terça-feira, 21 de outubro de 2014

Reação católica contra a Reforma Protestante

Como reação ao avanço e à ameaça que a Reforma Protestante representava, a Igreja Católica tomou algumas medidas. Uma delas foi convocar um concílio, conhecido como Concílio de Trento. Esse concílio foi convocado e teve seus trabalhos iniciados a partir de 1545, durando até 1563, sendo o XIX Concílio Geral da Igreja, conforme a Igreja Católica Apostólica Romana. Várias medidas foram tomadas, proporcionando tanto reformas internas para a Igreja Católica, bem como realçando sua oposição ao Protestantismo.
Jean Delumeau diz que, por um lado, o Concílio de Trento foi um avanço para as forças católicas de reforma. Por outro lado,
Porém, foi também a negação do diálogo com a Reforma, a abrupta afirmação de posições antiprotestantes. Para rechaçar com maior força a justificação pela fé somente, exagerou no valor as obras e desenvolveu a noção de mérito. O Concílio, frente a Lutero e Zuínglio, que haviam burlado as indulgências e as peregrinações, frente a Calvino, que havia ironizado sobre as relíquias, manteve todas as formas tradicionais de piedade; confirmou também o culto as imagens.[1]

Martin N. Dreher resume os principais aspectos quanto ao significado histórico de tal concílio:
a) Com suas formulações antiprotestantes, o Concílio de Trento sacramentou definitivamente o cisma da igreja ocidental; b) Com a formulação de uma confissão de fé própria, a Professio fidei Tridentinae, em 1546, a qual deveria ser professada então por todos os sacerdotes católico-romano, a igreja católica-romana passou a ser uma igreja confessional; c) Ao se tornar normativo para a reforma interna do catolicismo romano, superou o nominalismo, deu a seus adeptos uma doutrina clara (essa clareza se havia perdido em grande medida) e lançou as bases para uma Igreja universal, ao reformar a administração e a vida eclesiástica.[2]

O Concílio de Trento, embora tenha sido proposto numa tentativa de reformar a Igreja e responder, de certa forma, aos anseios populares que motivaram a Reforma Protestante, como se percebe, distanciou-se desta. Frente ao princípio formal da Reforma Protestante da suficiência[3] e inspiração[4] das Escrituras Sagradas (Bíblia), o Concílio de Trento aceitou a inspiração das Escrituras Sagradas e, no entanto, equiparou a ela a tradição apostólica oral, como norma de conduta e doutrina[5].
Com respeito aos sacramentos, a Igreja Católica manteve os sete sacramentos, re-enfatizando sua eficácia para a salvação do pecador. Negou-se a liberdade cristã e o sacerdócio dos crentes, doutrinas afirmadas por Lutero e outros reformadores protestantes. Manteve-se o caráter sacrificial da missa, considerando-a literalmente a repetição do sacrifício de Cristo. Ainda com respeito à eucaristia oferecida na missa, reafirmou a presença real de Cristo nos elementos, pão e vinho, contrapondo as teorias de Calvino e Zuínglio[6]. O matrimônio só seria válido se realizado pela Igreja[7].
A questão das indulgências, que foi algo atacado veementemente por Lutero em suas 95 Teses, também manteve-se, embora tenha-se proibido a sua venda  por dinheiro[8].
Outra questão importante estabelecida foi a autoridade papal, considerada pelo Concílio como sendo universal[9].
Conforme tais medidas doutrinárias e reafirmações, percebe-se o distanciamento do que propunha a Reforma Protestante, estabelecendo-se ainda mais o abismo entre as duas posições.
Outra medida tomada pela Igreja Católica frente ao avanço Protestante foi o revigoramento da Inquisição, em 1542[10]. Esse instrumento foi responsável pela morte de um grande número de pessoas, de protestantes, embora não tenha sido de uso exclusivo contra protestantes, mas também contra judeus e outros que eram acusados de heresia. Sendo assim, a obra da Contra-Reforma Católica usaria quando necessário a força, para restabelecer o domínio católico nos lugares que haviam adotado a Reforma Protestante. 
É importante esclarecer, como diz Delumeau, que esse período da história foi marcado por um espírito de intolerância religiosa[11]. E isso não se deu apenas do lado católico, mas também do lado protestante. No entanto, as perdas foram maiores para o lado protestante.
Sobre essas manifestações de intolerância, que resultaram em grandes massacres, Delumeau apresenta vários fatos demonstrando a situação de tal período:
O ódio ao herege se generalizou. Francisco I permitiu o extermínio de 3.000 habitantes do Vaux. Felipe II liquidou em cinco grandes autos de fé praticamente a todos os protestantes e erasmistas da Espanha. Cerca de 30.000 reformados foram vítimas na França, na Noite de São Bartolomeu e de suas seqüelas, tanto em Paris como em províncias. Nos Países Baixos, no outono de 1572, o duque de Alba ordenou o saque da cidade de Malinas e o degolo dos protestantes de Zutphen. Porém a intolerância era mútua: Maria a Sanguinária, autorizou um número de execuções aproximadamente igual a da que ordenou Isabel. Na Europa do século XVI instalaram-se por toda a parte fúrias iconoclatas: em Wittenberg em 1522, em Provenza e em Delfinado em 1560, e nos Países Baixos em 1566. Nesta última região os “mendigos” enterraram vivos os monges, deixando aparecer a cabeça, que serviu de alvo em um sinistro jogo de bolas. Na Inglaterra de Isabel se abriu um canal aos mártires católicos para arrancar-lhes o coração e as vísceras. [...] A intolerância religiosa era a norma. Calvinistas e luteranos disputavam acerca da presença real, porém se puseram em acordo para perseguir a todos os dissidentes do protestantismo, e em primeiro lugar os anabatistas.[12]

Um outro detalhe a se perceber é que as lutas religiosas promovidas pela Igreja Católica contra os protestantes, com apoio dos reis, não se davam única e exclusivamente por razões religiosas. Havia um interesse político, mesclado muitas vezes ao interesse religioso. Sobre isso, Delumeau diz:
Quando se considera a Contra-Reforma como reconquista das regiões perdidas pela Igreja romana, é obrigado fazer certas pontuações. Em primeiro lugar, esta: as ambições políticas se mesclaram sempre com os propósitos confessionais. Se houvesse triunfado a Armada Invencível (1588), não só se haveria restaurado o catolicismo mais além do canal da Mancha, senão que também haveria sido eliminada uma perigosa concorrência marítima e reduzida as ambições coloniais que a Espanha começava a temer seriamente.[13]

Assim, o interesse em tais guerras, que principalmente se voltaram contra os protestantes, não se deu unicamente por motivos religiosos. Em nome da religião, com o apoio dos governantes com seus interesses políticos, vários massacres aconteceram. Em outros casos, em que a vitória militar permitia, procurou-se “converter as massas protestantes por toda sorte de meios: missões, criação de colégios e universidades, e toda classe de pressões para asfixiar a religião contrária”[14].
Tal situação de conflito e perseguição se estenderá a todo o território que tiver adotado a Reforma Protestante. O Brasil não será exceção desses conflitos e de perseguição religiosa. Logo nas primeiras décadas de sua história, no século XVI, protestantes virão para este território, alguns até mesmo com a esperança de poder aqui exercer sua fé com liberdade. No entanto, essa liberdade não virá antes de perseguições e a liberdade religiosa tão aguardada só será legalmente possível alguns séculos depois, no século XIX, com a proclamação da República. A presença protestante no Brasil no período colonial se dará por meio de invasores com interesses que iriam além do religioso, mas que também teriam um caráter religioso. Desta forma, para os portugueses católicos, expulsar tais invasores, além de garantir os interesses políticos, econômicos e expansionistas, significava também investir contra os hereges protestantes.



[1] Jean DELUMEAU. La Reforma. Barcelona: Editorial Labor, 1967, p. 103.
[2] Martin N DREHER. A Crise e a Renovação da Igreja no Período da Reforma. São Leopoldo: Sinodal, 1996, p. 122.
[3] Para o Protestantismo de forma geral, a Bíblia Sagrada é considerada a única regra de fé e prática, tendo a preferência sobre qualquer outra norma.
[4] Inspiração trata-se de um termo teológico que, aplicado à Bíblia, considera seu registro como tendo sido feito sob orientação divina. Embora no Protestantismo se considere a participação humana na composição dos livros da Bíblia, sendo que cada autor não foi anulado em suas capacidades e personalidades, considera-se que Deus orientou, direcionando o registro da sua revelação.
[5] DREHER, Op. Cit., p. 123.
[6] DELUMEAU, Op. Cit., p. 106.  
Com respeito à eucaristia, o catolicismo afirma que, no momento do seu oferecimento na missa, o pão e o vinho se transformam literalmente no corpo e no sangue de Cristo. Cristo se transforma em tais elementos. Essa é a doutrina da transubstanciação. Já Zuínglio e Calvino postulavam uma doutrina diferente. Para Zuínglio, no momento do oferecimento de tal sacramento, os elementos não se transformavam no corpo e no sangue de Cristo. A substância de tais elementos permanecia a mesma, servindo tais elementos apenas (e somente isso), para simbolizar e trazer à memória do fiel o sacrifício de Cristo. Calvino pensava de forma semelhante a Zuínglio, no entanto, entendia que, na hora do oferecimento de tal sacramento, servia não apenas para simbolizar o sacrifício, mas também, pela presença espiritual de Cristo, eles serviam para comunicar a graça divina, alimentando espiritualmente o fiel. Portanto, para Calvino, tal sacramento funcionava como um meio de graça.
[7] DREHER, Op. Cit., p. 124.
[8] Idem, p. 125.
[9] Ibidem, p. 126.
[10] Frans Leonard SCHALKWIJK. Igreja e Estado no Brasil Holandês. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, 3a.ed, p. 24.
[11] DELUMEAU, Op. Cit., p. 97.
[12] Idem, p. 98.
[13] Ibidem, p. 99.
[14] Ibidem, p. 99.