavras. Seu uso é adequado no culto ou em privado, quando o adorador ou suplicante a faz com a mente e coração, compreendendo suas implicações e significados.
O “Pai Nosso”, é divido em três partes: 1) Invocação; 2) Petições (seis ao todo, sendo três referentes a Deus e três referentes às nossas necessidades) e 3) Conclusão.
O “Pai Nosso” harmoniza-se com o ensino do Antigo e Novo Testamentos, de que a glória de Deus é importante acima de todas as demais coisas. Isto fica demonstrado pelo fato de que, as primeiras três petições têm referência ao nome, ao reino e a vontade do Pai. Somente em seguida e por último vêm às petições referentes às necessidades humanas (pão, perdão e vitória sobre o mal), que assumem o segundo plano. A prioridade deve ser dada aos interesses de Deus e somente depois, às nossas próprias necessidades. Jesus ensina um princípio não só para ser observado em nossas orações, mas acima de tudo, um princípio que deve controlar toda a nossa vida. Mais adiante, neste mesmo sermão tal princípio é reafirmado: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas [comida, bebida e vestimenta] vos serão acrescentadas” (Mt. 6.33).

II. De que maneira nos dirigimos a Deus?
“Pai nosso que está nos céus”. Estas palavras inicias são muito significativas. Há vários ensinamentos contidos nesta invocação, e que devem fazer parte de nosso entendimento sobre a oração e servir-nos de guia quando oramos.

A. O Pai ouve somente seus filhos
Primeiramente, está implícito aqui que nem todos têm o privilégio de se dirigir a Deus como Pai e serem ouvidos por ele. Este é um privilégio concedido somente àqueles que estão num relacionamento com Deus Pai, como seus filhos adotivos (Jo 1.12; Rm 8.14-17; Gl 4.6; 2Co 6.18; 1Jo 3.1, 2). Há um sentido em que Deus é designado como “Pai de todos os homens”, quando considerado como Criador e Mantenedor de todos (Sl 36.6; Ml 2.10; At 17.24-28). No entanto, o sentido usual nas Escrituras é que Deus é Pai somente de alguns e não de todos. Nem todos podem se dirigir a Deus chamando-o de Pai, pois nem todos são seus filhos. Aliás, Jesus disse que muitos daqueles que o ouviam eram na verdade filhos do diabo (Jo 8.44). Só é considerado filho de Deus aquele que recebe a Cristo Jesus, ou seja, aquele que crê em seu nome (Jo 1.12-13). Portanto, tal filiação a Deus só é alcançada por meio da obra redentora de Cristo Jesus. É no sentido relativo à salvação que o termo “Pai” é utilizado no Sermão do Monte (Mt 5.9, 16, 44, 45; 6.18). Somente pela mediação de Cristo Jesus, alguém pode ser considerado filho de Deus. Sendo assim, embora nesta oração, Jesus não seja mencionado, seu nome e sua obra expiatória estão claramente implícitos nesta invocação. À parte de Cristo ninguém pode se achegar ao Pai (Jo 14.6).

B. Um Pai Amoroso
Jesus em sua oração-modelo ensina seus discípulos a chamarem Deus de Pai. Ele utiliza a expressão Abba, que significa “papai” ou “paizinho”. Embora os israelitas considerassem Deus como seu Pai (Jo 8.39-44) e no Antigo Testamento o conceito de Deus como Pai de Israel estivesse presente (Dt 7.6-8; 14.2; Is 63, 15, 16; 64.8), no entanto, este não era o modo como eles oravam a Deus. Jesus ensina algo complemente diferente dos padrões existentes na época. O Senhor ensina seus discípulos a se dirigirem a Deus como filhos.  Podemos nos aproximar de Deus chamando-o de Pai, Papai. Como Pai amoroso, bondoso, Deus está pronto a receber seus filhos em sua presença nos céus, para ouvir seus louvores e petições. Deus é um Pai que se coloca ao nosso lado, cuidando de nós e por isso podemos invoca-lo. Por meio de Cristo ele nos fez seus filhos e nos colocou em sua família. Nos dirigimos a Deus em termos pessoais, com a intimidade própria existente entre um pai e seus filhos (Sl 103.13).

C. Um Pai soberano e altíssimo
Este Pai, que está perto de nós, é um Deus soberano, excelso, sublime, altíssimo, que habita nos céus. Jesus combina a imanência e transcendência, condescendência e majestade. “Pai nosso” indica proximidade. “Que estás nos céus”, indica que nossa aproximação dele deve ser feita com humildade e reverência. A intimidade não pode se deteriorar a ponto de nosso relacionamento se tornar vulgar, desrespeitoso. Às vezes, isto ocorre em algumas orações que são proferidas usando-se termos jocosos para com Deus. Tal uso certamente não é autorizado conforme o ensino de Jesus.
Nesta invocação, o suplicante também é lembrado de sua verdadeira condição, ou seja, de que é peregrino na terra, e que seu verdadeiro lar está nos céus, onde habita seu Pai (Jo 14.1-4; 17.14-16). Pertencemos a Deus, somos seus filhos, e somos cidadãos dos céus (Fp 3.17-21). Por vezes, nos esquecemos disso e vivemos como se pertencêssemos a este mundo. Neste caso, nossas prioridades se tornam terrenas, quando deveriam ser celestiais. Por esta razão, Jesus nos ensina, sobre o que pedir demonstrando quais devem ser nossas verdadeiras prioridades.

III. Deus vem primeiro
Os primeiros três pedidos expressam a nossa preocupação com a glória de Deus, em relação ao seu nome, ao seu governo e à sua vontade. Primeiro vem a glória de Deus e depois, nossas necessidades.

A. Glória seja dada a Deus
O que significa “santificado seja o teu nome”? O nome de Deus na Bíblia significa a sua própria pessoa, quem ele é. Ele expressa a sua própria natureza e a sua posição. O nome de Deus é o próprio Deus conforme revelado em todas as suas obras. Seu nome revela quem Deus é em suas virtudes e atributos. No Antigo Testamento Deus se revelou utilizando-se de diversos nomes, conforme cada contexto: “Senhor dos Exércitos” (Sl 46.7, 11); “Senhor Justiça Nossa” (Jr 23.6); “O Senhor Proverá” (Gn 22.13, 14); “O Senhor É Minha Bandeira” (Ex 17.15); “O Senhor Que Sara”(Ex 15.26); “OSenhor É Paz” (Jz 6.24); “O Senhor Está Ali [presente]” (Ez 48.35); “O Senhor Que Vos Santifica” (Ex 31.13).
Deus é santo em si mesmo. Nada que fizermos ou pedirmos poderá acrescentar mais santidade a sua pessoa. No entanto, santificar o nome de Deus significa reverenciá-lo, honrá-lo, glorificá-lo e exaltá-lo. Neste pedido expressamos nosso desejo de que outras pessoas conheçam e honrem a Deus com suas vidas. Isto ocorre, todas as vezes que pecadores se rendem a seus pés e o reconhecem como Deus e Senhor.

B. Que o domínio de Deus se estabeleça sobre todos
Jesus ensina também a orar pela vinda do Reino de Deus. Deus é rei. Seu reino é real neste mundo, no entanto, Jesus acrescentou um novo significado com a sua vinda. O Reino de Deus é o domínio de Cristo nos corações. O Reino de Deus deve ser visto em estreita relação com a salvação e suas bênçãos, manifestadas através da obra de Cristo Jesus. Pertencer ao Reino de Deus significa viver em submissão ao governo divino, sob o senhorio de Cristo. Portanto, quando oramos “Venha o teu Reino”, pedimos que ele cresça à medida que as pessoas se submetam a Jesus através do testemunho da igreja, e que logo esse Reino alcance a sua plenitude e consumação com a vinda de Cristo Jesus em glória para assumir o seu poder e o seu reino.

C. Que seus preceitos sejam obedecidos
Na Bíblia, vontade de Deus, pode ter pelo menos dois significados. Primeiro, o termo “vontade” pode significar “decreto de Deus”. Ou seja, os planos eternos de Deus que são realizados sempre, tanto no céu como na terra. Nada foge ao propósito de Deus preestabelecido e predeterminado (Is 46.10). Segundo, o termo “vontade” (este é o significado na petição)  significa os preceitos de Deus para obediência do homem. Esses preceitos fazem parte da lei moral de Deus, que se encontra revelada nas Escrituras. Os dez mandamentos resumem toda a lei moral de Deus. No céu os anjos são obedientes ao Senhor, cumprindo os seus preceitos de maneira santa e perfeita. Pedimos então, que a vida aqui na terra se aproxime o mais possível da vida no céu. Pedimos que todas as pessoas se submetam a vontade de Deus.
Estes princípios devem modelar não só nossas orações, mas acima de tudo, devem modelar todo o nosso viver. Não só devemos orar para que o nome de Deus seja santificado, seu reino venha e sua vontade seja feita, mas viver de tal forma, que tudo isso se cumpra através de nossa vida (1Co 6.20; 10.31). Tais pedidos chocam-se com os padrões deste mundo, tão egocêntrico e materialista. Fazer tais petições com integridade de coração implica num teste para verificar se nossa profissão de fé é verdadeira.


IV. Humilde dependência de Deus
Os três últimos pedidos bem como a conclusão da oração, expressam a nossa humilde dependência de Deus. Jesus ensina que depois de demonstrarmos preocupação com a glória de Deus, podemos pedir por nossas necessidades. Elas são importantes para o Pai, e por isso, também, devem fazer parte de nossas orações. Notem que os pronomes possessivos passam de “Teu” para “nosso”. Dizemos “nosso” e não “meu”. Portanto, nesta oração aprendemos a ser generosos, incluindo em nossas orações as necessidades de todos os nossos irmãos, pois, juntos constituímos uma só família (Ef 2.11-22; 3.14, 15).

A. O pão cotidiano
 No quarto pedido, “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje”, Jesus nos ensina a moderação. Somos ensinados a pedir pelo pão de cada dia. Nossa dependência de Deus deve ser diária. A palavra “pão” é símbolo de todas as coisas necessárias para a preservação desta vida, como o alimento, as vestes, a saúde, nossa casa, lar, paz, um bom governo. Jesus ensina seus discípulos a buscar das mãos de Deus, tudo quanto é necessário para se viver neste mundo. Os discípulos devem pedir pão e não luxo, contentando-se com o necessário somente (1Tm 6.6-10). No deserto, os israelitas recebiam de Deus a porção do maná para cada dia e nesta mesma dependência devemos viver.
Este pedido, colocado desta maneira, choca-se com os anseios e esforços meramente terrenos. Pressionados por uma cultura materialista, consumista, hedonista, muitas vezes, nossas preocupações e esforços se voltam para o acúmulo de bens e riquezas. Como consequências de tal atitude, somos dominados pela ansiedade (Mt 6.25-33), abandonamos a dependência de Deus (Sl 127) e negligenciamos o verdadeiro tesouro (Mt 6.19-21). A oração do “Pai Nosso”, apresenta-nos um antídoto a esta situação, ensinando-nos a moderação e a dependência de um Pai solícito.

B. Perdoando e sendo perdoado
Depois das necessidades materiais, incluímos as espirituais: “e perdoa-nos as nossas dívidas”. Tão importante quanto o “pão cotidiano”, é o perdão de nossos pecados. Neste pedido reconhecemos que não há em nós qualquer justiça própria, que nos faça sem culpa ou dívida para com Deus. Por meio de Cristo podemos ter o perdão de nossas dívidas. Neste pedido, o perdão de nossos pecados está condicionado a atitude que temos para com os nossos devedores. Conforme os versos 14 e 15, o Pai só perdoará aqueles, que semelhantemente perdoam seus ofensores. Isto significa que, nosso arrependimento sincero é confirmado por nossa atitude de perdoar aqueles que nos ofenderam (Mt 18.23-35).

C. A proteção de Deus
O último pedido é duplo, incluindo uma petição negativa “não nos deixe cair em tentação”, e outra positiva, “mas livra-nos do mal”. Neste pedido reconhecemos nossa fragilidade diante das investidas de nosso inimigo e pedimos a nosso Pai que nos livre daquele. Reconhecemos mais uma vez a nossa dependência do Senhor, de que não somos suficientes sozinhos. Portanto, em nossas tentações ou provações, necessitamos da graça de Deus, para que nos ajude e não permita que o nosso adversário tenha êxito.

D. Confiança e dependência reafirmadas
O “Pai Nosso” termina com uma conclusão, que expressa confiança e dependência. “Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém”. Nesta conclusão, Jesus ensina a seus discípulos que a resposta a todos os pedidos feitos, não se baseia em seus méritos ou esforços, mas em um Deus que é Rei, Soberano, Poderoso e que faz tudo para a sua própria glória.  Nesta conclusão, louvamos a Deus, reconhecendo sua soberania, onipotência e glória.   Com base em tal convicção, o discípulo de Cristo descansa na certeza de que seus pedidos serão ouvidos e respondidos conforme a vontade de Deus, por isso, termina dizendo: Amém!


Conclusão
A oração do “Pai nosso”, trata-se de uma modelo para as nossas orações. Nela encontramos princípios que devem nortear toda a nossa vida. Neste modelo Jesus nos ensina a nos dirigir a um Deus que é soberano, excelso, mas que pode ser chamado de Pai e que ouve as nossas petições. Aprendemos com Jesus que nossas orações devem priorizar antes de mais nada, a glória de Deus. Em primeiro lugar vem o seu nome, seu reino e sua vontade. Em seguida, podemos apresentar os pedidos referentes às nossas necessidades, tanto materiais, como espirituais. Em tais pedidos devemos demonstrar sempre, moderação e humilde confiança em Deus. Pedimos sempre o que é necessário, não o supérfluo ou luxo. Pedimos para nós, como para todos os nossos irmãos. Por fim, Jesus nos ensina que nossas orações devem terminar da forma como começamos, ou seja, na confiança de que Deus como Pai ouvirá nossas orações e que sendo um Rei poderoso e soberano irá respondê-las conforme sua vontade.


A parábola do Bom Pastor – João 10.1-18

A parábola do Bom Pastor é contada apenas por João. Ao que parece, conforme a sequência da passagem anterior, ela foi contada logo em seguida a expulsão do homem curado da cegueira pelos fariseus. Nesta parábola, Jesus se apresenta como o bom pastor em contraste com os falsos pastores, que no contexto se aplica aos fariseus. Estes haviam expulsado o homem que havia sido curado da cegueira (uma verdadeira ovelha), mas, Jesus sendo o bom pastor foi ao seu encontro e o resgatou. As pessoas que ouviram esta palavra eram as mesmas de 9.35-41.
Nesta parábola, Jesus se utiliza de algumas figuras para ilustrar seu ensinamento, sendo que a principal delas é a figura do bom pastor (v. 10, 11, 14), que se aplica a Cristo Jesus. As outras figuras dividem-se em duas listas. Na primeira lista: a porta (o próprio Jesus, v. 6 e 7); o aprisco (Israel, implícito no v. 16); as ovelhas (as pessoas por quem Cristo morreu; os que são destinados à salvação; os que ouvem a voz de Jesus e o seguem – v. 10, 4, 9, 11, 14, 28); rebanho (a congregação total dos salvos, v. 16). Na segunda lista: ladrões, salteadores, estranhos e mercenários (os inimigos de Jesus, os fariseus).
Podemos sumarizar o ensino de Jesus em três pontos principais:

A. O Bom Pastor: o Amigo das Ovelhas.
Todas as qualidades que um pastor de ovelhas possa ter são apresentadas com perfeição em referência a Cristo Jesus. Sejam quais forem as qualidades que possa reunir um pastor terreno, fazem dele apenas um pálido reflexo do grandioso, magnífico e maravilhoso Bom Pastor. Jesus é o nosso Supremo Pastor. Aqueles que exercem o ministério pastoral podem mirar-se no exemplo de Cristos e aprender com ele como cuidar do rebanho, a Igreja. Não só isso, mas as ovelhas, através de tal modelo podem reconhecer aqueles, que mesmo que imperfeitos, são verdadeiros pastores.
Jesus se apresenta como o bom pastor que nesta posição:
1. Entra pela porta e é bem recebido pelo porteiro (10.3);
2. Chama as ovelhas pelo nome (10.3); as conhece intimamente (10.14, 15; cf. 10.27, 28);
3. As leva para fora do aprisco e as conduz aos pastos verdejantes (10.3).
4. Vai adiante delas, para conduzi-las em segurança (10.4).
5. É reconhecido e seguido pelas ovelhas (“elas conhecem a sua voz”) (10.3, 4).
6. Dá acesso a todas as bênçãos (10.7-9); é “a porta”.
7. Dá vida em abundância (10.10; cf. 10.27, 28).
8. Dá a vida pelas ovelhas (10.11, 14).
9. Guia sua ovelhas (cf. 10.4), reúne também outras ovelhas, para que elas formem um só rebanho com um só pastor (10.16).
10. É amado pelo Pai (10.17).

B. Os inimigos das ovelhas: Ladrões e Salteadores, Estranhos e Mercenários
Os inimigos das ovelhas são ladrões e saltadores, pois não são donos das ovelhas, mas tentam subtraí-las de seu verdadeiro dono e aprisco. São estranhos, pois não são conhecidos das ovelhas. São mercenários, pois, tentam apenas obter delas vantagem e lucro, e quando as ovelhas estão em dificuldades as abandonam.
Conforme o contexto, tais inimigos se referem aos fariseus, bem como a todos os líderes religiosos judaicos, e nos dias atuais, a todo e qualquer líder falso. Estes tentavam de todas as formas, ganhar os seguidores de Jesus através de seus ensinamentos falsos, baseados numa interpretação legalista e limitada da lei de Deus. Eram como ladrões, salteadores, que não entravam pela porta, mas pulavam os muros, ou seja, seus ensinos não tinham a Cristo e sua obra como fundamentos.

C. As Ovelhas
Estas têm as seguintes características:
1. Ouvem a voz do pastor, porém não dão atenção à voz de estranhos (10.3-5).
2. Seguem o pastor, porém fogem de estranhos (10.4, 5).
3. Entram pela porta (verdadeira fé em Jesus e sua justiça), são salvas entram e saem e encontram pastagem (10.9). Elas obtêm vida em abundância (10.11).
4. Não pertencem ao mesmo aprisco, porém se tornarão um só rebanho, com um só pastor, Jesus (10.16).

As características acima demonstram uma dependência absoluta das ovelhas do pastor. As ovelhas dependem do pastor, para suprir suas necessidades, para terem direção e proteção. O pastor supre cada uma de suas necessidades e elas põem nele toda a sua confiança. 

Parábola do fariseu e o publicano: o jovem rico e Zaqueu, o publicano – Lucas 18.9-14; Marcos 10.17-31; Lucas 19.1-10

A parábola do fariseu e do publicano é registrada apenas por Lucas. Conforme Lucas esta parábola é contada no contexto em que Jesus tem encontro com o jovem rico (Lc 18.18). Os evangelistas Mateus e Marcos, também registram de forma semelhante a Lucas, sobre este encontro de Jesus. Lucas ainda, logo depois de registrar sobre este encontro, ao organizar seu material e apresenta-lo a seus leitores, relata sobre o encontro que Jesus tem com Zaqueu, o publicano. Ao que parece, Lucas diferente dos outros evangelistas, tem o cuidado de não omitir esses encontros em paralelo com o ensino da parábola. Pode-se perceber uma estreita ligação entre tais encontros e o ensino da parábola.

A. O fariseu e o jovem rico
Jesus propôs essa parábola, para demonstrar que ninguém pode se aproximar de Deus, através de méritos pessoais. A parábola é dirigida àqueles que “confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e desprezavam os outros” (Lc 18.9). O fariseu da parábola era alguém que confiava em seus méritos pessoais, achando que isso pudesse garantir sua aceitação diante de Deus. Enganava-se, pois, ninguém pode se apresentar diante de Deus confiando senão no favor gracioso de Deus. Por isso, ele voltou para sua casa sem ser justificado, pois aquele que se exalta será humilhado.
O jovem rico, age como um legítimo fariseu. Ele se aproxima de Jesus, com o fim de ser por este exaltado. Pergunta como faria para herdar por si mesmo a vida eterna. Tendo Jesus respondido que ele precisava praticar os mandamentos, logo destaca que praticava todos os mandamentos desde a sua juventude. Em outras palavras, considerava-se merecedor da salvação. Jesus ao demonstrar que tal homem quebrava os mandamentos, por não poder se separar das riquezas que possuía, amando-as mais do que a Deus e ao próximo, demonstrou quão impossível é para alguém receber a vida eterna, com base em seus próprios méritos. Na verdade, ninguém pode merecer a salvação. Somos imperfeitos e falhos. Somos incapazes de merecer o favor de Deus. Por isso, a impossibilidade de alguém entrar no reino de Deus, senão confiando em sua graça (Lc 18.24-30).

B. O publicano e Zaqueu
O publicano a semelhança do fariseu, foi ao templo também com o propósito de orar. O publicano diferente do fariseu reconhece sua condição pecaminosa. Sentindo-se humilhado por seu estado pecaminoso, evita se aproximar do templo, e nem ao menos levantava a cabeça. Cabisbaixo, batia no peito, em autoacusação. Mas, orava: “Ó Deus, sê propício a mim, pecador” (Lc 18.13). Ele sabia que não possuía méritos pessoais para alcançar o favor de Deus, mas confiava na graça divina, para ser aceito por Deus. Por sua humilde petição e atitude foi justificado, porque todo o que se humilha será exaltado (Lc 18.14).

Zaqueu (publicano) agiu como o publicano da parábola. Diante do Filho de Deus,  reconhece suas culpas, resolvendo indenizar aqueles a quem havia defraudado e doar parte da sua riqueza aos pobres. Zaqueu foi salvo, justificado. Assim como Zaqueu, todo pecador que humildemente se aproxima de Deus, confiando em sua graça, recebe dele a salvação oferecida por meio dos méritos de Cristo.

Parábolas da ovelha, moeda e filho perdido – Lucas 15.1-32; Mateus 18.10-14

A parábola da ovelha perdida é contada por Mateus e Lucas, enquanto que as parábolas da moeda e do filho perdido ou pródigo são contadas apenas por Lucas. O contexto em que Mateus registra a parábola da ovelha perdida é diferente do contexto em que Lucas registra tal parábola e as demais. Nada impede que Jesus tenha contado a mesma parábola em ocasiões diferentes. No entanto, as circunstâncias em que registram tais parábolas são semelhantes.
Em Mateus, Jesus conta a parábola da ovelha perdida para ensinar seus discípulos a dispensarem atenção e cuidado amoroso para com todos os pecadores, que são chamados de pequeninos, sendo comparados a crianças. Jesus diz: “Vede, não desprezeis a qualquer destes pequeninos” (Mt 18.10). Em Lucas as parábolas da ovelha, como da moeda perdida e do filho perdido, são contadas depois da atitude intolerante e hipócrita dos fariseus e escribas. Estes criticavam Jesus, por ele falar e comer com publicanos e pecadores. Portanto, em ambos os contextos, Jesus condena o desprezo para com os pecadores, encorajando seus discípulos a amá-los.
As três parábolas apresentam um tema central. Todas ilustram como o Pai Celeste ama pecadores perdidos e vai à procura deles. Assim, como o pastor vai à procura da ovelha perdida, a mulher da moeda e o pai recebe com alegria o filho que se perdera, assim também Deus o Pai, através de Cristo, vai a procura dos perdidos. É para isso que Cristo veio, ou seja, “salvar o que estava perdido”, e assim, não é da vontade do “Pai celeste, que pereça um só destes pequeninos” (Mt 18.11, 14, compare com 1Tm 2.1-6). Jesus não veio salvar pessoas espiritualmente saudáveis e sim pecadores que precisam de salvação. Os fariseus e os líderes religiosos se consideravam saudáveis, no entanto, eram os piores dos pecadores, pois não reconheciam a situação em que se encontravam. Se nas parábolas, quando o que estava perdido é encontrado proporciona alegria para quem o buscava, alegria maior há no céu por causa de um pecador que se converte. Portanto, o que causa prazer e satisfação para Deus é salvar pecadores perdidos. Esta lição aprendida, produz numa igreja local, um olhar favorável para com os pecadores, despertando-a para a tarefa da evangelização. 

A missão dos setenta: um paralelo com a missão da igreja - Lucas 10.1-20

Depois do encontro que Jesus teve com três supostos seguidores, ele designou setenta de seus discípulos para que fossem adiante dele, nas cidades que ele estava para visitar. Lucas é o único dos evangelistas que registra sobre essa missão, mas percebemos uma semelhança entre as instruções dadas aos setenta, com as instruções dadas anteriormente aos doze (9.1-6; Mt 10.5-15; Mc 6.7-13). Uma aplicação possível desta passagem é traçar um paralelo entre a missão dos setenta com a missão que Cristo deu a sua Igreja em todos os tempos.
O número de setenta discípulos pode ser simbólico. Em Gênesis 10 há uma lista de setenta nações originadas dos filhos de Noé. Portanto, setenta pode representar o mundo todo, composto de diversas nações. Jesus enviou setenta discípulos para que fossem a todas as cidades, para onde ele iria depois.
Jesus diz que “a seara” é grande, mas os trabalhadores são poucos, razão pela qual, seus discípulos deveriam rogar ao Senhor da seara para que mandasse mais trabalhadores. Portanto, essa missão seria difícil e trabalhosa, mas deveria ser realizada na dependência de Deus. Para demonstrar mais ainda a dificuldade, Jesus diz que eles estavam sendo enviados como cordeiros para o meio de lobos. Portanto, o ambiente em que a missão seria realizada, era hostil e perigoso.
Os discípulos deveriam ir de cidade em cidade e de casa em casa. Ao serem bem recebidos, deveriam permanecer e anunciar a mensagem do Reino: “A vós outros está próximo o reino de Deus” (v.9).
A missão de anunciar a Cristo de casa em casa, de cidade em cidade e em todo o mundo, permanece como uma missão para a Igreja em todos os tempos. Trata-se de uma tarefa difícil, que conta com escassos trabalhadores e que deve ser realizada sempre com oração (At. 1.8; Mt 28.18-20). Hoje, assim como foi dito por jesus a seus discípulos, nem sempre a mensagem será bem recebida pelos ouvintes. Alguns irão aceitar e outros rejeitar a mensagem do Evangelho da Salvação em Cristo.

A Igreja de Cristo hoje vive em tempos diferentes, no que diz respeito aos recursos tecnológicos. No entanto, deve cuidar para não ser dominada por tais avanços a ponto de comprometer a sua missão. A Igreja corre o risco de ficar dependente dos recursos, deixando de enfatizar sobre o dever que cada crente tem de testemunhar de Cristo, em todos os lugares e em todo tempo. Deve sim fazer uso dos recursos que lhe estão disponíveis, mas, não esquecer que para realizar sua missão, precisa apenas estar comprometida com ela e simplesmente anunciar.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Implicações Práticas da Encarnação de Cristo - João 1.14

               João inicia seu Evangelho falando acerca da encarnação do Verbo de Deus. Ele identifica o Verbo de Deus, a Palavra de Deus que esteve presente na criação com Cristo Jesus. Ele procura combater uma heresia que surgira no seu tempo, conhecida como docetismo, que ensinava que o Cristo tinha apenas aparência de homem. Tal heresia ensinava, que o Cristo não era homem de fato.
João começa demonstrando que aquele que esteve entre eles se fez homem. Em sua primeira epístola, João demonstra que o Verbo da Vida foi visto, apalpado, portanto, deixando claro ser ele de fato homem de carne e osso. Ele está afirmando que o Verbo de Deus, Deus mesmo, se tornou um de nós. Ele assumiu a natureza humana tornando-se um como os homens, sujeitando-se à todas as debilidades a que estamos sujeitos, porém sem pecado. Cristo sentiu fome, sede, sono, e foi tentado a nossa semelhança (Mt 4.1-11).
Cristo se tornou homem, para que pudesse sofrer no lugar de homens. O autor de Hebreus vai dar ênfase a essa doutrina da encarnação, demonstrando esta identificação com a humanidade, assumida por Cristo, por causa da encarnação. Ver Hebreus 2.14-18; 4.15. Como decorrência desta doutrina, o autor de Hebreus nos encoraja a confiar em Cristo Jesus. A conclusão é a seguinte: se ele sofreu como nós, portanto, ele pode nos socorrer.
João também afirma, que Cristo estabeleceu morada aqui entre nós. No deserto, no tabernáculo, Deus habitava com seu povo, assim também, e de forma mais plena Cristo veio “tabernacular” entre nós, ou seja, fazer residência.
Na nossa versão a frase “cheio de graça e de verdade” é vinculada ao Verbo. No entanto, há evidências que no original grego tal frase possa ser vinculada a glória de Deus. Moisés quando pediu para ver a glória de Deus, recebeu a seguinte resposta: “Farei passar toda a minha bondade diante de ti e te proclamarei o nome do Senhor; terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer” (Ex 33.19).
Desta forma, a glória de Deus pode ser vista em sua bondade e verdade. Isto é importante para nós, numa época em que as pessoas desejam ver a glória de Deus. A glória de Deus pode ser vista no fato dele manifestá-la em seu filho por meio de sua bondade e verdade. Moisés viu a glória de Deus e clamou: “Senhor, Senhor Deus compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade” (Ex 34.6). A glória que Moisés viu se revelou de forma mais plena na pessoa de Cristo Jesus, o Verbo de Deus. Esta glória pode ser vista por nós na misericórdia e bondade que nos têm sido manifestadas na salvação que nos chegou. Temos visto a glória de Deus revelada em Cristo Jesus e a temos conhecido, por meio de seus feitos salvíficos.
Que conforto para nós saber que temos um salvador, o Deus encarnado, que se compadece de nós, pois é um igual a nós. Que sofreu o que sofremos e pode nos socorrer. Que conforto é saber que Deus veio fazer morada conosco e que hoje habita em nós pelo seu Espírito. Que maravilha poder contemplar a glória de Deus por meio de sua bondade e verdade.

Pr. Valdemar A. S. Filho