sexta-feira, 31 de maio de 2013

Resenha: ARMSTRONG, John (Org.). O Ministério Pastoral Segundo a Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, 288 pp.

Resenha
Valdemar Alves da Silva Filho

ARMSTRONG, John (Org.). O Ministério Pastoral Segundo a Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, 288 pp.

O livro O Ministério Pastoral Segundo a Bíblia, trata-se de uma coletânea de diversos artigos, quatorze ao todo, organizados por John Armstrong, escritos por diversos autores. Há no início da obra, uma lista apresentando as referências acadêmicas e ministeriais de cada articulista, que ajuda o leitor a ter um referencial teórico sobre os articulistas. Os autores, são de linha teológica reformada. Os artigos, cada um em seu tema, procuram apresentar uma perspectiva reformada sobre o ministério pastoral em cada um de seus aspectos e particularidades.
Erwin W. Lutzer, no prefácio, demonstra a importância do livro, apontando a direção escolhida para o seu tema geral. Conforme Lutzer, está faltando hoje, uma abordagem radicalmente bíblica a toda a obra da igreja, e diz que o perigo que corremos é não estar atentos para a secularização das igrejas evangélicas. Já no prefácio, pode-se ter uma idéia quanto à forma como os artículos serão apresentados. De forma geral, os artigos apresentam uma crítica à tendência moderna no meio evangélico atual, de abandono dos fundamentos bíblicos para o desenvolvimento ministerial. Portanto, este livro, conforme Lutzer, “foi escrito para nos ajudar a voltar àquelas verdades que fizeram que a igreja se tornasse, grande”. Enfatiza ainda, a importância do que disse Lutero, quanto à necessidade da igreja de constante reforma. Este tom em que o livro é escrito é reforçado pelas palavras de Armstrong na introdução, em que demonstra a necessidade da escrita de tal obra, dizendo que vivemos numa época em que os ministros modernos enfrentam grande pressão e que precisam ser equipados. Ele diz que não existem de forma comum em nosso tempo, livros que articulem e desafiem os modelos de prática pastoral, e que todo o campo foi tomado como refém das modernas disciplinas acadêmicas de Ciência e Psicologia. Armstrong ao desenvolver seu trabalho de pregação itinerante por seu país, teve contato com centenas de ministros em grupos pequenos e restritos, verificou seus conflitos e percebeu a necessidade de produzir tal livro. Portanto, como ele diz, “esta é uma obra que procura entender a época na qual vivemos, os desafios que os modernos ministros realmente enfrentam e a necessidade da congregação e da liderança não-ordenada de entender melhor o que a vida e a obra pastoral realmente são”. Por isso, conforme diz, os autores escolhidos são todos ministros de diversas partes e de várias igrejas, grandes e pequenas. Sendo assim, a proposta do livro é apresentar um conteúdo de teologia prática.
O primeiro artigo escrito também por Armstrong, trata sobre o lema da reforma “semper reformanda”, ou seja “sempre reformando”. Tal frase, segundo o aturo trata-se do conteúdo do que é abordado em todo o livro. De forma geral neste artigo o autor demonstra a necessidade do ministério pastoral ser fundamentado e reformado pela Palavra de Deus somente.
O segundo artigo é de autoria de Mark Coppenger, com o título “Livrando-se da profissionalização: Redescobrindo o ministério pastoral”. Neste artigo o autor irá confrontar a tendência atual de se considerar o ministério pastoral, como uma profissão igual às outras, possuindo até mesmo seu código profissional. Ele aponta então para o perigo da profissionalização do ministério pastoral, conforme os critérios profissionais modernos. Diz que o ministro ao assumir seu papel profético, deve resistir à domesticação do ministério. Para ele a existência de códigos profissional, pode  fazer com que o ministro em nome da cordialidade fica amordaçado. Desta forma, o ministério em muitos aspectos difere de outras profissões. Portanto, o ministério pastoral deve ser orientado pelas instruções bíblicas e não por aquilo que “profissionalmente” é mais aceitável.
O terceiro artigo, “A urgente necessidade de uma vida piedosa: o fundamento do ministério pastoral”, escrito por Joel R. Beeke, aborda a necessidade do ministro cultiva uma vida piedosa. Logo no início ele diz que um dos perigos enfrentados pelo ministro, é que ele lida com o sagrado com tanta freqüência que acaba por banaliza-lo. Desta forma, o autor apresenta várias orientações para buscar e cultivar uma vida piedosa, tais como: busca da bondade, familiaridade com Deus, e o uso de disciplinas espirituais tais como: leitura da Bíblia, oração, ler e ouvir sermões, celebração dos sacramentos, comunhão regular com os crentes e etc.
No quarto artigo, “Restaurando a exposição Bíblica ao seu devido lugar: o ethos e o pathos ministerial”, R. Kent Hughes, inicia falando sobre os pressupostos para a exposição bíblica, considerando o significado das expressões ethos e pathos. A primeira segundo o autor, tem haver com o caráter do pregador, com a condição de sua vida interior e com a obra do Espírito Santo dentro dele, especialmente quando isso se relaciona com o texto sobre o qual está pregando. Ele outras palavras, a exposição bíblica deve ser aplicada antes de tudo à vida do pregador. A segunda expressão, significa a paixão na maneira como se prega a Palavra. Segundo ele, a pregação da Escritura exige paixão que flui da convicção de que aquilo que você está pregando é a verdade. Desta forma, esses dois aspectos devem estar presentes na exposição bíblicos,  para que a verdadeira obra de reforma bíblica, ocorra na igreja.
O quinto artigo, tem como tema, “Mantendo o principal como principal: pregando Cristo como o foco de toda a reforma”. O autor, Thomas N Smith, demonstra a necessidade de Cristo ser o centro da pregação. Ele demonstra que a pregação de Cristo é coração de toda a experiência cristã autêntica e o clímax da história de Israel. Cristo é a história, portanto, ele deve ocupar uma posição principal.
No sexto artigo, “De fé em fé: o que faz com que a pregação seja tão vital para a reforma?”, Wilbur C. Ellsworth, demonstra a importância da pregação, considerando que nos dias atuais muitos não têm dado importância a ela. Para o autor a pregação é fundamental para a fé.  O autor demonstra que ela continua sendo a forma providenciada pelo Espírito para que a fé seja passada de geração em geração até que Cristo tenha edificado sua igreja e toda a criação cante a glória da presença de Deus que enche a terra.
O sétimo artigo, “Conduzindo a igreja ao culto teocêntrico: o papel pastoral”, Jerry Marcellino, aborda a importância do culto ser centralizado na Palavra e em Deus para obter credibilidade espiritual. Depois de demonstrar a relevância de um culto teocêntrico, apresenta ao final algumas orientações como: objetive um padrão mais elevado, objetive um princípio regulador, objetive um conteúdo lírico melhor, objetive estilos musicais mais centralizados em Deus e objetive cultos mais centralizados em Deus.
O oitavo artigo, “A cura de almas: o pastor servindo ao rebanho”, Jim Elliff, trata basicamente sobre o cuidado pastoral do rebanho. Ele no início demonstra que tal cuidado deve ser fruto do amor do pastor por seu rebanho, e que na atualidade o cuidado pastoral nas igrejas ortodoxas está em estado deplorável. Desta forma, propõe um retorno a tal prática, apresentando diversos elementos aos quais o pastor deve considerar em seu trabalho, tais como: intimidade com o rebanho, tutoria das pessoas, orientação, consolação, proteção, intercessão. Para ele todas as facetas do ministério pastoral direcionadas ao indivíduo, têm como objetivo conduzi-lo a Deus, maduro em Cristo.
No nono artigo, “Reformando a igreja por meio da oração: a contribuição pastoral”, o autor, Arturo Azurdia, demonstra a importância e necessidade da oração para a reforma da igreja. Para ele, há muitas vezes um jugo desigual da confissão teológica agostiniana com a prática ministerial pelagiana, e isto mostra a necessidade urgente de reforma do ministério pastoral. Ou seja, a volta a prática de um ministério que não só reconheça a soberania de Deus pela afirmação, mas que expresse tal convicção por meio de uma prática de vida condizente com isso. Sendo assim, demonstra que a oração  é indispensável para o progresso espiritual.
O décimo artigo, escrito por David W. Hegg, “Tudo em comum: o papel pastoral na edificação de uma comunhão verdadeira”. Como o próprio título demonstra, o autor demonstra a necessidade de se desenvolver na igreja, uma comunhão autêntica. O autor aponta para alguns obstáculos a existência dessa comunhão, tais como as tendências da atualidade, como consumismo, a independência (auto-suficiência), e a rede de contato. Para combater a deformidade da comunhão, o autor propõe diversas medidas que o pastor deve assumir, na tarefa de reformar a comunhão, tais como: aconselhamento bíblico, pregação da palavra, ministração apropriada da Santa Ceia e etc.
No décimo primeiro artigo, “O ministério pastoral e o lugar dos sacramento”, T. M. Moore, demonstra que os sacramentos em muitos lugares têm sido colocado em segundo plano na igreja. considerando que os sacramentos têm o objetivo de dar estabilidade e força para a igreja, equipando-a para a vida do reino e para a missão em todas as épocas e contexto, o pastor deve dar a devida importância aos sacramentos.  Moore diz que a importância dos sacramentos para a igreja, provém de dois fatos bíblicos: o mandamento de Cristo e a prática dos apóstolos. Moore apresenta a importância dos sacramentos para o ministério da igreja e a maneira de se redescobrir o poder ministerial dos sacramentos.
O décimo segundo artigo, “Como responder ao pecado na igreja?: Um apelo à restauração da terceira marca da igreja”, Joseph Flatt, Jr., fala sobre a aplicação da disciplina na igreja. Inicialmente ele apresenta alguns pressupostos básicos para a aplicação da disciplina tais como: Deus espera santidade de seu povo; a igreja que não é santa é uma contradição; Cristo comissionou a igreja para confrontar nosso pecado; Deus pressupõe quer seu povo será parte de uma igreja local e os cristãos são parte de uma família. Em seguida ele apresenta a mecânica da disciplina eclesiástica começando a falar sobre a aplicação de Mateus 18.15-17 e apresenta alguns procedimentos que se deve adotar na aplicação da disciplina. Finaliza com algumas orientações para conduzir a igreja à prática da disciplina. Para o autor, a renovação genuína da igreja está ligada, de alguma forma, à sua prontidão em confrontar o pecado.
No décimo terceiro artigo, “O sucesso pastoral no ministério evangelístico: o horizonte restituído”, Mark E. Dever, fala sobre a difícil área do ministério pastoral que é de encontrar sucesso no evangelismo. O autor irá se voltar para as instruções bíblicas, conforme as palavras do apóstolo Paulo a Timóteo e aplicar tais instruções à vida pastoral e demonstra que o sucesso está relacionado à fidelidade na pregação do evangelho de Cristo.
O último artigo, “O pastor e o crescimento da igreja: como lidar com o moderno problema do pragmatismo”, Phil A Newton, como diz propriamente o título do artigo, demonstra os perigos do pragmatismo na igreja, principalmente àquele relacionado ao movimento de crescimento de igrejas. O autor demonstra que o movimento de crescimento de igrejas trata-se de um assunto que deve ser rejeitado pelos evangélicos, pois, seus fundamentos e princípios não são bíblicos, mas frutos, de princípios pragmáticos voltados para satisfazer anseios humanos. O autor não só faz crítica ao movimento de crescimento de igreja, como apresenta a maneira e os meios adequados dados por Deus para o crescimento da igreja.
A leitura deste livro é importante, pois, os artigos apontam de forma geral para as dificuldades e perigos enfrentados pelos ministros do evangelho na atualidade e ao mesmo tempo aponta para a forma correta de se desenvolver o ministério, sem perder de vista o princípio da reforma, de que a igreja sempre precisa ser reformada. Na atualidade percebemos como que muitos ministérios têm se acomodado e se amoldado as modernas tendências, sem uma visão crítica do que está ocorrendo. Este livro nos propõe uma análise do que tem ocorrido, procurando apontar o caminho para a reforma da igreja.
Algo que senti falta em tal obra, e considerei um problema, foi a inexistência de uma conclusão, fazendo um fechamento do livro. Embora, os artigos tenham sido escritos por diversos autores, no entanto, considerando que havia uma conexão entre eles de propósito, o organizador poderia ter apresentado uma conclusão, o que sem dúvida ajudaria o leitor.