quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Prudente ou insensato? Mateus 7.24-27

Introdução
No Brasil cresce cada vez mais aqueles que se dizem cristãos evangélicos. Mais e mais, vemos profissões de fé se realizarem, supostas conversões ocorrerem, até mesmo dentre artistas e pessoas públicas. No entanto, apesar do crescente número de pessoas se dizerem crentes nos Senhor Jesus, notamos que pouca coisa tem mudado em nossa sociedade.
Tal situação deve nos conduzir a reflexão. Basta professar a fé em Cristo Jesus? Ser um frequentador de culto evangélico, ouvir de Cristo e de sua palavra, resolve, faz alguma diferença? O que está faltando?
Jesus ao final de seu sermão do Monte adverti seus ouvintes acerca de uma fé nominal. Para Jesus não basta apenas professar a fé nele, ouvir de suas palavras. É preciso, acima de tudo, que seus ouvintes sejam praticantes de sua palavra para que tenham sucesso na vida cristã. O cristão genuíno tem sua vida edifica sobre a prática da palavra de Deus. Enquanto que o cristão nominal, ignora isso e consequentemente arruinará sua vida.

I. Uma parábola sobre construtores
O Senhor Jesus por diversas vezes, ao apresentar seus ensinamentos fez uso de parábolas. Algumas vezes falava por meio de parábolas, com o fim de manter escondidas, as verdades que em particular pretendia transmitir apenas a seus discípulos (Mt 13.10-16). Outras vezes a parábola era direcionada a todos os seus ouvintes, com o fim de elucidar e tornar prático seus ensinamentos, como foi o caso desta parábola dos construtores. As parábolas são ilustrações tiradas de situações dos cotidianos dos ouvintes. Assim, enquanto falava sobre os dois construtores, por exemplo, seus ouvintes podiam ver perto de onde estavam, alguém edificando uma casa.
Ao final de seu Sermão do Monte, Jesus compara seus ouvintes a dois tipos de construtores. Não há um terceiro tipo ou um tipo intermediário de construtores. Assim, não há um terceiro tipo de ouvintes. Seus ouvintes ou são prudentes ou insensatos. Ou são ouvintes que praticam suas palavras ou ouvintes negligentes que ouvem e não praticam suas palavras. Jesus está sempre dividindo seus ouvintes em duas classes. Neste sermão ele fez isto algumas vezes. Por exemplo, em 7.13, 14, ele fala das duas portas, a estreita e a larga. Há os que entram por uma e os que entram por outra. Em 7.17 e 18, fala da árvore boa que dá bom fruto e da árvore má que dá fruto ruim. Assim ocorre em outras passagens (Mt 10.39; 13.12-16, 19-23, 24-30, 36-43, 47-50).
Jesus conclui seu sermão com esta parábola demonstrando a importância e gravidade de seus ensinamentos. Ele não está brincando. Seus ouvintes precisavam saber da gravidade do que ensinava. Se colocassem em prática seus ensinamentos seriam bem-sucedidos. Caso contrário sofreriam as consequências de negligenciar seus ensinamentos. Primariamente estas palavras se aplicam ao Sermão do Monte, mas, não somente a ele. De maneira ampla se aplicam a toda Palavra de Deus contida nas Escrituras. Desta forma, nenhum ensinamento bíblico pode ser negligenciado.
Para Jesus viver é como construir ou edificar casas. Aquilo que fazemos, falamos, pensamos, planejamos, executamos e cada obra que realizamos é, por assim dizer, um tijolo que assentamos em nossa construção. Cada um deve considerar a forma como edifica sua vida, pois, o sucesso na vida cristã dependerá da forma como ela é edificada. Tudo o que fazemos, de duas uma, ou encontra-se de conformidade ou em oposição ao ensino de Cristo. Percebemos então, que somos responsáveis pelas nossas ações, sendo que cada uma delas, será provada.

II. Semelhanças entre os dois construtores
Embora fique demonstrado que os dois construtores difiram de forma fundamental na escolha do solo sobre o qual alicerçam suas casas, no entanto, há algumas semelhanças entre eles.

A. Semelhança no tipo de casa que constroem
Na época de Jesus as casas construídas eram bastante frágeis, devido ao tipo de material utilizado. Eram casas cujas paredes eram facilmente atravessadas por ladrões (6.19). O teto, geralmente feito de barro e palha, podia facilmente ser aberto. Os quatro amigos do paralítico abriram um buraco no teto da casa onde Jesus estava, para que tal homem tivesse a chance de ser curado (Mc 2.4). Portanto, no caso dos dois construtores, suas casas eram semelhantes na maneira como foram construídas. A técnica para a construção foi a mesma, bem como o material utilizado. Jesus não destaca a diferença entre o tipo de material ou arquitetura. Não são nestas coisas que os dois construtores se diferenciam, sendo um chamado de prudente e outro de insensato.

B. Semelhança quanto ao local escolhido para a construção
Nesta questão também não há diferenças entre eles, pois, ambos constroem próximo ao leito seco de um rio. Enquanto a estação das chuvas não vem, ambas as casas permanecem sem sofrer risco algum. As coisas mudam quando vêm às chuvas, quando então, aquele leito de rio seco, se transforma em um rio com fortes correntezas. Só então, a diferença entre os dois construtores é colocada em relevo.

C. Semelhança quanto às circunstâncias enfrentadas
Ambas as construções estarão sujeitas as mesmas circunstâncias climáticas. Na Palestina as tempestades não são frequentes, no entanto elas podem vir repentinamente e transformar drasticamente as paisagens. Ambas as casas sofrerão com as tempestades. Os ventos baterão com força contra suas paredes. A chuva fará com que os rios transbordem e coloquem em perigo ambas as casas. Não há diferença entre esses dois construtores, quanto às circunstâncias que haverão de enfrentar, pois, segundo o texto, as construções de ambos, sofrerão os embates das tempestades.
As tempestades são figuras das provas que todos nós enfrentamos em nosso viver. As provas podem chegar de várias formas tais como tribulação (exemplo de Jó; Sl 46); tentação (Gn 39.7-18; Mt 26.69-75); luto na família (Jó 1.18-22; Lc 7.11-17; Jo 11.1-46); morte que se aproxima (At 7.59, 60), como também, conforme o contexto de nossa passagem, o dia do juízo (Mt 7.22). São diversas as circunstâncias que servem para nos provar. Para que serve, ou que diferença faz uma fé que ainda não foi provada? Em outras palavras, é diante das provações que o valor de nossa fé é testada e aprovada (Gn 22.1-19; Rm 5.1-5; Tg 1.2-4). É na provação que a diferença entre os ouvintes de Jesus é realçada. As provações veem sobre todos, se ouvintes prudentes ou insensatos. Mas é diante delas que se conhece o ouvinte prudente e o insensato.

III. A diferença entre os dois construtores
Jesus demonstra que a diferença entre os dois construtores está na forma como lançam os alicerces de suas casas. O construtor prudente lança o alicerce de sua casa sobre a rocha, enquanto que o construtor insensato lança o alicerce de sua casa sobre a areia.

A. O construtor prudente
O construtor prudente sabe que no futuro, aquele leito de rio seco, poderá com a chegada de uma tempestade, se transformar num rio com fortes correntezas. Por isso é prudente lançando o alicerce de sua casa sobre um local que ofereça segurança. Conforme o registro de Lucas, o construtor prudente “abriu profunda vala e lançou o alicerce sobre a rocha”. Como resultado de sua prudência, em vindo a forte tempestade a sua casa permanece em pé.
Alicerçar a casa sobre a rocha significa, conforme diz Jesus, ouvir e praticar a sua palavra. Notem que não existe diferença entre os ouvintes de Jesus, até que cheguem as tempestades e as provas da vida. Não há como distinguir entre o cristão professo genuíno do que cristão professo falso, pois, frequentemente se parecem. O joio se parece com o trigo, até que chegue a colheita.  A árvore boa é distinguida da ruim, quando chega a época de dar frutos. Distinguir um cristão de um não-cristão é mais fácil, mas distinguir, um cristão verdadeiro do falso isto é mais complicado. Mas, chegando as provas da vida, fica evidente quem construiu sua casa sobre a rocha. As tempestades colocam em descoberto os alicerces. Quem ouve e pratica as palavras de Jesus, em chegando as lutas e tribulações, sua vida permanece inabalada, firme e segura.
As palavras que procedem da boca de Jesus (ou seja, as Escrituras em sua totalidade) quando praticadas, se constituem em um firme alicerce sobre o qual podemos edificar nossa vida. O sucesso na vida cristã depende disso. É claro que com isso, Jesus não está dizendo que o sucesso na vida cristã dependa de nosso esforço. Definitivamente não. O sucesso depende de se praticar a palavra que é de Cristo. A capacidade para se ter sucesso na vida Cristã tem seu fundamento no próprio Jesus. Ele é a Rocha e sua palavra também é rocha para nossa vida (1Pe 2.1-4).
Nas dificuldades e desafios que enfrentamos na vida cristã, seja no âmbito familiar, da igreja ou em qualquer outra área, a palavra de Cristo se praticada, nos dará sustentação. Jesus não disse que os ouvintes praticantes de sua palavra não teriam problemas, mas disse que tais ouvintes permaneceriam firmes.
Josué recebeu a incumbência de conduzir o povo de Israel à terra prometida. O Senhor disse que ele seria bem-sucedido em sua tarefa, se não se desviasse nem pela direita e nem pela esquerda, mas se fizesse tudo o que a lei de Deus ordenava. Ele deveria falar, meditar dia e noite e fazer tudo o que estava ordenado na lei de Deus (Js 1.1-9).
No Salmo 1 o homem bem-aventurado é bem-sucedido, pois é governado pela palavra de Deus. Sua vida não é dirigida pelos padrões mundanos, antes é orientado pelos padrões divinos.
Nos Salmos 127 e 128, o sucesso na vida familiar é determinado, não pelas posses, realização profissional ou ausência de dificuldades, mas pela confiança e pelo temor de Deus. Isto implica em ouvir e praticar toda palavra de Cristo Jesus.
Timóteo seria bem-sucedido em seu ministério pastoral, se permanece nos ensinamentos bíblicos que havia aprendido desde a infância. Em outras palavras, se em cada aspecto de sua vida praticasse a palavra de Cristo, seria abençoado (2Tm 3.14-17).
Aqueles que edificam sua vida sobre a rocha, não só são bem-sucedidos durante toda vida nas provações, mas ainda e definitivamente na última prova, a do juízo final (cf. Mt 7.22 e 23 “naquele dia”). “Naquele dia” aqueles que praticam a palavra de Cristo, receberão o convite: “Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mt 25.34).

B. O construtor insensato
O construtor insensato diferente do prudente, não pensa no futuro. Embora construa sua casa como o outro, utilizando-se dos mesmos materiais, e construindo sua casa perto do curso de um rio seco, não toma providências para que sua casa permaneça segura, livre de desmoronamento. Diferente do construtor prudente, o insensato, constrói sua casa sobre a areia. Não tem o cuidado de cavar até encontrar um solo rochoso, para edificar sua casa. Enquanto o dia permanece calmo e o tempo estável, sua casa permanece segura. Mas, vindo repentinamente as tempestades, transformando-se o curso seco do rio em forte correnteza, batendo-se os ventos e a chuva, bem como as águas contra sua casa, ela vem a ruir-se, pois fora edificada sobre a areia. A este construtor é comparado àquele que ouve as palavras de Cristo e não as pratica.
Jesus demonstra que não basta ouvir sua palavra é preciso praticá-la. Diante das provações que virão – e elas chegam, tanto para o ouvinte prudente, como para o insensato – ouvir as palavras de Cristo e não praticá-las é loucura, insensatez, falta de prudência. O nominalismo trata-se de um grande mal. Professar a fé em Cristo, pertencer nominalmente a uma igreja, mas, não comprometer-se com a prática da palavra de Deus, conduz a ruína espiritual.
Tiago em sua carta, fala sobre a importância da prática da palavra de Deus e exorta: “Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tg 1.22). Aquele que ouve e não pratica a palavra é como alguém que olha no espelho, vê como está sua aparência, mas, logo se retira e nada faz esquecendo-se de como era (Tg 1.23).
É verdade que muitas vezes, até mesmo aqueles que professam uma fé verdadeira em Cristo, sofrem as consequências nesta vida por abandonarem a prática da palavra de Deus em algum momento. Na verdade, todas as vezes que fazemos isso, colhemos consequências dramáticas. A Bíblia tem vários exemplos disso, de servos que em algum momento por não praticarem a palavra de Deus, sofreram consequências.
Podemos citar o exemplo de Jacó (Gn 37—50). Ele ignorou os preceitos de Deus no que se refere à administração de sua grande família. Como consequência, vários problemas familiares ocorreram.
Davi também, em dado momento de sua vida, fez o que era mal perante os olhos do Senhor (2Sm 11—18). Adulterou com Bate-seba, planejou a morte de seu marido Urias e até antes de ser confrontado pelo profeta Natã, agia como se nada tivesse acontecido. Em consequência de não ter praticado a palavra de Deus, colheu sérias consequências em sua vida e família. Deus o perdoou, mas disse que em razão de seu pecado e desobediência, sofrimentos viriam. O filho gerado com Bate-seba morreu. Seu filho Amnom comete incesto com sua irmã Tamar. Absalão, outro filho de Davi, vinga sua irmã, matando Amnon. Tempos depois, Absalão volta-se contra Davi, usurpa seu trono e deita-se a vista de todos com as concubinas de Davi. Depois Abasalão é morto pelo exército de Davi.
O insucesso e a ruína não são apenas consequências colhidas durante esta vida por aqueles que não praticam as palavras de Cristo. Cristãos nominais colherão na última prova a do juízo final, a maior e definitiva ruína. Jesus dirá aos cristãos nominais “naquele dia”: “Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade” (Mt 7.22, 23). Assim, como uma tempestade pode vir repentinamente e pegar desprevenido um construtor insensato assim virá o dia do juízo. Como ocorreu no dia do dilúvio, diz Jesus, assim será na sua vinda. Antes do dilúvio, as pessoas viviam suas vidas normalmente, sem ter sua rotina alterada, ou seja, comiam, bebiam e se casavam. Mas, não perceberam quando Noé entrou na arca, senão quando o dilúvio chegou e os destruiu a todos (Mt 24.36-39). “Por isso, ficai também vós apercebidos; porque, à hora em que não cuidais, o Filho do homem virá” (Mt 24.44).

Conclusão
O Senhor Jesus adverti-nos do perigo de um cristianismo nominal e aponta-nos o caminho da felicidade e sucesso espiritual. Aquele que ouve e não pratica a sua palavra, mais dias ou menos dias, sofrerá as consequências de sua insensatez. Está edificando sua casa (vida) sobre a areia. Vera ruir sua vida e colherá sérias consequências no último dia. Ao contrário, aquele que ouve e pratica a palavra de Cristo, será alguém bem-sucedido espiritualmente nesta vida, e no futuro colherá a vida eterna. Este está edificando sua casa (vida) sobre a rocha.
No Brasil fará alguma diferença o crescente número de evangélicos, quando estes, tornarem-se sua maioria, praticantes da palavra de Cristo. Deixaremos de ter um cristianismo nominal e teremos um cristianismo genuíno.

Aplicação
Faça um inventário de sua vida para verificar se tudo quanto você tem ouvido da palavra de Cristo, você tem praticado. Tenha o hábito de fazer anotações dos sermões que você ouve em sua igreja, e de aplica-los a sua vida e de sua família. Durante a semana reúna-se com seus familiares e discuta o sermão dominical e verifique de que maneira, seus ensinamentos devem ser praticados.