quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O pensamento reformado e a questão do indivíduo – Lutero e Calvino

 





A reforma protestante significou um rompimento com o Catolicismo. No contexto católico romano, a atitude valorizada estava ligada à vida religiosa clerical, enquanto a laica era considerada de menor valor.
No entanto, mudanças começavam a surgir e no século XVI elas ganhariam força e provocariam um enfraquecimento definitivo no domínio exercido pela Igreja Católica. O Renascimento e o Humanismo foram movimentos que contribuíram para isso. Por meio de tais movimentos, surgiram homens que valorizaram o livre pensamento e a ação autônoma do indivíduo, em relação à Igreja Católica. Calvino foi um desses humanistas[1].
Sobre o Humanismo, como uma das causas da Reforma, diz André Biéler:
                   Tem-se na eclosão do humanismo uma das causas da Reforma. Certamente que esta renovação                    intelectual, como outros muitos fatores históricos, contribuiu amplamente para facilitar a                                expressão e a formulação da doutrina dos Reformadores.[2]

Martinho Lutero e João Calvino foram alguns desses homens que surgiram na época e que mudaram o rumo do Cristianismo. Influenciados por seus mestres, ambos, cada um em sua época, o primeiro na Alemanha e o segundo na França[3], romperam com a Igreja que abominou o que propunham. É importante ressaltar que os jesuítas, na mesma época, influenciados pelo humanismo renascentista, se expressaram de forma diferente em relação à Igreja Católica, porém, assim como os reformadores, deram atenção a leitura bíblica e escreveram diversos comentários ao texto bíblico[4]
Martinho Lutero era monge agostiniano. Enfrentava uma crise existencial e em contato com o estudo das Escrituras Sagradas (Bíblia) compreendeu que a religiosidade ensinada pela Igreja Católica – fundamentada na devoção aos santos mediada por imagens e relíquias consideradas sagradas – contrariava o ensino bíblico. Além de condenar as penitências[5], Lutero propôs com seus ensinos que cada cristão devesse ler as Escrituras[6]. Daí uma de suas primeiras iniciativas foi traduzir para a língua alemã os livros da Bíblia. Para Lutero, todo crente era sacerdote de Deus e, portanto, não precisava da mediação dos sacerdotes católicos para se achegar a Deus. “Lutero rompeu decisivamente com a divisão tradicional da igreja em duas classes, clero e laicato”.[7] Essa atitude contribuiu para a mudança quanto à concepção de indivíduo. Para Lutero, todos têm condições, pela mediação de Cristo, de se achegar a Deus, bem como responsabilidades de agir como sacerdotes. “O sacerdócio de todos os cristãos é tanto uma responsabilidade quanto um privilégio, um serviço tanto quanto uma posição”[8].
Lutero diz:
O fato de que somos todos sacerdotes e reis significa que cada um de nós, cristãos, pode ir perante Deus e interceder pelo outro. Se eu notar que você não tem fé ou tem uma fé fraca, posso pedir a Deus que lhe dê uma fé sólida.[9]

A valorização do indivíduo irá contribuir para a valorização da vida laica e de todos os desdobramentos resultantes disto. A doutrina da justificação pela fé, redescoberta por Lutero, com o contato que teve com as Escrituras, fez com que ele mudasse seu pensamento sobre a mediação exercida pela Igreja entre Deus e os homens. Em especial nos estudos que fez de um dos livros da Bíblia – a Carta do Apóstolo Paulo aos Romanos –, entendeu que sua salvação se daria pela fé somente, e que todo o sistema de mediações criado pela Igreja Católica não produzia, em seu íntimo, a paz que almejava. Tendo pela leitura do texto de Romanos – especificamente o capítulo 1, versículo 17 – encontrado a paz que almejava, começou a propagar o ensino da justificação pela fé somente.
Acerca do efeito que teve sobre ele a compreensão da leitura do referido texto, diz:
[...] comecei a entender que a “justiça de Deus” significa aquela justiça pela qual o homem justo vive mediante o dom de Deus, isto é, pela fé. É isso o que significa: a justiça de Deus é revelada pelo evangelho, uma justiça passiva com a qual o Deus misericordioso nos justifica pela fé, como está escrito: “Aquele que pela fé é justo, viverá”. Aqui, senti que estava nascendo completamente de novo e havia entrado no próprio paraíso através de portões abertos.[10]

Sobre a importância e consequência da doutrina da justificação pela fé em Lutero, Quentin Skinner comenta:
Finalmente, é o solifideísmo de Lutero – sua doutrina da justificação “pela fé somente” – que está na base dos dois traços centrais de seu conceito herético de Igreja. Primeiro, ele desqualifica a importância da Igreja enquanto instituição visível. Se alcançar a fidúcia constitui o único meio pelo qual o cristão pode esperar a salvação, não resta lugar para a idéia canônica da Igreja como autoridade interposta, medianeira entre o indivíduo fiel e Deus [...]. A verdadeira Igreja não passará de uma invisível congregação fidelium, de uma congregação dos fiéis unidos em nome de Deus. [...] A segunda característica distintiva em seu conceito de Igreja é que, ao enfatizar a idéia da ecclesia como nada mais que uma congregatio fidelium, Lutero também reduz ao mínimo o caráter separado e sacramental do sacerdócio. É disso que resulta a doutrina do “sacerdócio de todos os fiéis” [...]. O reformador aqui argumenta que, se a Igreja é apenas Gottes Volk, só pode haver “engodo e hipocrisia” na pretensão de que “papa, bispo, padres e monges sejam chamados estado espiritual, enquanto aos príncipes, senhores, artesões e lavradores se chama estado temporal”.[11]

Lutero desejava abolir a dicotomia que existia, conforme o ensino católico, e insistia no fato de que não há dois tipos de cristãos, um pertencendo ao estado espiritual e outro ao estado temporal. Todos pertencem ao estado espiritual, não como resultado da posição ou papel que ocupam na sociedade, mas em virtude da capacitação da fé, tornando todos igualmente capazes de serem espirituais e de constituir um povo cristão. Para Lutero, “todos os crentes, e não somente a classe sacerdotal, têm igual dever e condição de socorrer seus irmãos e de assumir a responsabilidade por seu bem-estar espiritual”. Além disso, ele se empenha em demonstrar que todo crente fiel pode se relacionar com Deus sem a mediação de qualquer intermediário. “O resultado é que em todo a sua eclesiologia, bem como no conjunto de sua teologia, constantemente nos vemos reconduzidos à figura – central – do indivíduo cristão, com sua fé na graça redentora de Deus”[12].
Lutero, em sua doutrina, valorizava justificação pela fé, bem como a Bíblia na língua do povo, e esses dois ensinos e ênfases contribuíram para o êxito da Reforma [13].
Calvino, pertencendo a uma segunda geração de reformadores, irá desenvolver ainda mais a concepção acerca do indivíduo, valorizando a sua participação ativa no mundo de Deus. Para Calvino, também, todos os crentes são sacerdotes de Deus, por isso não precisam da mediação da igreja para obter o perdão divino e, por outro lado, tudo quanto realizam no mundo, seja qual for a atividade, devem realizá-la para a glória de Deus.
Calvino diz sobre o alvo da vida do cristão:
[...] é dever dos crentes oferecerem seu corpo “por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”, que constitui o culto legítimo que lhe devemos prestar. Desse princípio decorre a exortação a que eles não se acomodem à imagem deste século, mas que sejam transformados pela renovação da sua mente, para buscar e experimentar a vontade de Deus. Temos aí um importante motivo para dizer que somos pessoas consagradas e dedicadas a Deus para que não pensemos, nem meditemos, nem façamos coisa alguma que não seja para a sua glória. Porque não é lícito aplicar algo sagrado a uso profano. Ora, se nós não nos pertencemos, mas somos do Senhor, vê-se claramente o que devemos evitar para não errarmos, e para onde devemos canalizar todas as ações que pratiquemos em nosso viver.[14]

Percebe-se nas palavras de Calvino que, diferente do pensamento Católico Romano, que concebe a vida no cotidiano como âmbito profano, para o reformador, a vida do crente e todas as suas ações são do âmbito sagrado, pois pertencem a Deus.
Assim como Lutero e outros reformadores, as concepções de Calvino são conduzidas pela interpretação das Escrituras. Calvino, além de escrever o seu tratado sobre a Religião, conhecido como As Institutas da Religião Cristã, comentou vários livros da Bíblia, obras nas quais expressou seu pensamento.
Pode-se dizer que tanto Lutero quanto Calvino defendem uma ascese intramundana. Isso irá repercutir de forma a produzir transformações em todos os âmbitos, servindo de fermento para a chamada modernidade. A concepção de Calvino, de que toda a atividade praticada pelo fiel deve glorificar a Deus, contribuiu para uma valorização do trabalho e consequentemente para o desenvolvimento econômico e tecnológico das cidades que abraçaram sua concepção teológica. Não é à toa que estudiosos estabelecem uma relação entre o Capitalismo Moderno e o Calvinismo.
Sobre essa relação, diz MacGrath:
Tão grande é a relevância do surgimento do Capitalismo moderno para a formação da civilização ocidental que, se um vínculo com João Calvino puder ser estabelecido, pode-se creditar ao Reformador – de forma positiva ou negativa – a motivação de um impulso fundamental do mundo moderno.[15]

                 João Calvino, em seus escritos teológicos, procurará demonstrar a necessidade de o crente engajar-se nas questões sociais. “Por todos os seus escritos, encontramos uma determinação de se engajar na objetiva existência social dos seres humanos, juntamente com os problemas e as possibilidades que daí derivem”[16]. “O Calvinismo, em suma, significava não apenas nova doutrina teológica e governo eclesiástico, mas nova escala de valores morais e novo ideal de conduta social”[17].
A concepção alcançada por Calvino, de que o fiel deve engajar-se nas atividades seculares para glorificar a Deus, produziu uma valorização do trabalho. Para Calvino “o fiel não é chamado [por Deus para a salvação] a deixar o mundo e a ingressar em um monastério, mas a ingressar plenamente na vida do mundo e, assim, transformá-lo”[18]. Isso certamente contribuiu para o desenvolvimento do conceito sobre o indivíduo. A atividade do fiel, fosse qual fosse, era importante e necessária.
                 Calvino diz: “Se seguirmos fielmente nosso chamamento divino, receberemos o consolo de saber que não há trabalho insignificante ou nojento que não seja verdadeiramente respeitado e importante ante aos olhos de Deus”[19]. E, comentando o texto bíblico da Epístola de Paulo aos Efésios, em que o apóstolo orienta os servos (escravos) a servirem seus senhores como se servissem a Cristo, sabendo que serão recompensados quer fossem escravos ou livres, o reformador diz:
Que poderosa consolação! Se porventura tiverem que conviver com senhores mal-agradecidos ou cruéis, Deus aceitará seus serviços prestados a homens indignos como prestados a ele próprio. Quando os servos ponderam sobre o orgulho e arrogância de seus senhores, amiúde concluem que seu labor é de nenhum proveito, e a tendência é tornarem-se indolentes. Paulo, porém, lhes diz que sua recompensa está guardada com Deus pelos serviços que parecerem ser mal remunerados pelos homens embrutecidos; e que, portanto, não há razão alguma para que deixem de seguir seu curso predeterminado. Adiciona que nenhuma distinção deve ser posta entre um homem escravo e um homem livre. O mundo está habituado a pôr menos valor nos labores dos escravos. Ele afirma que com Deus não se dá o mesmo, senão que, para ele, são tão preciosos como os deveres dos reis. Porque a posição externa é desprezada e cada um é julgado segundo a integridade de seu coração.[20]

                        E contextualizando a mensagem da referida epístola, diz:
Este ensino, porém, se aplica também a empregados e empregadas de nossa própria época. É Deus quem determina e regula a sociedade. Visto que a condição dos empregados [de hoje] é muito mais tolerável, eles devem considerar-se muito menos escusáveis caso não se esforcem, de diversas maneiras, a comportar-se como Paulo diz.[21]

                  Essa valorização do trabalho e consequentemente do indivíduo, motivando-o a um engajamento responsável no mundo, praticando suas atividades de maneira apropriada, desencadeou o desenvolvimento industrial e financeiro de diversos países da Europa que se tornaram protestantes.
Para Calvino, o envolvimento ativo e responsável no mundo, na verdade, era uma forma de o fiel confirmar a sua vocação divina, ou seja, confirmar que, de fato, havia sido escolhido para a salvação. Desta forma, no processo da “santificação do fiel”[22], rumo a sua salvação, sua participação apropriada no mundo serviria de prova de sua vocação. “É pelo ativismo no mundo que o fiel pode garantir à sua consciência conturbada de que ele ou ela está entre os eleitos”[23].
A primitiva propensão calvinista em relação ao ativismo moral, econômica e política pode, assim, ser vista como algo que repousa sobre importantes fundamentos teológicos. Por intermédio de um envolvimento ativo nas questões seculares, sob a orientação das Escrituras, o cristão poderia firmar sua vocação e alcançar a paz de espírito (sempre um artigo precioso e obscuro, em meio aos círculos puritanos) a respeito de sua eleição. A noção de “vocação” (vocatio) deve ser interpretada nessa perspectiva: a ordem para a realizar boas obras não está ligada, necessariamente, a uma vocação secular em especial (por exemplo, ser um açougueiro, um padeiro ou um artesão que produz castiçais), mas a necessidade de demonstrar a vocação divina de uma pessoa a si mesmo a ao mundo à sua volta.[24]

Como se procurou demonstrar, a Reforma Protestante produziu uma concepção diferente acerca do indivíduo e de sua participação no mundo, contribuindo para transformações na sociedade que a abraçou.


Nota: Este artigo é parte integrante da dissertação que defendi no mestrado em Ciência da Religião, na Universidade Federal de Juiz de Fora com o título: A Implantação do Presbiterianismo em Juiz de Fora: Sua Implantação Tardia em 1950.



[1] Paul TILLICH. História do Pensamento Cristão. São Paulo: ASTE, 2004, p. 269.
[2] André BIÉLER. O Pensamento Econômico e Social de Calvino. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 44
[3] Embora Calvino fosse francês e tenha iniciado sua caminhada como reformador na França, pelo fato de ter que fugir de seu país por causa da perseguição da Igreja Católica, tornou-se reformador em Genebra, na Suíça. Mas, de Genebra, exerceu grande influência sobre os reformados na França, enviando escritos e outras contribuições.
[4] John O’MALLEY. Os Primeiros Jesuítas. São Leopoldo: UNISINOS; Bauru: EDUSC, 2004, p. 403.
[5] Em suas 95 Teses, que foram afixadas na porta da Capela de Wittenberg, isso fica claro. Lutero condena o abuso da Igreja em vender aos fieis indulgências que, segundo a Igreja Católica, davam direito ao perdão divino, livrando o penitente do purgatório.
[6] Isso não foi algo proposto a partir de Lutero. Antes de Lutero, os chamados pré-reformadores propuseram o mesmo e procuraram disseminar entre o povo os ensinos bíblicos. Sobre a mudança da religiosidade, influenciada pela leitura bíblica, e os seus efeitos sobre a construção de uma fé livre dos laços do clero, Biéler comenta: “Desde o século XII, com São Bernardo, a piedade popular se nutre da contemplação dos sofrimentos de Cristo, do Cristo humano, humilhado pelos grandes e carregado da penalidade dos homens, na comunhão do qual ela penetra pela identidade de suas próprias misérias. Pouco a pouco, a vida humana de Jesus leva vantagem sobre Sua natureza divina e se cerca de um mundo maravilhoso de mártires de santos, que cria uma religião bastante próxima do fiel, muito familiar, todavia, sempre mais complicada e recheada de devoções supersticiosas. Por seu caráter pessoal, todavia, esta piedade contribui para mais e mais dispensar o fiel da mediação do sacerdote e a distanciá-lo da Igreja, cujas pompas e preocupações políticas o afastam cada dia ainda mais. A porta está aberta, entre o povo, a uma renovação da fé que livre a piedade de muitos obstáculos atravancadores e que, pelo uso pessoal das Santas Escrituras, redescubra direto contacto com o Deus do Evangelho, Que salva graciosamente pela só mediação de seu Filho Jesus Cristo. A necessidade de ler a Escritura, e de lê-la individual e pessoalmente, cresce, de fato, cada dia na Cristandade, nos tempos que se avizinham do século XVI, e verifica-se que é esta necessidade particularmente atendida, mercê da abençoada difusão dos textos sagrados que a recente invenção da imprensa e o crescente surto das trocas econômicas nos mercados da Europa favorecem. De 1457 a 1517 são publicadas mais de quatrocentas edições da Bíblia” (BIÉLER, p. 43).
[7] Apud, Timothy GEORGE. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Edições Vida, 1994, p. 96.
[8] Apud, Idem, p. 96.
[9] Ibidem, p. 96.
[10] Apud,  Ibidem, p. 64.
[11] Quentin SKINNER. As Fundações do Pensamento Político Moderno. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 292.
[12] Idem, p. 293.
[13] “A Reforma [...] há duas coisas que asseguraram o seu êxito, duas coisas que ofereceu àqueles que as desejavam ansiosamente: uma, a Bíblia na língua do povo, a outra, a justificação pela fé” (Lucien Febvre, Apud, BIÉLER, Op. Cit, p. 43).
[14] João CALVINO. As Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006, Vol. 4, p. 183.
[15] Alister MACGRATH. A Vida de João Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 255.
[16] Ibidem, p. 250.
[17] R. H TAWNEY. A Religião e o Surgimento do Capitalismo. São Paulo: Editora Perspectiva, 1971, p. 115.
[18] MACGRATH, A vida de João Calvino, 2004, p. 263.
[19] Apud, COSTA, Hermisten. Pensadores Cristãos: Calvino de A a Z. São Paulo: Editora Vida, 2006, p. 284.
[20] João CALVINO. Efésios. São Paulo: Edições Paracletos, 1998, p. 183.
[21] Idem, p. 183.
[22] Na teologia reformada e calvinista, a santificação é um dos elementos do processo da salvação. Por toda a sua vida o crente é aperfeiçoado, mediante a santificação, em que abandona dia a dia seu pecado.
[23] MCGRATH, A Vida de João Calvino, p. 271.
[24] Idem, p. 273.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

12 de Agosto – Dia da Igreja Presbiteriana do Brasil Trajetória Histórica do Presbiterianismo, desde a sua origem até chegar no Brasil.

                   O presbiterianismo tem o seu início histórico fundamentado nos princípios estabelecidos na Reforma Protestante do século XVI, e por isso tem com este movimento estreita relação. A Reforma foi um movimento, que inicialmente tentou reformar a Igreja Católica Apostólica Romana, mas, não tendo êxito, deu início a uma outra vertente doutrinária dentro do cristianismo. Foi um movimento que surgiu no século XVI e teve seu impulso a partir de seu líder Martinho Lutero, na Alemanha. O que é conhecido como luteranismo teve início com ele.
A Reforma Protestante se expandiu por outros países. Na Suíça surgi um segundo movimento, liderado por Ulrico Zuínglio, em parte semelhante ao luteranismo, mas com características bastante distintas. Após a sua morte, algum tempo depois, surgi outra figura importante no cenário da Reforma que foi o francês João Calvino. Embora fosse francês e tenha lutado para que seu país aderisse a Reforma, Calvino desenvolveu sua reforma na cidade de Genebra na Suíça. O termo “reformado” está intimamente relacionado ao trabalho tanto de Zuínglio como de Calvino. A obra teológica de Calvino influenciou grandemente o movimento reformado. Seu nome permanece associado ao sistema de governo e teologia das igrejas conhecidas como Igrejas Reformadas. O presbiterianismo em seu sistema de governo e teologia pode ser chamado de reformado e calvinista, pois, seu início foi motivado por essas concepções teológicas.
O presbiterianismo surgiu nas Ilhas Britânicas, mais especificamente na Escócia e Inglaterra. Foi fruto das disputas entre aqueles que queriam uma igreja mais independente da interferência e controle do estado – governada por presbíteros docentes e regentes eleitos pelos crentes e reunidos em concílios – contra a posição dos reis ingleses que queriam uma igreja de governo episcopal – governada por bispos nomeados pela coroa, conseqüentemente controlada pelo estado. O presbiterianismo só vigorou na Inglaterra por poucos anos, durante a década de 1640, quando elaborou por meio da Assembleia de Westminster – convocada  pelo Parlamento – importantes documentos doutrinários adotados por grande parte das igrejas reformadas ( As igrejas presbiterianas de modo geral, inclusive a Igreja Presbiteriana do Brasil adotaram esses documentos como seus símbolos de fé. São três esses documentos: A Confissão de Fé de Westminster, Catecismo Maior e Breve Catecismo). O sistema presbiteriano só conseguiu se estabelecer de forma permanente na Escócia. Da Escócia, o presbiterianismo se expandiu com a colonização para a Irlanda e no século dezessete para a América do Norte. Por meio dos colonizadores escoceses-irlandeses formou-se a Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos e por meio dessa igreja, o presbiterianismo chegou a outros países, como se deu no Brasil, por meio do missionário Ashbel Green Simonton.
Simonton desembarcou no Brasil, no porto do Rio de Janeiro, no dia 12 de agosto de 1859, enviado pela Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, pela Junta de Nova York. A partir dos esforços desse missionário e de outros, instalou-se a Igreja Presbiteriana do Brasil. No final de 1861, Simonton contava com a companhia de outros pastores presbiterianos que contribuiriam para a obra presbiteriana em solo brasileiro: Alexander Latimer Blackford (cunhado e Simonton), Francis J. C. Schneider e James (irmão de Simonton).
A primeira igreja a ser organizada foi a do Rio de Janeiro, no dia 12 de janeiro de 1862. Infelizmente Simonton viveria poucos anos e não conseguiria ver os grandes frutos de seu trabalho. Devido as constantes enfermidades, Simonton  morreu poucos anos depois de ter chegado ao Brasil, em 9 de dezembro de 1867.
Que em sua infinita graça e amor, Deus abençoe a Igreja Presbiteriana do Brasil e que a obra que Ele iniciou por instrumentalidade de seus servos, alcance seu objetivo. 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Livre-arbítrio: Afinal, temos ou não temos?

Introdução

Neste estudo, iremos procurar entender a questão que envolve o termo “Livre-arbítrio”.
Trata-se de um tema que trouxe grande discussão durante alguns períodos da História da Igreja. O entendimento diferente acerca deste tema, ou seja, a defesa da existência de um “livre-arbítrio” ou a sua negação, tem divido pessoas até hoje.
Mas, afinal temos ou não temos livre-arbítrio? É isto mesmo que iremos verificar, não só analisando as posições teológicas acerca do assunto, mas, buscando luz da Bíblia para clarear nosso entendimento.
Antes de mais nada precisamos definir o que seja esse tal “Livre-arbítrio”:

1. Livre-arbítrio
“Livre-arbítrio” tem sido definido, como a capacidade dada ao homem, por ocasião de sua criação, para escolher entre o bem e o mal, entre agradar a Deus ou desobedecê-Lo. Seria o “livre poder de eleger o bem ou o mal”.[1]
Héber Carlos de Campos também a define como tendo sido a capacidade que o homem teve, “de escolher as coisas que combinavam com a sua natureza santa, mas que, mutavelmente, pudesse escolher aquilo que era contrário à sua natureza santa”.[2]
Vejam que tais definições estão de acordo com o que prescreve a Confissão de Fé de Westminster (CFW):

O homem em seu estado de inocência, tinha a liberdade e o poder de querer e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas mudavelmente, de sorte que pudesse decair dessa liberdade e poder.[3]


É importante dizermos que quanto à definição, não existe dificuldade. O problema todo que envolve o tema, é se o homem hoje, depois da queda , possui ou não esse tal de livre-arbítrio.
Antes mesmo de entrar propriamente na discussão, se o homem ainda dispõe dessa capacidade, precisamos dizer algo acerca de uma faculdade natural e inalterada no homem, mesmo depois da queda, chamada de “livre agência” ou “capacidade de escolha”.

2. Livre Agência ou Capacidade de Escolha
Existe no homem uma capacidade tal que lhe dá condições de fazer escolhas, de acordo com o que lhe é agradável. O homem sempre e em qualquer condição faz as suas escolhas, de tal forma que ele é responsabilizado por elas. “Essa capacidade ou aptidão é um aspecto inalienável da natureza humana normal”.[4] Ele é livre para escolher o que lhe agrada, de acordo com suas inclinações.
Sobre este aspecto da existência humana a CFW diz o seguinte:
Deus dotou a vontade do homem com tal liberdade natural, que ela nem é forçada para o bem nem para o mal, nem a isso determinada por qualquer necessidade absoluta de sua natureza. Ref. Tiago 1:14; Deut. 30:19; João 5:40; Mat. 17:12; At.7:51; Tiago 4:7.[5]

Comentando acerca desta seção da CFW, A. A. Hodge diz o seguinte:
...que a alma humana, inclusive todos os seus instintos, ideias, juízos, emoções e tendências, tem o poder de decidir por si mesma; isto é, a alma decide em cada caso como geralmente lhe agrade.[6]

O homem é livre para escolher, sendo que nada externamente pode forçar suas escolhas. Isto é essencial no homem, faz parte da sua criação a imagem e semelhança de Deus. “À parte dela, não pode haver qualquer responsabilidade, confiança ou planejamento. À parte dela, não pode haver educação, religião ou adoração. À parte dela, não pode haver qualquer arte, ciência ou cultura. A capacidade de escolher é uma condição sine qua non de toda a vida humana”.[7]
A definição de Campos sobre este assunto é também esclarecedora:
Livre Agência, por outro lado, poderia ser definida como a capacidade que todos os seres racionais têm de agir espontaneamente, sem serem coagidos de fora, a caminharem para qualquer lado, fazendo o que querem e o que lhes agrada, sendo, contudo, levados a fazer aquilo que combina com a natureza deles.[8]

Campos ainda falando sobre este aspecto, enfatizando a responsabilidade humana em suas escolhas diz:
É importante que o ser racional que ele aja sempre movido pelo seu ego. A responsabilidade dele sempre estará diretamente ligada à voluntariedade do seu ato. Todos os atos dele devem ser auto-inclinados e auto-determinados.

Portanto, para que haja responsabilidade, não é necessário que haja o poder de escolha contrária, mas sim, que haja o poder de auto-determinação, que a ação seja nascida nas inclinações do ser racional.[9]

Pelo que ficou demonstrado, em qualquer época o homem é livre para agir conforme sua condição, sua natureza, ou seja, ele sempre faz o que quer conforme a sua inclinação.

3. A queda do homem: O que aconteceu ao livre-arbítrio?
Como dissemos acima, na criação o homem recebeu a capacidade de fazer escolhas e possuía também a liberdade de fazer escolhas certas, ou seja, podia escolher agradar a Deus, de tal forma que pudesse cair desse estado em que foi criado. O homem foi criado totalmente santo, integro, contudo podia escolher algo que fosse contrário a essa sua natureza. E foi isso o que aconteceu, ou seja, escolheu pecar. “No princípio, portanto, o homem não era um ser neutro, nem bom nem mau, mas um ser bom que era capaz de, com a ajuda de Deus, viver uma vida totalmente agradável a Deus”.[10] Como dizia Agostinho, o homem tinha a “capacidade de não pecar” (posse non peccare).[11]
Neste sentido, até antes de sua queda podemos dizer, o homem possuía o livre-arbítrio, contudo, com a desobediência, ele perdeu tal capacidade, sendo que não mais consegue fazer escolhas certas, não consegue agradar a Deus. Suas escolhas serão sempre determinadas pelo estado em que caiu. Suas escolhas serão de acordo com a sua natureza.
É neste ponto que surgem então discussões, pois, diferente da posição Reformada Calvinista, os Arminianos irão afirmar que o homem ainda  possui o livre-arbítrio. Ele pode sem a intervenção de Deus, em seu estado natural, fazer escolhas espirituais acertadas.
Para os arminianos a queda do homem, embora tenha trazido algum prejuízo não afetou totalmente o homem, sendo que, continua em seu estado natural a ter habilidades para escolher a salvação, para escolher agradar a Deus. Desta forma, a depravação não foi total.
Vejam mais detalhadamente a posição dos arminianos[12] quanto à depravação do homem:
Embora a natureza humana tenha sido seriamente afetada pela queda, o homem não ficou reduzido a um estado de incapacidade total. Deus, graciosamente, capacita todo e qualquer pecador a arrepender-se e crer, mas o faz sem interferir na liberdade do homem. Todo pecador possui uma vontade livre (livre arbítrio), e seu destino eterno depende do modo como ele usa esse livre arbítrio. A liberdade do homem consiste em sua habilidade de escolher entre o bem e o mal, em assuntos espirituais. Sua vontade não está escravizada pela sua natureza pecaminosa.. O pecador tem o poder de cooperar com o Espírito de Deus e ser regenerado ou resistir à graça de Deus e perecer. O pecador perdido precisa da assistência do Espírito, mas não precisa ser regenerado pelo Espírito antes de poder crer, pois a fé é um ato deliberado do homem e precede o novo nascimento. A fé é o dom do pecador a Deus, é a contribuição do homem para a salvação.[13]

O ensino arminiano segue o  raciocínio de Pelágio, com diferença apenas no fato de que este, dizia que a queda não afetou em nada a humanidade, de tal forma que “o homem continua nascendo na mesma condição em que Adão estava antes da queda. Esta isento não só de culpa, como também de polução.”[14] Por isso, os arminianos são considerados semi-pelagianos, pois pensam que o homem depois da queda tenha capacidade para fazer escolhas certas.
Os reformados calvinistas, em contra partida, afirmam que a queda incapacitou totalmente o homem, afetando todas as suas faculdades. O homem após a queda perdeu tal liberdade, sendo agora escravo do pecado, morto espiritualmente.
Vejam mais detalhadamente o pensamento calvinista sobre a depravação total
Devido à queda, o homem é incapaz de, por si mesmo, crer de modo salvador no Evangelho. O pecador está morto, cego e surdo para as coisas de Deus. Seu coração é enganoso e desesperadamente corrupto. Sua vontade não é livre, pois está escravizada à sua natureza má; por isso ele não irá - e não poderá jamais - escolher o bem e não o mal em assuntos espirituais. Por conseguinte, é preciso mais do que simples assistência do Espírito para se trazer um pecador a Cristo. É preciso a regeneração, pela qual o Espírito vivifica o pecador e lhe dá uma nova natureza. A fé não é algo que o homem dá (contribui) para a salvação, mas é ela própria parte do dom divino da salvação. É o dom de Deus para o pecador e não o dom do pecador para Deus.[15]

Os calvinistas neste sentido seguem os ensinos de Agostinho, que por sua vez combateu os ensinamentos de Pelágio. Agostinho ensinou que quando os seres humanos “pecaram, embora não perdessem a sua capacidade de fazer escolhas, perderam a sua capacidade de servir a Deus sem o pecado – em outras palavras, a sua verdadeira liberdade. O homem tornou-se, então, um escarvo do pecado; ele passou ao estado de ‘não ser capaz de não pecar’ (non posse non peccare).”[16]
A CFW afirma o seguinte acerca disso:
O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso. Ref. Rom. 5:6 e 8:7-8; João 15:5; Rom. 3:9-10, 12, 23; Ef.2:1, 5; Col. 2:13; João 6:44, 65; I Cor. 2:14; Tito 3:3-5.[17]

Calvino também disse o seguinte acerca desta situação do homem:
As Escrituras atestam que o homem é escravo do pecado; o que significa que seu espírito é tão estranho à justiça de Deus que não concebe, deseja, nem empreende coisa alguma que não seja má, perversa, iníqua e impura; pois o coração, completamente cheio do veneno do pecado, não pode produzir senão os frutos do pecado.[18]

O homem, após a queda não possui mais o livre-arbítrio, não pode mais escolher algo que é contrário a sua natureza pecaminosa. Ele está morto, cego, é escravo do pecado.
Esta doutrina defendida pelos calvinistas, pelos reformados, que por sua vez é negada pelos arminianos, não se trata apenas de uma posição teológica diferente, e sim de afirmação bíblica. Nega-la é o mesmo que renunciar a Palavra de Deus neste assunto.
São inúmeros os textos que afirmam tal verdade, falando que o homem está incapacitado totalmente de atender ao convite de salvação, de atender as exigências divinas. Isto acontece por seu próprio pecado, por sua própria inclinação e desejo. À parte da graça de Deus o homem, por sua própria iniciativa não pode salvar-se, ou escolher isto.
Vejamos textos que servem de base para a doutrina calvinista:
1.     O homem está morto, incapaz de qualquer bem, precisando da intervenção divina: Jr 13.23; Ef. 2.1-10;  Rm 3.9-18, 23; Cl 2.13; Tt 3.3-5.
2.     O homem não consegue ir até Jesus, senão com a ajuda somente de Deus: Jo 6.44, 65; Rm 9.16.
3.     O homem precisa nascer de novo, contudo, isto só aconteça através da atuação do Espírito Santo, que age soberanamente: Jo 3.1-15.
4.     O homem não pode compreender as coisas espirituais, senão pelo Espírito: I Co 2.14-16.
5.     A Bíblia declara que o homem está cego, que é escravo do pecado. Não pode fazer outra coisa senão pecar, a não ser que Deus mude seu estado: Ef. 4.18; Jo 8.31-36; Jo 9.35-41; Rm 6.15-23; 2 Tm 2.26.
6.     O homem não pode apresentar um fruto diferente daquilo que ele é: Mt 7.16-18; Tg 1.16-18.
Percebam que, afirmar que o homem tem o livre-arbítrio é o mesmo que ignorar tais textos da Bíblia.
É importante enfatizar que, o homem mesmo neste estado, continua ser um agente livre, ou seja, ele exerce “a livre agência”. Isto quer dizer que continua a fazer as suas escolhas, contudo, não escolhe nada que seja contrário a sua natureza pecaminosa (Jo 5.40; Tg 1.14; Mt 17.12; At 7.51; Ef 2.3). O homem nunca é forçado a fazer algo que não deseja. Faz sempre aquilo que lhe traz prazer.
Sobre isto, diz Calvino:
Não pensemos, entretanto, que o homem peca como que impelido por uma necessidade incontrolável; pois peca com o consentimento de sua própria vontade continuamente e segundo sua inclinação. Mas, visto que, por causa da corrupção de seu coração, odeia profundamente a justiça de Deus; e, por outro lado, atrai para si toda sorte de maldade, por isso afirmamos que não tem o livre poder de eleger o bem ou o mal – que é o que chamamos livre-arbítrio.[19]

Campos diz também o mesmo:
Originalmente, antes da queda, o homem teve tanto o livre arbítrio como a livre agência. Depois da queda o homem ficou somente com a livre agência, pois perdeu tanto o desejo quanto a capacidade de fazer o bem, isto é, o poder de agir contrariamente à sua natureza.[20]

Assim, é o homem quem escolhe continuar no pecado, contudo, não tem capacidade, por causa do seu próprio pecado e maldade, para escolher coisa diferente a não ser que suas inclinações e vontade sejam transformadas por Deus, recebendo habilidade para escolher o que é bom e reto. Por isso o homem é sempre responsabilizado por seus atos, pois, sempre escolhe o que lhe agrada.

4. Na Redenção do Homem: O que acontece ao livre-arbítrio?
Quando Deus em sua livre graça, resolvendo salvar o homem, age em seu coração e pela ação do Espirito lhe implanta vida, o que acontece é que o homem recebe habilidade para escolher o que é reto e bom. A Bíblia descreve este ato, como o da libertação de um escravo, dando-lhe liberdade para escolher o que é agradável a Deus, contudo, muito embora liberto, pode ainda inclinar-se para o pecado. O homem passa a desejar o que é bom. Isto não significa que não deseje o pecado, pois, ainda permanece nele a imperfeição.
Sobre isto diz a CFW:
Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, ele o liberta da sua natural escravidão ao pecado e, somente pela sua graça, o habilita a querer e fazer com toda a liberdade o que é espiritualmente bom, mas isso de tal modo que, por causa da corrupção, ainda nele existente, o pecador não faz o bem perfeitamente, nem deseja somente o que é bom, mas também o que é mau. Ref. Col.1: 13; João 8:34, 36; Fil. 2:13; Rom. 6:18, 22; Gal.5:17; Rom. 7:15, 21-23; I João 1:8, 10.[21]

Estaria o homem regenerado na mesma condição de Adão antes da queda, ou seja, teria ele agora novamente o livre-arbítrio? Não, pois, não voltamos a ser como era Adão. Ele era perfeitamente reto, santo, e podia escolher algo que fosse contrário ao que era a sua natureza. O homem regenerado recebe liberdade para escolher o que é bom, contudo, não tem o livre arbítrio, pois não escolhe algo contrário ao que ele é. Ou seja, quando escolhe o que é bom, faz isso de acordo com a sua nova natureza criada em Cristo e quando escolhe pecar, faz isso, conforme a sua natureza carnal. Esta é a luta que reside dentro do homem restaurado. Ele não pode dar lugar ao velho homem (Ef 4.17-24; Cl 3.1-11).
 É importante ressaltar que, sendo regenerado o homem recebe habilidade, que antes não tinha, para escolher a Deus. Conforme Agostinho, o homem recebe a capacidade de não pecar (posse non peccare).[22] Por isso, e somente assim, pode atender ao convite do Evangelho para a sua salvação. O homem na regeneração continua a exercer a sua “livre agência”.
Vejam como a CFW, fala da condição que o homem tem para fazer escolhas espirituais, como um ser ativo:
Todos aqueles que Deus predestinou para a vida, e só esses, é ele servido, no tempo por ele determinado e aceito, chamar eficazmente pela sua palavra e pelo seu Espírito, tirando-os por Jesus Cristo daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza, e transpondo-os para a graça e salvação. Isto ele o faz, iluminando os seus entendimentos espiritualmente a fim de compreenderem as coisas de Deus para a salvação, tirando-lhes os seus corações de pedra e dando lhes corações de carne, renovando as suas vontades e determinando-as pela sua onipotência para aquilo que é bom e atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que eles vêm mui livremente, sendo para isso dispostos pela sua graça. Ref. João 15:16; At. 13:48; Rom. 8:28-30 e 11:7; Ef. 1:5,10; I Tess. 5:9; 11 Tess. 2:13-14; IICor.3:3,6; Tiago 1:18; I Cor. 2:12; Rom. 5:2; II Tim. 1:9-10; At. 26:18; I Cor. 2:10, 12: Ef. 1:17-18; II Cor. 4:6; Ezeq. 36:26, e 11:19; Deut. 30:6; João 3:5; Gal. 6:15; Tito 3:5; I Ped. 1:23; João 6:44-45; Sal. 90;3; João 9:3; João6:37; Mat. 11:28; Apoc. 22:17.

Esta vocação eficaz é só da livre e especial graça de Deus e não provem de qualquer coisa prevista no homem; na vocação o homem é inteiramente passivo, até que, vivificado e renovado pelo Espírito Santo, fica habilitado a corresponder a ela e a receber a graça nela oferecida e comunicada.
Ref. II Tim. 1:9; Tito 3:4-5; Rom. 9:11; I Cor. 2:14; Rom. 8:7-9; Ef. 2:5; João 6:37; Ezeq. 36:27; João5:25. [23]

É o homem que diz sim a Deus, que diz sim ao chamado do Evangelho, depois de ter sido habilitado para isso, libertado do pecado. O abrir dos olhos, a nova criação, o nascer de novo, é obra da livre graça de Deus e se não for assim, ninguém poderá crer em Cristo. Se não recebermos a fé que vem do Senhor, nunca poderemos crer. Maravilhosa Graça!

5. Na glorificação do Homem: Terá o livre-arbítrio?
Quando formos glorificados, por ocasião da vinda de Cristo e completação de nossa salvação, teremos de volta o livre-arbítrio? Não, na glorificação, não voltaremos a ser como Adão, estaremos à frente dele, pois, ele quando criado não gozava de uma perfeição permanente, ou seja, podia cair de tal estado. Ele podia escolher algo contrário a sua natureza, contudo, se tivesse sido obediente poderia ter alcançado a perfeição permanente. Os crentes glorificados – como resultado final da obra de Cristo neles – alcançarão o que Adão não pode alcançar. Teremos perfeita liberdade para servir a Deus. Continuaremos a sendo agentes livres, pois, escolheremos o que estará de acordo com a nossa natureza perfeita. Nunca escolheremos pecar, pois, não haverá tal possibilidade, então, nunca mais teremos o livre-arbítrio.
Desta forma, como disse Agostinho, alcançaremos o estado “não posso pecar” (non posse peccare).[24]
Diz a CFW:
É no estado de glória que a vontade do homem se torna perfeita e imutavelmente livre para o bem só. Ref. Ef. 4:13; Judas, 24; I João 3:2.[25]

Comentando a CFW, Hodge diz:
Quanto ao estado dos homens glorificados no céu, nossa Confissão ensina que continuam, como antes, agentes livres; contudo, os restos de suas velhas tendências morais corruptas, sendo extirpadas para sempre, e as graciosas disposições implantadas na regeneração, sendo aperfeiçoadas, e o homem todo, sendo conduzido à medida da estatura do varão perfeito, à semelhança da humanidade glorifica de Cristo, permanecem  para sempre perfeitamente livres e imutavelmente dispostos à perfeita santidade. Adão era santo e instável. Os homens não regenerados são impuros e estáveis; isto é, são permanentes na impureza. Os homens regenerados possuem duas tendências morais opostas, digladiando-se pelo domínio em seus corações. São lançadas entre elas, contudo a tendência graciosamente implantada gradualmente por fim prevalece perfeitamente. Os homens glorificados são santos e estáveis. São todos livres e, portanto, responsáveis.[26]

Portanto na glorificação, seremos para sempre livres, sem também o livre-arbítrio para sempre.



Conclusão

Os reformados, os calvinistas crêem no livre-arbítrio, como tendo sido uma habilidade concedida a Adão e perdida na queda. Desde então o homem natural, pós-queda, ficou desprovido de qualquer habilidade para fazer escolhas santas, agradáveis a Deus. Não lhe resta outro desejo senão o de pecar, conforme as inclinações de seu próprio coração, sendo assim, um agente livre e responsável.
Cremos que, nunca mais tal habilidade fará parte da existência humana. O fato de Deus nos libertar do pecado nos habilitando a fazer escolhas acertadas, não é o mesmo que dizer que temos o livre-arbítrio. As escolhas sempre estarão de acordo com a nossa natureza, ou naturezas.
Nem antes, nem depois, voltaremos a ser como era Adão. Na glorificação estaremos à frente dele, num estado em que o pecado não será possível.
Dizermos que existe um tal de livre-arbítrio, seria o mesmo que dizer que Deus não é soberano sobre a salvação do pecador, que Ele está sujeito ao querer do homem.
Se não fosse Deus, sua graça, o que seria de nós? Nunca escolheríamos a Ele.
Que o estudo acerca desse tema, possa-nos motivar a glorificar a Deus por causa da sua graça que, agindo em nós mudou nossas inclinações e vontade, fazendo-nos querer, desejar, o que não queríamos nem desejávamos.

Sola Gratia!
Soli Deo Gloria!



 
 




[1] Juan Calvino, Breve Instruccion Cristiana, Felire, Barcelona, pg. 13.
[2] Héber Carlos de Campos, Antropologia Bíblica, Apostila, JMC, São Paulo, pg.9.
[2] CFW, IX, II.

[4] Anthony Hoekema , Criados a Imagem de Deus,  CEP, São Paulo, 1999, pg. 252.
[5] CFW, IX, I.
[6] A. A. Hodge, Confissão de Fé de Westminster Comentada, Os Puritanos, 1999, pg. 220.
[7] Hoekema, pg. 253.
[8] Campos, pg. 10.
[9] Idem.
[10] Hoekema, pg. 255.
[11] Citado por Hoekema, pg. 255.
[12] O nome “arminiano”, se aplica aos seguidores de James Arminius (um professor de seminário holandês),  que, em 1610 apresentaram um protesto ao “Estado da Holanda”, “um ano após a morte de seu líder. O protesto consistia de  ‘cinco artigos de fé’, baseados nos ensinos de Armínio, e ficou conhecido na história como a ‘Remonstrance’, ou seja, ‘O Protesto’. O partido arminiano insistia que os símbolos oficiais de doutrina das Igrejas da Holanda (Confissão Belga e Catecismo de Heidelberg) fossem mudados para se conformar com os pontos de vista doutrinários contidos no Protesto. As doutrinas às quais os arminianos fizeram objeção eram as relacionadas com a soberania divina, a inabilidade humana, a eleição incondicional ou predestinação, a redenção particular (ou expiação limitada), a graça irresistível (chamada eficaz) e a perseverança dos santos. Essas são doutrinas ensinadas nesses símbolos da Igreja Holandesa, e os arminianos queriam que elas fossem revistas.” Estas informações forma citadas da tradução livre e adaptada do livro The Five Points of Calvinism - Defined, Defended, Documented, de David N. Steele e Curtis C. Thomas, Partes I e II, [Presbyterian & Reformed Publishing Co, Phillipsburg, NJ, USA.], feita por João Alves dos Santos.
[13] Idem.
[14] Louis Berkhof, A História das Doutrinas Cristãs, PES, São Paulo, pg. 120.
[15] A formulação de tais idéias, foram apresentadas pelos calvinistas combatendo as idéias arminianas, apresentas no protesto ao Estado da Holanda. Tais idéias fazem parte do conhecido, “Os Cinco Pontos do Calvinismo”.
[16] Hoekema, pg. 255.
[17] CFW, IX, III.
[18] Citação extraída de Paulo Anglada, As Doutrinas da Graça, Puritanos, 2000, pg.  17.
[19] Idem.
[20] Campos, pg. 11
[21] CFW, IX, IV.
[22] Citação extraída de Hoekema, pg. 258.
[23] CFW, capítulo X; I, II, Da Vocação Eficaz.
[24] Hoekema, pg. 267.
[25] CFW, IX; V.
[26] Hodge, pg. 227.