INTRODUÇÃO
João Calvino trata-se de uma figura muito importante na
história do cristianismo, e de maneira especial para o protestantismo de
vertente reformada.
Seu trabalho como
reformador de Genebra, seus escritos, seu pensamento, transformaram a história no
período da Reforma Protestante e exercem seus efeitos ainda hoje.
A
vida de João Calvino com toda a sua contribuição, tem sido tema de diversos
trabalhos acadêmicos e sua influência não pode ser medida.
Este
trabalho terá como objetivo, apresentar referências da vida de João Calvino, de
seus escritos e na parte final apresentar elementos importantes de sua
teologia.
Pretende-se
que a abordagem sobre João Calvino, apresentada neste trabalho, desperte o
interesse ainda maior do leitor, para estudar e conhecer ainda mais esse grande
personagem.
1 A Vida de João Calvino – Nascimento e preparação
João Calvino nasceu em Noyon, na Picardia em 10 de
julho de 1509, em uma família onde possivelmente ele fosse o segundo filho
dentre cinco irmãos (COSTA, 2006, P. 12). Era filho de Gérard Cauvin, “um
respeitado cidadão” (CAIRNS, 1992, p. 252), “ligado a nobreza e ao alto clero
da sua terra” (NICHOLS, 1992, p. 180) e de Jeanne Lefranc, que morreu quando Calvino
tinha 5 ou 6 anos (COSTA, 2006, p. 12).
“Como Gérard era secretário apostólico de Charles de Hangest – bispo de
Noyon, de 1501 a 1525 – e procurador fiscal do município, a sua família
mantinha íntimas relações com as famílias nobres da região” (COSTA, 2006, p.
12), desta forma, procurou dar a melhor educação para seus filhos. Por causa de
sua influência, isto garantiu a Calvino, em 1521 aos doze anos de idade, um
benefício concedido pelo bispo de Noyon, que lhe permitiu custear as despesas
de sua educação (GEORGE, 1994, p. 168).
Calvino recebeu a sua educação elementar, com os filhos da família
Hangest (COSTA, 2006, p. 13). “Além de professores particulares, Calvino
estudou na mesma escola dos filhos dos nobres de sua cidade, o Colégio de
Capeto” (COSTA, 2006, p. 13).
Em 1523, Calvino vai para Paris, preparar-se para o sacerdócio e inicia seus estudos na mais famosa
universidade da Europa, no Collège de la Marche (CAIRNS, 1992, p. 169), tendo
como mestre o grande humanista Maturinus Corderius (COSTA, 2006, p. 13). Alguns
meses depois, foi para o Collège de Montaigu - escola por onde passou Erasmo de
Roterdã – estudando sob a direção de um mestre espanhol, Antonio Coronel,
destacando-se no estudo da gramática (COSTA, 2006, p. 13).
Em 1528, Calvino conclui o curso de Artes e seu pai
o envia para a Universidade de Órleans, para estudar Direito, tornando-se
bacharel em Direito em 14 de fevereiro de 1531 (COSTA, 2006, p. 14).
Em 1531, com a morte de seu pai, Calvino volta a
Paris para dar seguimento a sua verdadeira paixão, a literatura clássica
(GEORGE, 1994, p. 171).
2 A Conversão de Calvino
Não
se sabe com certeza quando e como se deu a conversão de João Calvino, contudo,
estima-se que foi no período entre 1532 e 1534, e que tenha sido influenciado por
seu primo Pedro Roberto Olivétan (COSTA, 2006, p. 15).
Nichols
diz que “a mudança foi resultado das influências dos novos estudos e dos
ensinos de Lutero” (1992, p. 181). Em 1533, Calvino teve de fugir de Paris,
devido a um discurso que ajudou a preparar,
proferido por Nicolas Cop na Universidade de Paris, que propunha uma
reforma na Igreja (COSTA, 2006, p. 15). Nessa época evidenciava mudanças em sua
vida, em direção ao protestantismo.
Em 1534, quando completaria 25 anos,
idade legal para ser ordenado, Calvino voltou para Noyon e renunciou aos benefícios
eclesiásticos (COSTA, 2006, p. 15) “Como fica evidente, nesse ínterim, Calvino
havia sido convertido ao protestantismo” (COSTA, 2006, p. 15).
3 A Jornada de Calvino como Reformador
A fuga de Calvino de Paris, por causa
do discurso de Nicolas Cop, que ele ajudou preparar, revelou o seu espírito
reformador e seu envolvimento com o protestantismo. “Calvino deixou o país
apressado e encontrou refúgio na cidade reformada de Basiléia, o lar de Cop, que
já se encontrava lá” (GEORGE, 1994, p. 176).
Em 1535, o primo de Calvino, Olivétan
fez a primeira tradução protestante francesa das Escrituras (COSTA, 2006, p.
7). “A tradução, feita diretamente dos originais hebraicos e gregos, foi
utilizada pela primeira geração de calvinistas franceses na proclamação do
Evangelho” (COSTA, 2006, p. 17). O Novo Testamento foi editado em 1534 e em
1535, saiu a sua segunda edição com o Antigo Testamento (COSTA, 2006, p.). Esta
segunda edição foi revisada e prefaciada por Calvino.
Na cidade de Basiléia em 1536,
Calvino publica a primeira edição das Institutas (GEORGE, 1994, p. 176). Este
trabalho foi introduzido com uma carta ao Rei Francisco I, com o propósito de
convencer o rei a ter uma atitude mais moderada com os companheiros cristãos de
Calvino (GEORGE, 1994, p. 177). Contudo, o propósito básico das Institutas era
catequético (GEORGE, 1994, p. 178).
Em 1536, Calvino viajou de Paris para
Estrasburgo, “onde esperava estabelecer-se para seu antigo desejo de descanso e
estudo” (GEORGE, 1994, p. 179). Nessa viagem, pernoitou em Genebra. Em Genebra,
Guilherme Farel algum tempo antes, havia levado a cidade a abraçar a Reforma.
Farel ficou sabendo que Calvino estava em Genebra e foi ao seu encontro,
solicitar ajuda para concluir a reforma na cidade (CAIRNS, 1992, p. 253).
Calvino embora tenha relutado no início, aceitou a proposta de Farel. Porém, a
permanência de Calvino e Farel na cidade durou menos de dois anos, pois, em
abril 1538, por causa de um conflito relacionado à disciplina da Igreja, eles
foram expulsos da cidade (GEORGE, 1994, p. 180).
Entre 1538 e 1541, Calvino permaneceu
em Estrasburgo, pastoreando refugiados franceses, onde Tomás Bucer dirigiu a
Reforma e ensinou teologia (CAIRNS, 1992, p. 253). Nesse tempo, em 1539, lança
uma edição totalmente revisada das Institutas, que era três vezes mais longa
que a versão de 1536 (GEORGE, 1994, p. 181). Em 1541, publica-se a primeira
tradução francesa das Institutas (GEORGE, 1994, p. 181).
Em 1541, Calvino é convidado a voltar
a cidade de Genebra para continuar com a Reforma naquela cidade (NICHOLS, 1992,
p. 182). O propósito de Calvino de voltar a Genebra, era tornar a cidade “uma
república teocrática que seria o modelo na terra do reino de Deus no céu”
(OLSON, 2001, p. 419).
Conforme Nichols:
Os meios pelos quais se propusera tornar Genebra uma
comunidade cristã foram: uma igreja totalmente reorganizada; leis que
expressassem a moral bíblica; um sistema educacional de primeira ordem (1992,
p. 182).
Em 1541, em Genebra, Calvino
promulgou as Ordenanças Eclesiásticas
Que delineavam as atividades de quatro classes de
oficiais na igreja. Elas estabeleciam uma associação de pastores para dirigir a
disciplina, um grupo de mestres para ensinar a doutrina,um grupo de diáconos
para administrar a obra de caridade e, sobre eles, o consistório, composto de
seis ministros e doze anciãos, para supervisionar a teologia e a moral da
comunidade, com a faculdade de punir quando necessário, com a excomunhão os
membros renitentes. Para garantir a eficácia do sistema, Calvino estabeleceu
outras penalidades mais severas (CAIRNS, 1992, p. 254).
Os ideais de Calvino quanto à
educação, “inspirados por sua convicção de que a verdadeira religião e a
educação estão inseparavelmente associadas” (NICHOLS, 1992, p. 183), resultaram
na criação da Academia, em 5 de junho de 1559 (LOPES, 2003, p. 67). A Academia
era dividia em duas partes: Schola Privata (colégio com sete classes) e Schola
Publica (nível superior com ênfase nas artes e teologia) (LOPES, 2003, p. 67).
Calvino morreu em Genebra em 1564 e
Teodoro Beza, o reitor da Academia de Genebra, assumiu a liderança do trabalho
na cidade (CAIRNS, 1992, p. 254).
Como diz George: “Qualquer pessoa que
deseje fazer um estudo completo da teologia de Calvino tem de consultar ao
menos seis fontes distintas dentro de seu imenso corpus literário” (1994, p.
185).
Têm-se assim as seguintes fontes:
Calvino editou As Institutas,
inicialmente em 1536 e em 1559 ampliou a deu a forma final a esse trabalho. As
Institutas desde o seu primeiro lançamento, foi sendo ampliada por Calvino por
toda a sua vida. “Ao todo, ele produziu oito edições do texto latino (1536,
1539, 1543, 1545, 1550, 1553, 1554, 1559) e cinco traduções para o francês
(1541, 1545, 1551, 1560)” (GEORGE, 1994,
p. 185).
Leith falando sobre o valor desse
trabalho de Calvino, diz que trata-se da “mais influente declaração da teologia
reformada em particular e da teologia protestante em geral”, e “é também um
marco literário” (1997, p. 182).
As Institutas se dividem em quatro
partes, seguindo a divisão do Credo Apostólico: I. O Conhecimento de Deus, o
criador; II. O Conhecimento de Deus o Redentor; III. O Modo pelo qual Recebemos
a Graça de Cristo; IV. Os Meios Externos ou Auxílios pelos quais Deus nos Chama
para a Companhia de Cristo e nela nos mantém (LEITH, 1997, p. 183).
O propósito de Calvino com esta obra
era servir a Igreja de Cristo, oferecendo um livro que pudesse
preparar e instruir os que queiram aplicar-se ao estudo
da Teologia, que facilmente possam ler a Sagrada Escritura e aproveitar-se de
sua lição entendendo-a bem, e ir por um caminho direito sem apartar-se dele
(1999, p. 24).
João Calvino produziu vários
comentários das Escrituras. Seus comentários serviam de complemento as
Institutas (GEORGE, 1994, p. 186).
George diz o seguinte sobre os
comentários bíblicos de Calvino:
Recorrendo a seu excelente conhecimento de grego e
hebraico e a seu treinamento na filosofia humanista, Calvino produziu
comentários sobre todo o Novo Testamento, exceto 2 e 3 João e Apocalipse, sobre
o Pentateuco, Josué, Salmos e Isaías. Os comentários de Calvino e seus
sermões-conferências sobre o Antigo Testamento preencheram 45 volumes na
tradução inglesa do século XIX, publicada pela Sociedade de Tradução
Calvinista. Todo o trabalho exegético de Calvino é marcado por um lado pela
brevidade e, por outro, pela modéstia. Seu objetivo era penetrar na mente do
autor tão concisa e claramente possível, evitando demonstrações profusas de
erudição e digressões a assuntos secundários. Ele também não hesitava em dizer
que não entendia algumas passagens da Bíblia (1994, p. 187).
Como foi visto acima, os seus sermões
formam um grande volume de escritos. Ele tinha o hábito de pregar através dos
livros da Bíblia. “Seu método era pregar sobre o Novo Testamento aos domingos e
sobre o Antigo Testamento nos dias úteis” (GEORGE, 1994, p. 187). Seus sermões
eram anotados por diversos fiéis franceses refugiados e alguns deles foram
publicados durante a vida de Calvino (GEORGE, 1994, p. 187)
O Pensamento de Calvino pode ser
conhecido, além das Institutas, comentários e sermões, por meio de numerosos
folhetos e tratados.
Alguns desses escritos eram dirigidos contra
oponentes teológicos, como os reformadores radicais (Psychopannychia, 1534;
contra os Libertinos, 1545), os católicos romanos (Um Inventário de Relíquias,
1543; Antídoto para o Concílio de Trento, 1547) e os luteranos (Westphal,
Heshusius). Outros são abordagens mais gerais sobre temas reformados, como a
Necessidade da Reforma da Igreja (1544), Pequeno tratado sobre a Ceia do Senhor
(1541) e o Tratado sobre a Predestinação Eterna de Deus (1552) (GEORGE, 1994,
p. 188).
Calvino
escreveu inúmeras cartas, a seus colegas reformadores, a reis e príncipes, a
igrejas perseguidas, a protestantes presos, a pastores, a vendedores de livros
(GEORGE, 1994, p. 188). George diz que “o alcance internacional da teologia de
Calvino e a extensão de sua influência pessoal podem ser captados apenas
observando suas cartas” (1994, p. 188).
Consciente
de seu papel pastoral e que a maneira de recuperar a vida moral e religiosa do povo era
instruindo-o, Calvino produziu uma confissão de fé e um catecismo para
complementar a obra “A Forma das Orações” (1542) (GEORGE, 1994, p. 188).
Dado
ao grande conteúdo de escritos de Calvino, trata-se de uma tarefa árdua poder
apresentar de maneira completa, o seu pensamento teológico. Desta forma, nesta
parte do trabalho, serão apresentados alguns princípios gerais de seu
pensamento, que entende-se serem importantes.
Calvino
inicia o primeiro capítulo das Institutas, tratando sobre “O Conhecimento de
Deus e o Conhecimento de nós mesmos” (CALVINO, 1999, p. 3).
Calvino
diz:
Quase
toda a suma de nossa sabedoria, que, de fato se deve ter por verdadeira e
sólida sabedoria, consiste em dois pontos: a saber, do conhecimento que o homem
deve ter de Deus, e do conhecimento que deve ter de si mesmo (1999, p. 3).
Para
George, o fato de Calvino começar falando sobre o Conhecimento de Deus, em vez
de tratar primeiramente sobre a sua essência ou ser, “aponta para a
centralidade da revelação no pensamento” dele (1994, p. 189).
Para
Calvino esses dois conhecimentos estão entrelaçados, de tal forma que não se
sabe qual deles vem primeiro (1999, p. 3). Para Calvino um conduz ao outro, ou
seja, a convicção humana de sua miséria, provocada pela queda, leva o homem a
considerar a grandeza de Deus. Diz ele:
[...]
ninguém pode contemplar a si mesmo sem que no momento se sinta impulsionado a
consideração de Deus, em quem vive e se move; porque não há quem duvide que os
dons, em que toda nossa dignidade consiste, seja em maneira alguma nosso [...]
Assim mesmo, por nossa pobreza se mostra todavia melhor a imensidade de bens
que em Deus reside; e principalmente esta miserável queda, por causa da
transgressão do homem caímos, nos obriga a levantar os olhos para cima, não só
para que, em jejum e famintos, peçamos a ele o que nos falta, senão também para
que, despertados pelo temor, aprendamos humildade (1999, p. 3).
Tillich
falando sobre a importância da doutrina de Deus para Calvino, diz o seguinte:
O
centro de onde emanam todas as demais doutrinas de Calvino é a doutrina de Deus
[...]. Ensinou a correlação entre miséria humana e majestade divina. Somente a
partir da miséria humana podemos entender a majestade divina e, vice-versa,
apenas à luz da majestade divina é que entendemos a miséria humana (2004, p.
259).
Calvino
entretanto fala do conhecimento duplo de Deus, ou seja, do conhecimento que se
tem de Deus como Criador do universo, e do conhecimento de Deus como Redentor,
visto apenas na face de Cristo (GEORGE, 1994, p. 189).
Para
Calvino o homem possui dentro de si o conhecimento de Deus, implantado em seu
coração pelo próprio Deus:
Nós,
sem discussão alguma, afirmamos que os homens têm um certo sentimento da
divindade em si mesmos; e isto, por um instinto natural. Porque, a fim de que
nunca se desculpe por pretexto de ignorância, Deus mesmo imprimiu em todos um
certo conhecimento de sua divindade, cuja recordação é renovada, como o
destilar gota a gota, para que, todos, desde o menor ao maior, entendam que
existe Deus e que é seu Criador, com seu próprio testemunho sejam condenados
por não havê-lo honrado e por não haver consagrado nem dedicado sua vida a sua
obediência (1999, p. 7).
Calvino diz que a prova maior desse
conhecimento de Deus no homem, é demonstrada pelo fato de que mesmo entre os
selvagens, que não sabem nada sobre a humanidade, contudo, entre eles há tal
conhecimento (1999, p. 8). Desta forma, diz Calvino:
[...] desde o princípio do mundo não há região, nem
cidade, nem família, que tenha ficado sem religião, e nisto se vê que todo o
gênero humano confessa tacitamente que há um sentimento de Deus esculpido no
coração dos homens. Além do mais até mesmo a idolatria dá suficiente testemunho
acerca disso (1999, p. 8).
Para
Calvino este conhecimento inato ao homem, de forma alguma pode ser extraído de
seu coração, a despeito de afastar-se de Deus, mesmo a ponto de negar a própria
existência de Deus (GEORGE, 1994, p. 189).
Calvino
também entendia que Deus não só se revela ao homem por meio de uma percepção
inata colocada no coração humano, mas também por meio da criação, do universo.
Sobre
isto diz Calvino:
Deus
se revelou de tal maneira na estrutura do universo e se manifesta de tal forma
nele dia após dia, que os homens não podem abrir seus olhos sem vê-lO nas suas
obras. Sua essência é, na realidade incompreensível, e está oculta da percepção
dos homens; mas em cada uma das suas obras gravou marcas tão certas e evidentes
da sua glória que mesmo os mais simples e obtusos da raça humana não têm
nenhuma desculpa pela sua ignorância dEle (WILES, 1984, p. 30).
O
reformador entende que, embora a revelação de Deus por meio das coisas criadas,
possa revelá-lo ao homem de tal forma que não exista desculpa, contudo, se faz
necessário, a fim de chegar a um conhecimento verdadeiro do seu Criador, que o
homem seja orientado e guiado pelas Escrituras (1999, p. 26). “A Escritura nos
mostra o verdadeiro Deus” (CALVINO, 1999, p. 26). Por meio das Escrituras o
homem pode conhecer Deus como Criador e Redentor (CALVINO, 1999, p. 27).
Para
qualquer um que estude o pensamento de João Calvino, fica evidente, que para o
reformador, as Escrituras eram consideradas fidedignas e toda a sua teologia é
orientada e fundamenta nelas.
Para
Calvino a autoridade das Escrituras, não depende da sanção da Igreja e sim de
Deus, que fala por meio dela.
Diz
Calvino:
Visto
que Deus não fala diariamente do céu com uma voz audível, mas sim achou por bem
dar-nos nas Escrituras um registro permanente da Sua verdade, é necessário para
os crentes saber com certeza que as Escrituras nos vieram do céu. Ora, um erro
muito pernicioso tem sido divulgado: que as Sagradas Escrituras devem toda a
sua importância à sanção da Igreja; como se a eterna e inviolável verdade de
Deus dependesse do julgamento do homem [...] é, portanto uma ficção vazia
asseverar que a Igreja tem o poder de fazer-se juiz das Escrituras, como se a
sua exatidão dependesse da decisão dela (WILES, 1984, p. 38).
As
Escrituras sagradas são ratificadas pelo testemunho do Espírito Santo. Calvino
ensina que o uso de argumentos para provar aos homens que as Escrituras provém
de Deus, de nada serve, a não ser que
sejam convencidos pelo testemunho intrínseco do Espírito de Deus (WILES, 1984,
p. 39).
Calvino
diz:
Todavia,
mesmo, que alguém defendesse com sucesso a Palavra de Deus contra os ataques
dos contraditores, não estabeleceria com isso no coração deles aquela fé
inabalável que a piedade exige. Desde que os homens do mundo pensam que a
religião consiste somente de opiniões, querem receber provas pela força dos
argumentos que Moisés e os profetas falaram por inspiração divina. Respondo,
porém, que o testemunho do Espírito é superior a todos os argumentos. Deus na
Sua Palavra é a única testemunha adequada a respeito de Si mesmo, e, de maneira
semelhante, Sua Palavra não será verdadeiramente crida nos corações dos homens
até que tenha sido selada pelo testemunho do Seu Espírito. O mesmo Espírito que
falou através dos profetas deve entrar em nosso coração para convencer-nos que
eles entregaram fielmente a mensagem que Deus lhes deu (WILES, 1984, p. 39).
Desta
forma, para a compreensão das Escrituras, a mente humana carece da iluminação
do Espírito Santo.
Comentando
1 Coríntios 2.11, Calvino diz o seguinte:
Paulo,
aqui, pretende ensinar duas coisas: (1) que o ensino do evangelho só pode ser
entendido pelo testemunho do Espírito Santo; e (2) que a segurança daqueles que
possuem tal testemunho do Espírito Santo é tão forte e firme, como se o que
crêem pudesse ser tocado com suas mãos, e isto em razão do fato de que o
Espírito é uma testemunha fiel e confiável (1996, p.88).
Ainda,
quando comenta o verso 12 diz:
Para
que pudéssemos conhecer as coisas que foram dadas por Cristo. A palavra
conhecer foi usada a fim de externar melhor a garantia da confiança. Contudo,
notemos bem que a mesma não é obtida pelas vias naturais, nem é apreendida por
nosso poder mental de compreensão, senão que depende completamente da revelação
do Espírito (1996, p. 90).
Quando
Calvino diz que a compreensão das Escrituras não pode vir pelas vias naturais,
isto não quer dizer que, não haja necessidade de esforço humano para que tal
compreensão seja apreendida. Para o reformador era importante a exegese e o
estudo das Escrituras, para que ela pudesse ser exposta aos seus ouvintes com
fidelidade. Sobre isso, diz Costa sobre Calvino:
A sua mensagem se constitui num monumento de
exegese, clareza e fidelidade à Palavra, sabendo aplica-la com maestria aos
seus ouvintes. [...] demonstrando conhecer bem o hebraico, o grego, o latim, os
pais da Igreja (2006, p. 41).
Convicto
da validade e importância das
Escrituras, Calvino “usou de modo especial, o método de expor e aplicar quase
todos os livros das Escrituras à sua congregação” (COSTA, 2003, p. 32).
O
pensamento de João Calvino acerca da salvação, tornou-se o fundamento do
sistema conhecido como calvinismo, ou seja, “sistema de teologia e governo que
caracteriza as igrejas reformadas” (MATOS, 2000, p. 52). Os que adotam esse
sistema são chamados de calvinistas, ou seja, aqueles seguidores de Calvino que
“desenvolveram e elaboraram o seu pensamento, sempre a partir dos pressupostos
básicos estabelecidos por ele” (MATOS, 2000, p. 52).
No
que diz respeito a doutrina da salvação exposta por Calvino, os calvinistas
resumiram e desenvolveram o pensamento dele em cinco pontos, conhecidos por “Os
cinco pontos do Calvinismo”, e identificados pela palavra mnemônica “TULIP”. O
TULIP foi uma reação contra o pensamento dos Remonstrance que, era exposto por
meio de cinco pontos (LOPES, 2003, p. 55). Veja-se a seguir o pensamento
calvinista sobre a salvação:
O primeiro ponto do calvinismo, diz
respeito à depravação total do homem. O homem após a queda no Éden, teve todo o
seu ser afetado pelo pecado, de tal forma que ele não pode praticar qualquer
ato de justiça que agrade a Deus, visto estar morto espiritualmente.
Sobre
essa condição do homem, Calvino diz:
A
Escritura testifica, freqüentemente, que o homem é escravo do pecado. A Escritura
quer dizer, desse modo, que o espírito do homem é tão alienado da justiça de
Deus que este nada concebe, anseia e promove que não seja mal, perverso iníquo
e sujo. Por causa do coração, totalmente embebido com o veneno do pecado, o
homem nada pode gerar além dos frutos do pecado. Porém, não se deve inferir
disso, que o homem peca como se constrangido por uma necessidade violenta. O
homem peca com o consentimento de uma vontade pronta e disposta. Mas, porque o
homem, pela corrupção de suas afeições, continua odiando fortemente toda a
justiça de Deus e, por outro lado, é intenso em todos os tipos de mal, diz-se
que ele não tem o livre poder de escolher entre o bem e o mal – que é chamado
de livre arbítrio (2004, p. 18).
Deve-se
compreender a razão pela qual Calvino ensinou esta doutrina. “Não se trata de
um menosprezo pelo ser humano, antes, o objetivo central era despertar no homem
que sua salvação não podia partir de obras, mas da graça” (LOPES, 2000, p. 57).
A
eleição diz respeito à escolha que Deus fez antes da fundação do mundo,
daqueles a quem iria salvar de seus pecados. Por incondicional, quer dizer que
tal escolha, não foi feita por Deus com base em algum mérito humano, antes, sem
mérito algum escolheu aqueles a quem iria salvar, com base unicamente em sua
graça.
Falando
sobre eleição e predestinação, Calvino ressalta o que foi dito acima, que
aqueles a quem Deus escolheu para a salvação, foram escolhidos por
misericórdia, e que Deus de outra forma, poderia ter entregado todos a
perdição. Diz ele:
Que tenhamos resolvido em nosso interior somente que
a dispensação do Senhor, embora encoberta a nós, é, todavia, santa e justa. Se
ele desejasse arruinar toda a humanidade, ele teria o direito de assim fazer, e
naqueles a quem ele resgata da perdição, só se pode contemplar sua bondade
soberana. Reconhecemos, portanto, que os eleitos são recipientes da sua
misericórdia (como verdadeiramente são) e os rejeitados, da sua ira, uma ira,
no entanto, justa (2004, p. 39).
Comentando a carta de Paulo aos Efésios, capítulo 1,
Calvino ensina que a eleição e salvação de pecadores não se deram por mérito e
sim pela vontade de Deus:
Deus
nos predestinou nele mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para a
adoção, e nos fez aceitos por meio de sua graça. No verbo predestinar devemos
novamente atentar para a ordem. Nem mesmo existíamos, portanto não existia
nenhum mérito propriamente nosso. Conseqüentemente, a causa de nossa salvação
não procedeu de nós mesmos, e, sim, tão somente de Deus. Paulo, todavia, ainda
não satisfeito com essas afirmações, acrescenta: nele mesmo. [...] Com isso ele
está dizendo que Deus não buscou uma causa fora de si próprio, senão nos
predestinou porque ele assim o quis. [...] Portanto, ao adotar-nos, o Senhor
não levou em conta o que somos, e não nos reconciliou consigo mesmo com base em
alguma dignidade que porventura tivéssemos. Seu único motivo é o eterno
beneplácito por meio do qual ele nos predestinou (1998, p. 27).
Para
Calvino a razão em Deus escolher apenas alguns para a salvação, e enquanto
outros são deixados na perdição, não pode ser conhecida pela mente humana. Diz
ele:
Por
que o Senhor usa de misericórdia para com alguns e exercita o rigor de seu
julgamento para com outros? Devemos deixar a razão disso somente com ele
porque, certamente com uma intenção excelente, ele quis mantê-la encoberta a
todos nós. A crueza de nossa mente não pode, de fato, suportar tão grande
clareza; nem nossa pequenez pode compreender tão grande sabedoria. De fato, todo
aquele que tentar erguer-se a tal altura e não reprimir a temeridade de seu
espírito, deve experimentar a verdade do provérbio de Salomão (Pv 25.2) de que
aquele que investigar a majestade será oprimido pela glória (2004, p. 39).
Para Calvino então, Deus não está
obrigado a salvar ninguém, visto que, ele é soberano para fazer o que lhe
agrada. Quando salva, revela a sua bondade soberana e quando condena o faz por
causa de sua justiça. “A predestinação se constitui realmente num labirinto do
qual a mente humana é completamente incapaz de desembaraçar-se” (CALVINO, 1997,
p. 329).
“Esta doutrina refere-se ao alcance
ou objetivo da morte de Cristo” (LOPES, 2003, p. 59).
Segundo esta doutrina, Cristo não
morreu por toda a humanidade, mas, deu-se em favor dos eleitos somente. Sua
obra expiatória foi em favor de um número limitado de pessoas, ou seja, aquelas
escolhidas antes da fundação do mundo.
Esta doutrina baseada nos ensinos de
Calvino, está relacionada com a doutrina da eleição. Visto que, Deus escolhe
somente alguns para a salvação, logo, se depreende de tal ensino, que Cristo
deu a sua vida em favor somente daqueles a quem escolheu.
Em seus comentários, Calvino sempre
vincula as bênçãos da redenção, alcançadas por Cristo à doutrina da eleição. De
tal forma que podemos afirmar que para o reformador, Cristo não morreu por
todos , mas, somente pelos eleitos. Em seu comentário sobre a carta de Paulo
aos Romanos, fica clara esta ligação feita por ele:
Contudo, não há dúvida de que o apóstolo
expressamente afirmou aqui que a nossa salvação tem por base a eleição divina,
a fim de poder transitar daqui para o tema que adicionou imediatamente, ou
seja: que as aflições que nos identificam com Cristo nos foram destinadas pelo
mesmo decreto eterno (1997, p. 295).
Comentando
Efésios 5.25, Calvino afirma que Cristo morreu pela Igreja e a redimiu (1998,
p. 168). Assim, para Calvino a expiação oferecida em Cristo foi limitada à
Igreja, constituída dos eleitos.
Esta
doutrina diz respeito ao chamado eficaz de Deus. Aqueles a quem Deus escolheu,
e a favor de quem Cristo morreu, são chamados eficazmente pelo Espírito Santo,
de tal forma que não podem resistir a tal chamado. Por graça irresistível,
entende-se aquela obra que Deus faz no coração do pecador, mudando a sua
vontade, sem que ele possa decidir obedecer ou desobedecer.
Sobre
isso diz Calvino;
Deus move a vontade do homem na conversão, de modo
eficaz, não deixando à escolha do pecador se ele obedecerá ou desobedecerá.
Devemos rejeitar, portanto, uma declaração de Crisóstomo, freqüentemente
citada: “Aquele que é atraído por Deus é atraído voluntariamente”, pela qual
subentende que Deus espera com a mão estendida para ver se queremos aceitar sua
ajuda, ou não. O apóstolo não nos diz que a graça de uma vontade renovada nos é
oferecida na condição de a aceitarmos, mas que a própria vontade é gerada por
Deus em nós; ou seja, que o Senhor pelo seu Espírito dirige, molda, regula
nosso coração e reina nele como o seu próprio reino. [...] [Trata-se de um
erro] a saber, que depende do homem aceitar ou rejeitar a graça que Deus
oferece [...] (WILES, 1984, p. 125).
Desta
forma, a graça de Deus é oferecida ao pecador de tal forma, que não depende
dele aceitar ou não. Quando Deus a dá, o pecador não tem outra alternativa
senão abraça-la, pois, isto implica em dizer que sua vontade foi mudada a ponto
de não rejeitar o benefício que lhe foi dispensado.
Esta
doutrina trata-se do quinto ponto do calvinismo. Esta doutrina ensina que uma
vez que o pecador recebe a salvação, ele não poderá decair desse estado e
perder a salvação, antes, irá perseverar até o fim.
Sobre
a perseverança dos santos Calvino diz:
O
chamamento eficaz implica na perseverança final. [...] a experiência nos mostra
suficientemente que o chamado à fé serve muito pouco, se juntamente com ela não
há perseverança, a qual se nos dá a todos. Porém Cristo nos livra desta
angústia. Porque, sem dúvidas, estas promessas se referem ao futuro: “tudo o
que meu Pai me dá, virá a mim; e aquele que vem a mim, não o lançarei fora”. E:
“Esta é a vontade daquele que me tem enviado: que todo aquele que vê o filho, e
crer nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia”(Jo 6.37,
40). Igualmente: “Minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem. E eu lhes dou a vida
eterna, nem ninguém poderá arrebata-las da minha mão” (Jo 10.27-29) (1999, p.
768).
Calvino
entende que o crente perseverará até o fim, visto que, esta perseverança se dá
por causa da ação de Deus em seu favor, não permitindo que ele se perca. Diz
Calvino:
[...]
Jesus Cristo, quando ora pelos eleitos não há dúvida de que em sua oração pede
o mesmo que pediu por Pedro; a saber, que sua fé não falte (Lc 22.32). Pelo
qual concluímos que estão fora de perigo de apartar-se por completo de Deus,
visto que, ao Filho de Deus não lhe foi negada sua petição de que seus fiéis
perseverem constantemente (1999, p. 769).
Ainda
sobre a segurança que o crente tem de sua salvação final, Calvino comentando a
carta de Paulo aos Efésios, na passagem que fala sobre o selo do Espírito Santo
(1.13-14) diz o seguinte:
Essa
excelente comparação é extraída dos
selos, por meio dos quais a dúvida é afastada de entre os homens. Os selos imprimem
autenticidade tanto aos alvarás como aos testamentos. Além disso, o selo era
especialmente usado nas epístolas, para identificar o escritor. Em suma, um
selo distingue o que é genuíno e indubitável do que é inautêntico e
fraudulento. Tal ofício Paulo atribui ao Espírito Santo, não só aqui, mas
também no capítulo 4.30 e em 2 Coríntios 1.22. [...] A genuína convicção que os
crentes têm da Palavra de Deus, acerca de sua própria salvação e de toda a
religião, não emana das percepções da carne, ou de argumentos humanos e
filosóficos, e, sim, da selagem do Espírito, o que faz suas consciências mais
seguras e todas as dúvidas removidas (1998, p. 36)
Assim,
o crente seguro de sua salvação, e tendo, a dúvida afastada de sua mente,
perseverará até o fim.
Calvino
entende que a perseverança deve ser considerada um dom gratuito de Deus.
Realizando nos pecadores tanto o querer como o realizar, Deus não permite que a
vontade deles falhem, e assim, são capacitados a perseverar (WILES, 1984, p.
125).
Para
Calvino, Deus governa e sustenta todas as coisas criadas pelo seu poder,
mediante a sua providência (WILES, 1984, p. 86).
“Calvino
distinguia sua visão da providência de dois equívocos populares, o do
fatalismo, por um lado, e o do (que se tornou conhecido mais tarde) deísmo, por
outro” (GEORGE, 1994, p. 205).
Criticando
o deísmo diz Calvino;
Seria
simplesmente uma noção fria e vazia pensar que Deus criou os mundos em certa
época e depois abandonou a obra de suas mãos. Realmente, este é um dos
pontos principais de diferença entre nós
e os ímpios, o de reconhecermos a mão de Deus no curso contínuo da natureza
tanto quanto a reconhecemos na sua origem (WILES, 1984, p. 86)
Nota-se
que a doutrina da providência de Deus para Calvino, está inseparavelmente
ligada a da criação. O Deus que criou todas as coisas continua a atuar sobre as
coisas criadas, sustentado-as e governando-as. Sobre isso diz ele:
A
fé deve penetrar mais profundamente; tendo aprendido que Deus é o Criador de
todas as coisas, deve concluir que Ele é o Governador e preservador constante
delas, e que sua providência especial sustenta, guarda e cuida de cada uma de
suas criaturas, até ao menor dos pardais. [...] Na realidade, ninguém acredita
seriamente que Deus criou todas as coisas, a não ser que acredite também que
Deus continuamente se importa com todas as coisas que criou (WILES, 1984, p.
86).
O
reformador afirma que pela sua providência Deus governa todas as coisas de tal
forma, que não há lugar para acaso, fortuna ou sorte. Diz ele:
Para
compreender mais claramente a distinção entre os raciocínios da filosofia e as
conclusões da fé, devemos lembrar que a providência de Deus, conforme é
ensinada nas Escrituras, está inteiramente oposta à noção de fortuna ou sorte.
Em eras passadas e em nossos próprios dias, tem sido, e é, a opinião geral da
humanidade que todas as coisas acontecem pelo acaso; e é certo que esta noção
falsa obscurece, ou mais, até sufoca todos os pensamentos corretos acerca da
providência divina. Se laguem cai vitimado por assaltantes ou feras, se sofre
naufrágio no mar por causa de um repentino vendaval [...] todos esses eventos,
sejam propícios ou adversos, são atribuídos pela razão carnal à sorte. Mas
aquele que aprendeu de Cristo que os cabelos da sua cabeça são contados,
procurará uma causa mais profunda e
concluirá que os eventos de todos os tipos são governados pelo conselho de Deus
(WILES, 1984 p. 87).
Calvino
em sua exposição acerca dessa doutrina, procura demonstrar que para o crente
crer nela, se torna fonte de conforto e segurança diante das diversas
circunstâncias, favoráveis ou não. Assim ele diz:
O
conhecimento de tais verdades como estas no torna gratos na prosperidade,
pacientes na adversidade e maravilhosamente confiantes da nossa segurança. Em
chegando a prosperidade, atribuímo-la à bondade Deus, quer chegando a nós
através da agência dos homens, quer através de outros canais. [...] quando a
adversidade nos sobrevém, erguemos nossos pensamentos a Deus, e o saber que sua
mão a enviou, torna-a mais eficaz para produzir a paciência, a submissão e a
tranqüilidade da mente (WILES, 1984, p. 97).
Embora
todas as coisas sejam governadas por Deus através de sua providência, sendo ele
a causa primária, Calvino salienta que,
deve-se considerar as causas secundárias. Isto implica em que os agentes
secundários, são responsabilizados por suas ações. Diz ele:
Se
sofrer perda mediante sua própria negligência ou descuido, culpará a si mesmo,
embora reconheça nisto a mão de Deus. Se alguém que foi entregue aos seus
cuidados morrer devido doença, por causa de sua negligência, considerar-se-á
culpado, embora saiba que a duração da vida é fixada pela determinação de Deus.
Não fará abuso da doutrina da providência de Deus para apresentar desculpas por
nenhum pecado (WILES, 1984, p. 98).
O reformador em sua doutrina da
providência, compreende que Deus para realizar seus propósitos usa até mesmo a
ação de Satanás e de homens maus. Isto não significa, que Deus seja cúmplice
das ações pecaminosas dos homens ou de Satanás. Comentando sobre o “espinho da
carne” do apóstolo Paulo, “Calvino perguntava como Satanás, que era um
assassino desde o princípio, pôde tornar-se assim um tipo de médico para o
apóstolo, visto que por meio da enfermidade Paulo obteve muito mais força
espiritual” (GEORGE, 1994, p.206). Responde ele:
Minha resposta é que a única intenção de Satanás, em
consonância com o seu caráter e costume, é matar e destruir, e a aguilhada de
que Paulo fala estava imersa em veneno letal, de modo que era um ato especial
da misericórdia que o Senhor convertesse em veículo de cura o que era por
natureza um veículo de morte (1995, p. 246).
Desta
forma, Calvino procura demonstrar que Deus embora faça uso de ações más, os
seus agentes serão responsabilizados por desobedecerem aos mandamentos de Deus.
Daí, faz ele distinção entre vontade de Deus (que pode ser chamada de
decretiva), e mandamentos (vontade preceptiva). O fato de os homens servirem à
vontade de Deus cumprindo os seus decretos, não os tornam indesculpáveis, quando
para isso, desobedecem aos mandamentos de Deus (WILES, 1984, p. 104).
Percebe-se
na doutrina da providência de Deus ensinada por Calvino, um esforço por parte
do reformador em explicar à luz das Escrituras, todos os acontecimentos da vida
terrena.
Nota-se
também, que em seu pensamento teológico, permeia uma lógica, de tal forma que
todos os temas desenvolvidos por ele, estão de tal forma entrelaçados, e
demonstram uma inter-relação e dependência.
Nota-se
a importância de Calvino ao se constatar que ele foi responsável, pelo
surgimento de um sistema que alcança todos os aspectos da vida humana.
Calvino
soube como aplicar as Escrituras às diversas facetas da vida humana, a ponto de
estabelecer a reforma protestante em Genebra,
não só como um sistema religioso, mas, também como um sistema social e
político. É claro que a reforma proposta por Calvino, não esteve restrita a
Genebra, mas, ecoou para outros lugares e isto aconteceu por meio de seu
pensamento, que foi transmitido por meio de seus livros, cartas e comentários.
O
sistema que surgiu a partir de Calvino, o calvinismo, transformou muitas partes
do mundo, visto que seu idealizador, procurou aplicar a teologia a todas as
áreas da vida, sendo até mesmo considerado como “o pai de uma civilização”.
Neste
trabalho pode-se conhecer um pouco sobre a vida do reformador, bem como parte
de seu pensamento teológico. Mas como é sabido, o pensamento de Calvino vai
além de suas formulações teológicas doutrinárias. Poderia se falar sobre outros aspectos de seu
pensamento, como no que se refere ao aspecto da educação, da política e da
sociedade.
Os
escritos de João Calvino, possuem um campo muito vasto para ser explorado e
conhecido, sendo para sempre objeto de estudo e reflexão.
CAIRNS, Earle E..O Cristianismo
Através dos Séculos. São Paulo: Edições Vida Nova, 1992.
CALVINO, João. 1 Coríntios.
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______________. Instrução na Fé.
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Hermisten. Calvino de
A a Z. São Paulo:
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________________. Curso
Introdutório de Homilética. Maringá: Pensador Cristão, 2003.
GEORGE, Timothy. Teologia dos
Reformadores. São Paulo: Edições Vida Nova, 1994.
LEITH,
John. A Tradição
Reformada. São
Paulo: Pendão Real, 1997.
LOPES, Edson. O Conceito de
Teologia e Pedagogia na Didática Magna de Comenius. São Paulo: Ed.
Mackenzie, 2003.
MATOS, A. S. Simonton, 140 anos de
Brasil. São Paulo: Ed. Mackenzie, 200. (Série Colóquios, v. 3).
NICHOLS,
Robert Hastings. História
da Igreja Cristã. 9
ed. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992.
OLSON, Roger. História da Teologia
Cristã. São Paulo: Editora Vida, 2001.
TILLICH, Paul. História do
Pensamento Cristão. 2 ed. São Paulo: ASTE, 2004.
WILES, J. P. As Institutas da
Religião Cristã – Um Resumo. São Paulo: PES, 1984.