quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Repensando nossa motivação: Agindo para servir a Deus, não para ser visto pelos homens. Mateus 6.1-8, 16-18

Introdução
“A maioria de nós, quer estejamos ou não cônscios disso, fazemos as coisas com o olho na aprovação de algum auditório. A questão não é se temos um auditório, mas qual o auditório, qual o ouvinte, que temos.” Esta observação é feita por Os Guinness em seu livro O Chamado, editado pela Editora Cultura Cristã.
Os Guinness toca em um ponto muito importante e que raramente percebemos, ou seja, nossa preocupação  em fazer as coisas de tal maneira que tenhamos a aceitação das pessoas, ao invés de procurarmos agradar e servir Àquele que tudo sabe e tudo vê. O que irão pensar de mim? Terei aceitação das pessoas? Serei notado? Estas e outras perguntas passam a determinar nossas ações e comportamento, demonstrando que buscamos aceitação de um auditório que não deveria ter a prioridade. No final das contas tal atitude revela que nossa motivação para fazer as coisas é pecaminosa e egoísta. Isto demonstra que a todo o momento, a cada ação precisamos repensar nossa motivação.

I. Agindo para servir a Deus, não para ser visto pelos homens
As palavras de Jesus ditas em 6.1: “Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles”, parecem contradizer seu ensino em 5.16: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras”. A contradição é apenas aparente, pois em 5.16, Jesus está combatendo a nossa negligência e em 6.1, ele está combatendo outro pecado, o da ostentação e exibicionismo. Devemos mostrar quando somos tentados a esconder (5.16) e devemos esconder quando somos tentados a mostrar. Em ambos os casos o objetivo deve ser sempre o mesmo. Ou seja, devemos praticar boas para que sejam vistas pelos homens e Deus seja glorificado e devemos praticar nossos atos religiosos em secreto para que Deus da mesma maneira seja glorificado. Ao mostrar ou esconder devemos glorificar a Deus. Em cada caso somos tentados a buscar o nosso próprio interesse. Ao esconder nos esquivamos de nossa responsabilidade, talvez evitando algum constrangimento ou comprometimento pessoal. Ao mostrar buscamos egoisticamente aprovação dos homens. Portanto, para não corrermos o risco de nos tornarmos egoístas, façamos tudo diante do Auditório de Um Só, ou seja, diante do “Pai que está nos céus” (5.16; 6.1).
As três práticas religiosas através das quais os discípulos deveriam exercer a sua “justiça”, ou seja, dar esmolas, oração e jejum, eram comuns entre eles. Jesus parte do pressuposto de que seus discípulos se ocupariam de tais práticas e desta forma, passa a ensina-los como deveriam fazer. De que maneira então, os discípulos de Jesus devem exercer sua justiça e servir a Deus?

II. No socorro aos necessitados – Mt 6.2-4
A lei de Deus, transmitida por Moisés ensinava sobre o dever de socorrer aos necessitados (Ex 23.10, 11; Lv 19.10; Dt 15.7-11). Jesus havia demonstrado a pouco, sobre a benignidade de Deus para com todos, e ensinado sobre o dever de seus discípulos imitarem o Pai celeste (5.43-48). Portanto fazer o bem socorrendo aos necessitados trata-se sem dúvida nenhuma de um ato de amor e compaixão. Aliás, Jesus parte do pressuposto de que seus discípulos realizariam isso. Mas, para Jesus, realizar feitos de generosidade não bastava. O Senhor vai mais além. Ele está preocupado em que seus discípulos não só pratiquem boas obras, mas que tenham a motivação certa em tais realizações. Esta é uma preocupação que Jesus tem do início ao fim no seu Sermão do Monte.
Nos dias de Jesus havia uma preocupação com os necessitados. Os judeus faziam isso com frequência. Havia a prática de recolher donativos nas sinagogas e nas ruas, para ofertar aos pobres. Apesar de tais ofertas servirem para amenizar o sofrimento alheio, tratava-se apenas de um pretexto para que seus ofertantes se exibissem e tirassem proveito disso. Aqueles que ofertavam “tocavam trombeta” diante de todos. Jesus está aqui utilizando-se de uma linguagem simbólica, para se referir a atitude dos fariseus, que se esforçavam de todas as formas para que seus feitos fossem exibidos e eles recebessem honrarias humanas. Jesus condena tal prática e chama os que agem assim de hipócritas. “Hipócrita” é uma palavra que no grego clássico, hupokrités era primeiro, um orador e, então um ator. Figuradamente, a palavra passou a se aplicar a qualquer pessoa que trata o mundo como se fosse um palco, onde interpreta um papel, ou seja, deixa de lado sua verdadeira identidade e assume uma identidade falsa.  Eram hipócritas, pois fingiam dar quando na verdade queriam receber, ou seja, as honrarias humanas. Tais pessoas já receberam a sua recompensa, diz Jesus, ou seja, os elogios humanos que tanto desejavam, e só isso.
Jesus ensina seus discípulos a maneira correta de se socorrer aos necessitados (6.3). Ao se dar esmolas a mão esquerda não deve saber o que a direita faz. É claro que isso não é possível acontecer literalmente. O que certamente Jesus estava ensinando, é que ao socorrer alguém, a pessoa deve conservar sua contribuição voluntária em segredo, não somente em relação aos outros, mas também em relação a si mesmo. Tal pessoa deve ignorar sua contribuição e esquece-la. Jesus adverte-nos aqui, do perigo de um ato de misericórdia altruísta, se deteriorar e se transformar num ato egoísta, em que a motivação principal não seja o benefício da pessoa que recebe a ajuda, mas o nosso próprio.
No verso 4, Jesus declara que a atitude secreta de socorrer aos necessitados será recompensada por Deus. É ele mesmo que no dia do juízo, concederá a cada um a recompensa (Mt 25.34-36). É claro que os benefícios não são somente futuros. A alegria e uma boa consciência por ter beneficiado e socorrido alguém, já é um recompensa antecipada.

II. Na vida de oração – Mt 6.5-8; 7.7-12
 A. Uma oração sincera e humilde
A oração também era outra prática utilizada pelos fariseus hipócritas, como pretexto para a autopromoção. Um judeu devoto orava em média três vezes ao dia (Sl 55.17; Dn 6.10; At 3.1). Jesus não está aqui condenado a oração pública e ensinando que a única válida é aquela feita em privado. Também não havia nada de errado em se orar de pé nas sinagogas e nas praças. A oração pública é apropriada, tem o seu lugar, por exemplo, no culto público. Há exemplos bíblicos de orações públicas (2Cr 6.14-42; Ne 9; At 4.24-31) Mesmo quando se trata de uma oração individual e pessoal, não há nada de errado de ser feita em público.
Na parábola do fariseu e do publicano, não havia nada de errado com estes homens em proferir suas orações pessoais no templo de forma pública. Jesus não condenou o fariseu por isso, e sim, por fazer de sua oração um instrumento para sua autoglorificação e não para servir e glorificar a Deus (Lc 18.9-14).
A ênfase principal de Jesus não está no lugar da oração, e sim, na motivação do coração. Sua preocupação não está em que as orações sejam feitas em segredo, mas que tenham motivações sinceras. Jesus está condenando na prática da oração, a autopromoção. Por isso, instrui seus discípulos a buscarem no anonimato do quarto fechado, um lugar apropriado para suas devoções. Notem que não basta orar no quarto, mas deve-se fechar a porta. O adorador sincero e humilde, que não está interessado em se mostrar publicamente com o fim de se autopromover, encontrará no isolamento um lugar apropriado para suas devoções.
Novamente Jesus declara como havia feito em 6.2, que aqueles que fazem uso da oração, como das esmolas, para receberem elogios dos homens, já receberam sua recompensa, ou seja, os elogios dos homens. Mas, para aqueles que são adoradores sinceros e humildes, podem ter a certeza de que o Pai celeste os recompensará, pois está vendo-os no secreto e ouvindo suas orações. Terão consciência de que o Pai, em seu cuidado amoroso responderá suas orações, dando-lhes o que for melhor, conforme a sua soberana vontade. Certamente terão a mente e coração revestidos da paz que excede todo entendimento (Fp 4.7) e saberão que Deus poderá fazer mais do que estão pedindo (Ef 3.20, 21).

B. Deus não é um Pai desinformado
Para uma oração sincera não se deve somente evitar a publicidade, mas também o falatório desnecessário, como indica Jesus: “E, orando não useis de vãs repetições” (6.7). É possível que Jesus tivesse em vista os escribas, que para justificar a exploração das viúvas, faziam longas orações (Mc 12.40; Lc 20.47). Seja como for, Jesus condena essa prática como sendo pagã. É claro que isto não significa que uma oração extensa seja sempre errada. Há exemplos bíblicos de orações longas, mas que não incorreram em falatório repetitivo e vão (2Cr 6.14-42; Ne 9). O que se deve evitar é a prática pagã de ficar fazendo orações longas e repetitivas. Um exemplo disso é a oração dos sacerdotes de Baal (1Rs 18.25-29). Eles ficaram desde a manhã até o meio dia, clamando por seu deus, e como sabemos, não tiveram suas orações atendidas, visto que clamavam a um falso deus, feito por mãos humanas. Outro exemplo disso, seria a reza do terço católico, em que a pessoa repete algumas dezenas de ave-marias e pai-nossos.
Jesus demonstra por suas palavras que tal atitude é baseada no medo de não ser atendido e na falta de confiança. Deus, não é um Pai desinformado. Ele sabe das necessidades de seus filhos, antes mesmo que eles peçam (6.8). Ele não é como os falsos deuses. Ele é um Pai onisciente, onipresente e onipotente, capaz de conhecer e satisfazer as necessidades de seus filhos, antes mesmo que eles peçam. Portanto, nossas orações devem ser objetivas e concisas. A acessibilidade de nossas orações não depende do número de palavras ou da extensão delas.

C. Jesus encoraja à oração perseverante
Existe uma diferença entre ser repetitivo e ser insistente ou perseverante na oração. Jesus condena a as vãs repetições e o falatório desnecessário. No entanto, não desencoraja a prática da oração perseverante.
Em 7.7, Jesus utiliza três verbos demonstrando assim a necessidade que seus discípulos têm de perseverar na oração. Os verbos, pedir, buscar e bater, estão no imperativo e no tempo presente. Uma tradução possível seria: “continuem pedindo, continuem buscando, continuem batendo”. Desta forma, a combinação desses três verbos demonstra que na oração devemos ser insistentes, perseverantes. Para cada um dos mandamentos, quando obedecidos há uma promessa correspondente. Quem pede, recebe; quem busca encontra; e a quem bate abrir-se-lhe-á (7.8). Em outras palavras, Jesus ensina que seus discípulos terão sempre suas orações respondidas.
Jesus reforça seu argumento, de que a oração perseverante, feita com fé será respondida, utilizando-se de um argumento que parte do menor para o maior (7.9-11). Assim como um pai terreno, mesmo sendo mau, sabe dar coisas boas a seus filhos, quanto mais o Pai celeste dará coisas boas aos que lhe pedirem. Portanto, os discípulos de Cristo podem descansar seguros de que suas orações serão respondidas e que o Pai celeste, como um pai bondoso e cuidadoso, cuidará de suas necessidades, dando-lhes o que for melhor (Sl 81.10; 103.13-14; Mt 6.25-34; Jo 15.7; Hb 4.14-16).

III. Na prática do jejum – Mt 6.16-18
O jejum trata-se da abstinência voluntária de alimentos, a que se submete uma pessoa por um determinado tempo. Pode ser por um breve tempo ou por um tempo prolongado. Jesus por exemplo, jejuou por quarenta dias e quarenta noite antes de ser tentado pelo diabo (Mt 4.1-11).
Biblicamente falando, ele servia a diversos propósitos. O jejum podia ser uma expressão de humilhação e tristeza por causa do pecado acompanhado de confissão pelo pecado (Dn 9.3-6; Jn 3.5). A rainha Ester convocou seu povo para jejuar em favor dela, para que ela fosse bem-sucedida ao entrar na presença do rei e assim, pudesse salvar seu povo de ser exterminado (Et 4.16). Às vezes ocorria por causa do luto (1Sm 31.12). Neemias jejuou depois de saber as notícias tristes sobre a situação de seu povo em Jerusalém (Ne 1.4). A Igreja Primitiva jejuou preparando-se para o envio de Barnabé e Saulo como missionários (At 13.1-3). Em Atos 14.23, durante a escolha de presbíteros houve jejuns e oração. Não há dúvida que a prática do jejum existia no Antigo Testamento e continuou a fazer parte da vida da igreja no Novo Testamento. Portanto, o jejum deve ser considerado uma prática espiritual de devoção cristã.
Os fariseus da época de Jesus jejuavam duas vezes por semana, o que se tornou motivo de orgulho para eles (Lc 18.12). Os discípulos de João Batista jejuavam com frequência, mas os discípulos de Jesus não jejuavam. Jesus disse que seus discípulos não tinham motivo para jejuar, visto que, não havia razão para tristeza, pois eles tinham a sua companhia. Porém, Jesus diz que quando não tivessem mais a sua companhia, ai então haveria motivo para jejuarem (Mt 9.14-15; Lc 5.33-35). Certamente, Jesus com tais palavras não queria desencorajar a prática do jejum, antes demonstra que o jejum é adequado quando há um motivo justo para praticá-lo. Assim como as práticas de dar esmolas e orar, podem se deteriorar, quando realizadas pelas razões erradas, para a promoção de quem as pratica, assim também, o jejum pode perder o seu valor e significado, se praticado por razões fúteis e egoístas. Os fariseus hipócritas ao jejuarem faziam de tudo para que as pessoas pudessem perceber que jejuavam (6.16). Possivelmente, passavam cinza no rosto para aparentarem estar pálidos. O jejum era outra forma de se autopromoverem, de alimentarem sua vaidade. Por isso, Jesus diz que já haviam recebido a sua recompensa, o elogio dos homens. Ao jejuar o adorador deve seguir a sua rotina. Ao se levantar deve se pentear, lavar o rosto e fazer todo possível para que seu jejum não seja aparente. O jejum deve ser discreto, pois, ele interessa apenas a pessoa que o pratica e a Deus que o recebe como uma oferta. Desta forma, feito em secreto, será recompensado pelo Pai que vê em secreto (6.18).

Conclusão
Jesus nos ensina que a prática de orar, socorrer os necessitados e jejuar, embora, sejam práticas cristãs, que em si mesmas são boas e recomendáveis, podem se deteriorar e tornarem-se atos egoístas e de autopromoção. Para evitar que isso aconteça, precisamos sempre avaliar nossa motivação. Faço tais coisas com o fim de obter aprovação das pessoas ou aprovação de Deus? Oro, socorro os necessitados e jejuo para servir a Deus ou para ser visto e elogiado pelos homens? A nossa justiça exercida por meio de tais práticas devem ser realizadas diante do Auditório de Um Só. Portanto, devo fazer tudo com discrição e humildade, sabendo que o Pai celeste sabe e tudo vê e me recompensará conforme a sua vontade.

Aplicação

Agora que você sabe que deve exercer sua justiça por meio da oração, do socorro aos necessitados e do jejum com o fim principal, de servir a Deus e não para ser visto pelos homens, faça tudo isso sempre avaliando sua motivação. Sabendo que tais práticas são recomendadas e que Jesus espera que as pratiquemos, envolva-se com elas. Ore por suas necessidades e pelas necessidades de seus irmãos e igreja. Verifique se há alguém em sua igreja carecendo de ajuda e discretamente o socorre. Jejue em momentos de aflição, a favor de sua igreja, de sua família e irmãos, sempre com discrição.